Brasileirão Série A

O roteiro de cinema que levou o Palmeiras a mais um título brasileiro é digno de Oscar

Palmeiras conquistou Brasileiro com um tripé que tinha Abel no banco, Leila na diretoria e Endrick no campo

O palmeirense que disser que imaginava o Palmeiras campeão brasileiro no começo de outubro, ou está mentindo ou é otimista demais.

Após ser eliminado na semifinal da Copa Libertadores, o Verdão caiu numa crise de identidade que, não à toa, fez com que uma reviravolta fosse necessária para que o time ressurgisse.

Mas a conquista do Brasileiro não começou ali, na reviravolta. Afinal, o time comandado por Abel,  do clube presidido por Leila, somou 70 pontos no campeonatos. Sendo os últimos e decisivos 26, liderados por Endrick.

Bom começo

O Palmeiras começou o Brasileiro bem. Com cinco minutos de torneio, Endrick abriria o placar contra o Cuiabá, na vitória por 2 a 1.

Dos cinco primeiros jogos, o Palmeiras ganhou quatro, com duas goleadas (4 a 1 no Grêmio e 5 a 0 no Goiás) e uma vitória sobre o Corinthians (2 a 1).

Abel iniciou o ano dando moral a Endrick, que havia oscilado no Paulistão e ido para o banco.  Voltou a jogar só nas finais, após Bruno Tabata se lesionar. Fez gol nas duas partidas.

No começo do Nacional, parecia que o titular ia mesmo ser o 9. Mas, então, Artur, único reforço caro do ano, vindo do Red Bull Bragantino, começou a ganhar espaço. E Endrick, a perder.

Queda brusca

Depois do bom início, o Palmeiras teve 10 jogos de muita inconstância. Foram apenas duas vitórias entre 13 de maio e 16 de julho: 3 a 1 no Coritiba e 2 a 0 no São Paulo- no Morumbi, com gol de Endrick.

O Palmeiras empatou seis vezes e foi derrotado pelo Bahia (0 a 1), fora de casa, e pelo Botafogo, que já despontava como favorito, dentro do Allianz Parque (0 a 1).

Embora o time seguisse forte na Libertadores, com a melhor campanha geral, o desempenho no Brasileiro só caía. Hoje, pode-se concluir que tal período talvez tenha ligação com o sumiço de Endrick do time titular – e até dos jogos como um todo.

Leila vira personagem grande do enredo

Fora de campo, uma parte importante do ano palmeirense começava a se desenhar em 29 de junho.

A Mancha Alviverde, a principal organizada do Palmeiras, fez um protesto contra a presidente Leila Pereira, na frente da sede da Crefisa, empresa da qual é proprietária. Teve até manifestação no telão da Times Square, em Nova York.

Posteriormente, a crítica viria também para a frente do clube. A torcida não perdoava o Palmeiras passar sem reforços por mais uma janela de transferências. E alguns torcedores depredaram lojas da Crefisa, num ato de vandalismo descabido.

Para completar, Leila comprou um avião para o time usar, dizendo que reforços não eram necessários diante da compra da aeronave que seria emprestada ao time.

Pintada na fuselagem, estava o logo da Placar, a empresa de aviação civil que era o novo empreendimento de Leila. E tal uso do clube para fim de promoção da companhia não caiu bem com a oposição palmeirense.

Os dois protestos da Mancha foram transmitidos nas redes sociais. E durante as transmissões, houve quem ameaçasse Leila de morte, num comportamento inaceitável, mas muito mais inconsequente do que real. Mas que Leila não deixaria passar.

Endrick joga menos ainda, mas o Palmeiras cresce

O Palmeiras ensaiou uma boa fase no campeonato nos oito jogos seguintes, entre 22 de julho e 16 de setembro.

Ao mesmo tempo, Abel perdeu, nessa época, seu jogador mais experiente. Na vitória contra o Vasco, na esteira da classificação às quartas da Libertadores, Dudu rompeu o ligamento cruzado do joelho direito.

Após conseguir seis vitórias – perdeu apenas para o Fluminense, no Rio (1 a 2) – o time começou a ver o Botafogo mais de perto.

Longe do time titular, Endrick passou por todo esse período jogando pouco e em jejum. O camisa 9 só começou como titular contra o Flu – e não foi bem.

Mesmo assim, Endrick seguiu no time contra o Grêmio, em mais uma derrota do Palmeiras, por 2 a 1, em Porto Alegre. E, então, veio a Data-Fifa.

O que ainda não se sabia é que ali, naquela derrota em Porto Alegre, Abel entendeu qual era a melhor maneira de utilizar Endrick. Atuando centralizado, como um 9 típico, o garoto não rendia. Nascia ali a ideia de um Palmeiras sem pontas.

A depressão

Elenco do Boca Juniors, em jogo contra o Palmeiras pela semifinal da Libertadores, comemorando a classificação à final da competição continental. Foto: Icon Sport.

A partir de 13 de setembro, em intervalo de dias, Leila Pereira conseguiu atingir diversos detratores. Os acontecimentos acabaram criando um clima nebuloso às vésperas do jogo mais importante do ano, contra o Boca Juniors, na Argentina.

A dirigente obteve uma medida protetiva contra o presidente e três diretores da Mancha, por conta das ameaças contra ela feitas nas lives de junho.

Além disso, não disponibilizou qualquer carga de ingressos para a organizada ir a Buenos Aires ver Boca x Palmeiras, que seria em 28 de setembro.

No clube, a mandatária também começou uma contra-ofensiva. Questionada por parte do conselho deliberativo, pela natureza da relação entre a Placar e o Palmeiras, ela deu de ombros para as perguntas que lhe foram feitas e ainda cortou os ingressos bonificados aos conselheiros que não faziam parte de sua base política.

Em 5 de outubro, o Palmeiras atingiu seu pior momento na temporada. Após ser eliminado pelo Boca na Libertadores, o Verdão parecia sem rumo. Sensação que também se sentia fora de campo.

A queda que precede outra queda, mas arruma a casa

Por mais traumática que tenha sido, a eliminação veio dar o choque que o time precisava. Porque no jogo seguinte, contra o Santos (1 a 2, em Barueri), Mayke voltou para a lateral, para que Endrick entrasse na equipe pela ponta-direita.

Foram oito jogos com Artur sem render nada, improvisado na ponta-esquerda. Tanto quanto Mayke, improvisado na ponta-direita. E Rony, de centroavante, praticamente inútil em campo. Até Abel Ferreira se convencer a mexer nessa formação.

Na derrota para o Peixe, por mais abatimento que os demais jogadores mostrarem, Endrick e Kevin, os dois garotos que todos pediam a Abel, voaram.

O início de mais uma Data-Fifa, logo depois do clássico de 8 de outubro, poderia ter sido um período de paz para o clube. Mas ficou bem longe disso.

A coletiva, a formação do time e a trégua

Seis dias após a eliminação na Libertadores, a presidente Leila Pereira convocou alguns veículos para uma entrevista coletiva.

O intuito declarado era “dar explicações”. Em vez disso, a dirigente fez uma ode a si mesma e resumiu a história do Palmeiras a “antes e depois dela”, com certo desprezo pela História do clube. Leila até foi ao conselho se explicar pelo que dissera, tamanho fora seu erro de approach.

Foram dias com a controversa fala dominando o noticiário, enquanto Abel pensava maneiras de o Palmeiras voltar a jogar futebol. Não deve ter sido de propósito. Mas o fato é que tanta Leila no noticiário resultou em pouco Abel. O que era bom àquela altura.

Mesmo assim, o clima no primeiro jogo péssimo. Tanto que, na volta da Data-Fifa, pedras na chuteira do clube, o time perde para o Atlético-MG, por 2 a 0, num jogo em que a torcida mais xingou a presidente do que torceu.

Endrick foi titular neste dia. Rony também, mas pela última vez antes de um hiato de seis jogos.

Não por coincidência, a boa fase se firmou quando a Mancha decidiu ignorar Leila Pereira. Que, por sua vez, parou de falar da organizada.

A arrancada alviverde

Gustavo Gómez marcou um dos gols da vitória do Palmeiras sobre o Coritiba (Foto: Icon Sport)

Sem Endrick, suspenso, o Palmeiras que venceu o Coritiba por 2 a 0, no Couto Pereira, não tinha pinta de campeão. Até porque, só o Botafogo tinha essa pecha àquela altura. Para o Palmeiras, o Glorioso tinha 12 pontos de diferença.

Mas aí veio a goleada por 5 a 0 sobre o São Paulo. E não tem como um time do Palmeiras não sair maior de uma goleada contra o arquirrival.

Na sequência, veio o 1 a 0 sobre o Bahia, num jogo em que o time foi bem, apesar do placar curto. E, então, aconteceu “O jogo” que mudou tudo. “O jogo” que alçou Endrick a um novo patamar.

No Nilton Santos, em 2 de novembro, o Botafogo fez 3 a 0 ainda no primeiro tempo, no seu último ato de brilhantismo na temporada. O Palmeiras estava nocauteado em pé quando foi para o vestiário, no intervalo.

Na volta, o que se viu foi uma das melhores atuações individuais de um palmeirense na história recente do clube. Aos 4, Endrick fez jogada individual, entrou na área costurando e bateu rasteiro para vencer Lucas Perri.

Ao pegar a bola para reiniciar o jogo, o camisa 9 avisou aos colegas: “Joga em mim”. E assim foi, com dois gols e uma assistência. No segundo gol, Endrick deu uma ajeitada na bola, quicando ela no chão com o joelho, num movimento quase inédito.

O Palmeiras melhorou no jogo e o Botafogo parou de jogar. Aos 30, veio o que o Palmeiras precisava, com a expulsão de Adryelson após falta em Breno Lopes, que o VAR sinalizou. Parecia que tudo conspirava para o Palmeiras.

E de certo modo, isso se confirmou. Porque o Botafogo teve um pênalti a seu favor aos 37, que Weverton defendeu.

Aos 39, Endrick fez o segundo do Verdão, batendo da entrada da área. Aos 43, Endrick, da ponta direita do campo, olha para cima e faz o cruzamento na cabeça de Gustavo Gómez, que ajeita para Flaco López mandar para a rede. E Murilo, aos 54, virou para o Verdão, após cruzamento de Veiga: 4 a 3.

Dali em diante, o Palmeiras foi enfileirando vitórias: 1 a 0 no Athletico-PR, em Barueri, com gol de Endrick. Um 3 a 0 no Internacional com facilidade – em Barueri e com gol de Endrick. Depois, 4 a 0 no América-MG, com gol de Endrick. E 1 a 0 no Fluminense– dessa vez, gol de Breno Lopes.

Em 11 partidas seguidas, o Palmeiras perdeu pontos apenas três vezes: No 0 a 3, ante o Flamengo, no Maracanã. No 2 a 2, com o Fortaleza, no Castelão. E, por fim, no 1 a 1 com o Cruzeiro que selou o título. Com um gol de Endrick.

Jogadores do Palmeiras comemoram virada sobre o Botafogo no Engenhão (Foto: Icon Sport)

Abel fica?

Ainda no campo, após o empate com o Cruzeiro, Abel foi indagado sobre sua permanência no clube. E não deu resposta conclusiva:

– Vocês sabem que tenho contrato, no futebol não posso garantir nada. Quando cheguei aqui não podia prometer títulos, só uma equipe de qualidade. Eu tenho contrato e qualquer coisa que aconteça, não sei o que vai acontecer. Estou cansado, preciso de férias. Dia 17 já voltamos a competir. É muito difícil para mim – afirmou o treinador.

Leila também foi questionada:

– Não conversei com nosso treinador. Ele continua trabalhando da mesma forma. Como estávamos focados no campeonato, não quis desfocar. Uma coisa o torcedor pode ter certeza: eu desejo que o Abel fique por muito tempo no Palmeiras. E vou fazer o possível e o impossível.

O campeonato acabou. Mas essa novela, ainda não. O Palmeiras quer uma resposta até o fim da semana. Não deve passar de sexta-feira. A ver.

Brasileiro Serie A
# Seleção J V E D +/- Pontos
1 Atletico GO

Atletico GO

0 0 0 0 0 0
1 Atletico Mineiro

Atletico Mineiro

0 0 0 0 0 0
1 Botafogo

Botafogo

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1 Athletico Paranaense

Athletico Paranaense

0 0 0 0 0 0
1 Flamengo

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1 Vasco da Gama

Vasco da Gama

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1 Criciuma

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1 Cruzeiro

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1 Cuiaba

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1 EC Bahia

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1 EC Juventude

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1 Vitoria

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1 Fluminense

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1 Fortaleza EC

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1 Gremio

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1 Bragantino

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1 Sao Paulo

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1 Corinthians

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1 Internacional

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1 Palmeiras

Palmeiras

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Foto de Diego Iwata Lima

Diego Iwata Lima

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero, Diego cursou também psicologia, além de extensões em cinema, economia e marketing. Iniciou sua carreira na Gazeta Mercantil, em 2000, depois passou a comandar parte do departamento de comunicação da Warner Bros, no Brasil, em 2003. Passou por Diário de S. Paulo, Folha de S. Paulo, ESPN, UOL e agências de comunicação. Cobriu as Copas de 2010, 2014 e 2018, além do Super Bowl 50. Está na Trivela desde 2023.
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