Brasileirão Série A

Paulo Junior: Palmeiras sem Dudu perde em técnica e pausa, mas pode arejar o time

Lesão de Dudu em reta final de temporada coloca à prova elenco curto e recheado de jogadores jovens do Palmeiras

O Palmeiras perdeu Dudu, 443 jogos com a camisa do clube, para a reta final da temporada, abrindo um raro espaço no time com a saída de seu titular mais longevo e colocando à prova o elenco curto, recheado de jogadores das categorias de base, que fez só duas contratações para este ano e carece de opções mais consistentes para substituir suas principais referências.

Na posição, primeiro o clube vendeu Gabriel Verón, depois teve a saída de Scarpa, liberou Wesley e negociou também Giovani. Tabata chegou e já saiu. Atacante de lado de campo, garotos de primeira viagem à parte, apenas Breno Lopes, não coincidentemente reforço garimpado da Série B bem no exílio pessoal de Dudu no Catar.

O heroi improvável da Copa Libertadores de 2020 chegou dando boa entrega para Abel Ferreira, com vitalidade e finalização em tempos de pandemia. Quando o pequeno público de convidados num Maracanã vazio pediu por Willian, o técnico português foi de Breno, que tocou de cabeça para fazer o gol do título contra o Santos. Se houvesse Dudu, teria buscado uma alternativa de velocidade no Juventude naquela altura de oitavas de final de Copa? Os anos seguintes mostram que provavelmente não.

Breno é quem foi a campo minutos depois da lesão do camisa 7 na vitória contra o Vasco no último domingo, chamado depois por Abel de opção “por hierarquia”, ainda que tivesse cogitado a estreia de Kevin. Interessante que a última vez que o mineiro de 27 anos foi escolhido como titular num jogo grande bate exatamente com o retorno do protagonismo de Dudu, há dois anos. A retomada do baixinho na volta ao Brasil tirou espaço de Breno, a quem o treinador também já chamou de maior prejudicado pelas escalações do Palmeiras.

Nas quartas de final da Libertadores de 2021, contra o São Paulo no Morumbi, Breno jogou aberto pela esquerda (Dudu titular por dentro), seguindo as subidas de Daniel Alves pelo rival. Perdeu boas chances de marcar no gramado molhado e saiu no intervalo para a entrada de Wesley. Não foi a campo no duelo de volta, nem nas semifinais diante do Atlético-MG ou na decisão de Montevidéu com o Flamengo, tampouco ano passado contra Galo ou Athletico-PR pela Copa. Virou o homem dos gols nos acréscimos e das situações menores.

Se Breno seria essa opção mais segura para uma esperada semifinal na Argentina contra Boca Juniors ou Racing daqui um mês, John John é quem tem tido mais oportunidades no recorte recente, mais meia do que ponta, com melhor refino técnico e balanço para combinar com Veiga. É de se considerar que, não estivesse suspenso no final de semana, possivelmente teria entrado na lesão de Dudu ainda no primeiro tempo.

Outra consequência da cirurgia no joelho é a definição do lado oposto do time. Abel pode ter Mayke emulando um ponta-direita, como repetiu na Colômbia semana passada, e experimentar inverter Artur, aberto na esquerda. Piquerez jogou assim muitas vezes com Scarpa – um canhoto combinando com o lateral-esquerdo -, e o protagonismo seria confiado ao ex-jogador do Bragantino, recomprado ao fim do Campeonato Paulista, na virada para abril. Seria bem lógico deixar o time nas costas da espinha principal do elenco.

Mais opções dependeriam de mexidas mais bruscas no funcionamento atual do time. Poderia ter Endrick, hoje sem tanta prioridade, jogando da esquerda para dentro, como fez em alguns momentos em suas semanas de titular no Campeonato Paulista, como no clássico contra o Corinthians. Daria para ter Flaco López na referência com Rony caindo pelo lado, mas não parece uma tendência tirar o camisa 10 da posição em que se firmou e até chegou à seleção, a de centroavante. Teria ainda como adiantar Gabriel Menino como um falso ponta, como jogou em seu início, com dois volantes atrás, fazendo um terceiro homem de meio-campo junto de Zé Rafael e Richard Rios. E tem por fim uma provável volta de Luis Guilherme para entrar na briga, meia-atacante que poderia se juntar a Veiga caindo por ali, e que se recupera de lesão na coxa há duas semanas.

A principal falta que fará Dudu é por sua liderança técnica, óbvio, o melhor do elenco em resolver os lances mesmo pressionado e que lhe permite ser também a pausa, o ritmo do time ao escolher acelerar, pentear ou esperar a passagem do colega na medida certa. Nenhum palmeirense é marcado com mais cautela do que ele, capaz de desconcertar um lateral num passo. A régua ali é alta, e mesmo a fase pouco brilhante representa o melhor que os postulantes podem projetar em oferecer nesse sentido. Mas é fato também que o trio de ataque palmeirense já viveu momentos mais inspirados contra os principais adversários – Dudu teve muita dificuldade, por exemplo, contra Botafogo ou nos encontros com o São Paulo pela Copa do Brasil -, e pensar em novas soluções pode arejar o time, que às vezes tem sido um tanto previsível em seu plano tão rigoroso e bem definido.

O Palmeiras deve confirmar a classificação contra o Deportivo Pereira na quarta-feira, defendendo um 4 a 0 na ida como visitante, e depois terá quatro semanas até o início das semifinais da Libertadores. No caminho, um dérbi em Itaquera, um hiato de data Fifa, uma noite recebendo o Goiás, uma visita ao Grêmio em Porto Alegre e uma corrida na Academia de Futebol por preencher a ausência de Dudu, titular há oito anos e meio e lesionado pela primeira vez, no sonho do tetra continental no Maracanã.

Foto de Paulo Junior

Paulo Junior

Paulo Junior é jornalista e documentarista, nascido em São Bernardo do Campo (SP) em 1988. Tem trabalhos publicados em diversas redações brasileiras – ESPN, BBC, Central3, CNN, Goal, UOL –, e colabora com a Trivela, em texto ou no podcast, desde 2015. Nas redes sociais: @paulo__junior__.
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