Brasileirão Série A

Leila faz ode a si mesma e resume história do Palmeiras a antes e depois dela

Presidente do Palmeiras, Leila Pereira fez coletiva reafirmando ter feito o melhor possível e defendendo-se de ataques

O Palmeiras tem 109 anos de história. Mas para a presidente do Palmeiras, só existem dois períodos: antes e depois de Leila Pereira.

Em entrevista coletiva concedida a alguns veículos selecionados pelo clube, a presidente comentou o ano irregular do Palmeiras, defendendo suas decisões, atacando a organizada Mancha Verde, colocando-se como salvadora e lançando o desafio: se alguém comprovar que o Corinthians vai receber mais de patrocínio de camisa do que ela paga ao Palmeiras, ela vai mudar o contrato e equiparar o valor.

“O jornalista tem que ser responsável, porque são formadores de opinião. Não posso dizer que a camisa de um clube é R$ 123 milhões, você viu o contrato? Você não viu. Então como pode falar que a camisa de um clube vale R$ 123 milhões porque falaram? Tem que ser responsável, tem que ter a certeza de que vale. Me prove que essa camisa do Corinthians estão pagando R$ 123 milhões. Me mostrem o papel que eu pago R$ 123 milhões. Quero que comprove que essas empresas pagam R$ 123 milhões por ano”, disse ela, perto do fim de uma entrevista de quase uma hora em que falou de bate-pronto sobre tudo de que foi questionada.

Aliás, se existe algo de que Leila não pode ser acusada é de não falar com honestidade aquilo que lhe vem à cabeça.

Um exemplo claro de hoje é quando a mandatária disse: “A grande emoção (antes da chegada da Crefisa ao Palmeiras) era quando não caía. Hoje as pessoas ficam estressadas porque de quatro Libertadores, ganhamos duas e em duas saímos na semifinal. Isso é ridículo”.

Uma das grandes acusações a Leila é ao fato de ela não ser palmeirense. O que quase nunca é um problema prático. Mas que normalmente a trai quando ela tem de falar da história do clube. Porque uma palmeirense, digamos, mais ortodoxa, ficaria ofendida ou constrangida pelo menosprezo a mais de 100 anos de história.

Mas se o recorte foi de 2012 em diante, ela não está totalmente errada. E talvez aí more o grande problema. Leila enxerga o clube como uma empresa, cuja grandeza é medida só pelos resultados. E qualquer torcedor sabe que essa é só uma das medidas, e que não dá para se quantificar tal sentimento em números.

Críticas da arquibancada

Torcida do Palmeiras protesta contra a presidente Leila Pereira e cobra reforços

Leila também não se furtou de comentar as críticas feitas a ela pela torcida. Para Leila, no entanto, as críticas viriam apenas das organizadas, mais precisamente, da Mancha Verde, a quem ela chama de “cânceres do futebol”.

Vale lembrar que Leila tinha apoio expresso da Mancha, que inclusive batizou quadras de sua sede com os nomes dela e do marido, até fevereiro de 2022, quando rompeu com a companhia devido a pressões para que ela tirasse do Palmeiras o seu assessor pessoal, Olivério Júnior, ligado a Andrés Sanchez e outros nomes do Corinthians.

Mas se correr o dedo pelo celular em uma tela do antigo Twitter, a dirigente rapidamente perceberá que não são apenas os uniformizados que fazem críticas a ela.

Avaliação da temporada

Leila avalia que 2023, não foi um ano ruim, até porque, o time cumpriu o que ela pediu a Abel.

“Eu quando renovei o contrato do Abel, eu falei com ele que queria pelo menos um título por ano. Fui modesta. Ano passado tivemos três. Esse ano nós tivemos dois”, disse.

“Nós trabalhamos para ganhar todos os campeonatos. Infelizmente não conseguimos na Copa do Brasil e na Libertadores, por detalhes. Acho que foi boa. Gostaria que tivesse sido melhor, que nós sempre lutamos para conquistar o maior número de títulos possível sabendo que difícil. Estamos na luta do Brasileiro, complicado, mas estamos na luta. A gente luta sempre para conquistar o maior número possível”, disse.

Conflito de interesse

Mais uma vez, Leila negou que exista conflito de interesse no fato de ela patrocinar e ao mesmo tempo presidir o Palmeiras, dizendo que só coloca dinheiro no clube, jamais tira.

Eu poderia muito bem pegar esse dinheiro e investir em outros veículos, mas escolhi colaborar com nosso clube

Isso é uma falsa afirmação. Toodo patrocínio supõe uma contrapartida. Ocorre que muitas vezes pensa-se apenas na parte financeira.

Leila usufrui do Palmeiras sim. Paga caro por isso, mas usufrui. E se o que fez com que ela permaneça é o seu prazer e o do marido de colocar dinheiro e amealhar poder político para ser presidente do clube, aí está a contrapartida.

Sobre o tema, ela ainda se comprometeu a tirar as marcas de suas empresas da camisa caso surja uma empresa com uma oferta melhor de patrocínio.

“Temos contrato e vamos honrar até o final. Vou ser candidata a reeleição no Palmeiras e se o associado tiver confiança no meu trabalho e eu for reeleita, terei o maior prazer de continuar patrocinando. Mas nós faremos uma BID, uma concorrência, porque se vier alguém pagamento acima do valor que vou me propor a pagar, desde que seja uma empresa idônea.”

Veja o que mais Leila falou

Contratações

Navarro, do Palmeiras (Foto: NELSON ALMEIDA/AFP via Getty Images/One Football)

“É importante retroagirmos ao meu primeiro ano de mandato. Nós trouxemos cerca de 10 atletas. A presidente nunca contrata isoladamente, nós decidimos em conjunto. A presidente, a comissão técnica e nosso diretor de futebol. Sem a anuência desses três, ninguém entra e ninguém sai. Temos um planejamento a cada ano, em que o Abel se posiciona, sobre o que ele precisa, e essas solicitações vão para a nossa análise de mercado.”

“Ano passado contratamos, alguns não se adaptaram. É um investimento alto e você não tem a certeza de que ele vai performar, é muito subjetivo, alguns atletas não se adaptaram, tivemos que emprestá-los.”

“Em 2023, tivemos um pouco mais de cuidado, por responsabilidade financeira. Eu não vou sobrecarregar o Palmeiras financeiramente para dar satisfação a jornalistas, com todo respeito que tenho a vocês, alguns torcedores. Quem paga essa contratação é o clube e eu não posso sobrecarregar o clube acima do que é possível pagar. Eu penso o Palmeira a longo prazo. Quero que o Palmeiras continue sendo protagonista sempre.”

“Nós temos dificuldades de trazer atletas para o Brasil, os atletas não querem vir, e os meus atletas querem sair do Brasil. Não vou contratar atleta aposentado em atividade. Se não é aquele atleta que vá suprir as necessidades do nosso treinador, eu prefiro não trazer, prefiro dar espaço a nossa base, que é a melhor do Brasil, prefiro priorizar as renovações. Tivemos propostas para que vários atletas saíssem e consegui que eles ficassem. Como? Melhorando as condições financeiras desses atletas. Minha prioridade sempre é manter os nossos atletas, que estão trabalhando há bastante tempo conosco, tem ligação com o Palmeiras.”

“No meio do ano tentamos sim, mas os atletas que foram escolhidos pela nossa comissão técnica não quiseram vir jogar no Brasil. É muito difícil morar aqui, a insegurança do nosso país, dos nossos clubes, causam verdadeira repulsa. O próprio Abel na última coletiva dele falou isso, que tivemos que liberar alguns atletas no meio do ano por causa disso”

“Não estou querendo tirar a responsabilidade de cima de mim. Sou uma mulher que não tenho medo de absolutamente nada, porque tenho respeito pela verdade. Não tenho porque mentir, não tenho porque me esconder. Tenho essa dificuldade, de trazer atletas que joguem como quero. O Palmeiras não é lugar de aposentado. Não vou fazer isso. Não vou. Contratação é caro, então quero contratar jogadores que podem resolver.”

“O futebol não é matemático. Vejam clubes que têm um banco espetacular e não ganham nada. A crítica seria: Não contratou de forma correta. Mas tudo bem, estamos aqui para receber e responder críticas. O que não admito é atletas serem ameaçados ou a presidente ser ameaçada. Isso é surreal. Desvaloriza o grande produto que é o futebol brasileiro. Isso não é normal.”

Críticas da torcida

“A grande parte dos nossos torcedores compreende. Claro que ficamos chateados quando fomos desclassificados, mas é impossível ganhar todos os anos. Sou presidente há quase dois anos, nós conquistamos cinco títulos. Não sei se outro presidente com tão pouco tempo conquistou tanto quanto a nossa gestão. Eu entendo que o torcedor fica chateado. Ninguém fica mais chateado que eu, chateada. Quando ganha, nunca é a presidente. Quando fui eleita presidente, eu tinha certeza absoluta dessa pressão, acho normal em um clube tão grande quanto o nosso.”

“O torcedor organizado torce pela entidade deles, porque se torcesse (pelo clube), não atacaria uma empresa que só está para colaborar. Não vandalizaria muros do clube. Isso é conversa fiada. São dogmas do futebol, completamente errados, que precisam ser discutidos e rechaçados.”

“Não é tocando tambor e jogando bomba que vou contratar jogadores. Esses atos de vandalismo contra uma patrocinadora que só colaborou com o Palmeiras. Na pandemia, enquanto a maioria dos patrocinadores cortaram os patrocínios, a Crefisa e a Fam em nenhum momento suspenderam os pagamentos para o Palmeiras. Por isso que o Palmeiras conseguiu manter o emprego dos nossos trabalhadores intacto.”

“Só assim no caos é que saem os fantasmas e nós não podemos deixar. O Palmeiras chegou a um nível de excelência, que temos que coibir esse tipo de gente. São pessoas que pensam como um futebol do passado, que não cabe mais. As pessoas relutam em descolar dessa imagem: ‘É pela força, pelo medo, que vamos impor'. Não vai.”

“Essas torcidas organizadas não construíram nada. Eles são caso de polícia. Essas pessoas são o grande câncer do futebol brasileiro.”

“O pessoal costuma dizer que me acho dona do Palmeiras e não. No dia que acabar meu mandato, eu pego minha bolsa e saio daqui. O Palmeiras não é de ninguém, é de nossos milhões de torcedores. A grande diferença é que só estou para ajudar o Palmeiras, não esses torcedores organizados, que é muito importante separar, quando reclamo é dos organizados.”

“Eu respeito profundamente nossos 20 milhões de torcedores que não são só da vitória. O Palmeiras hoje é um clube modelo de administração. Olha o que nós temos aqui, essa Academia de Futebol, vários clubes vêm conhecer, olha essas revelações na base, olha os últimos anos o que nós somos hoje. Acho que isso enche de orgulho a grande maioria dos torcedores. Pode ter certeza de que pressão externa de torcida organizada não vai mudar uma vírgula do que pensamos sobre o nosso Palmeiras.”

“O Palmeiras tem planejamento sim, mas nosso planejamento é feito dentro da Academia de Futebol. Em hipótese nenhuma vamos planejar por pressão de torcida organizada.”

Vandalismo em lojas da Crefisa

É inadmissível. Pressão é normal, mas é inadmissível atos de vandalismo contra um parceiro que está há nove anos no Palmeiras só colaborando com o clube. Quando a Crefisa e a Fam chegaram no Palmeiras, em 2015, um ano anterior, o Palmeiras estava quase rebaixado. Ninguém nos procurou, nós espontaneamente viemos oferecer. A Crefisa e a Fam já colocaram no Palmeiras ao longo desse tempo cerca de R$ 1,2 bilhão .”

“Essas pessoas que ficam criticando de forma totalmente irresponsável a nossa gestão, que prioriza sempre o que é profissional, correto e transparente. Por que? Querem ver o caos e voltar ao que era antes. E voltar ao que era antes é de quando a emoção era saber se vai cair ou não.”

O famoso avião

“Esse avião é meu. Não usei recursos do Palmeiras. O dinheiro é meu, eu comprei o avião. Eu ando em avião particular, um Falcon, e nossos atletas viajavam em avião fretado e o avião fretado além de ser caríssimo, você fica à disposição da companhia aérea e isso me incomodava muito. A presidente viajava a hora que quer e os atletas ficavam nesse problema com a malha aérea. Eu resolvi comprar o avião, com meu dinheiro, para que meus atletas pudessem viajar a hora que quiserem.”

“Os nossos atletas voltaram no avião da Gol (da Colômbia) e quem pagou fui eu, não foi o Palmeiras. O Palmeiras nunca teve um centavo de prejuízo comigo.”

“Se eu deixar esse avião parado quando o Palmeiras não joga, sabe o que acontece? Nada. Eu posso pegar o avião e chamar vocês para passear.”

“Só em economia neste período foram R$ 3 milhões. Onde há conflito de interesse quando eu que ponho o dinheiro? A outra questão é de que eu uso a marca Palmeiras para divulgar minha empresa. Se eu oferecesse avião gratuitamente para qualquer clube do Brasil, falar: ‘olha, clube A, tome meu avião'. Posso dizer que você está usando meu avião? É óbvio que iriam aceitar.”

Anderson Barros

O diretor Anderson Barros e o técnico Abel Ferreira conversam na Academia de Futebol. (Foto: Cesar Greco/Palmeiras/by Canon)

“Ele no Palmeiras conquistou somente nove títulos, sendo duas Libertadores. É responsável direto pela contratação do maior treinador de futebol do São Paulo. Do São Paulo não, do Palmeiras. Não tenho dúvidas que é um profissional que qualquer clube gostaria de tê-lo. É uma pessoa equilibrada, correta, respeitosa, que eu tenho profundo orgulho de ter ao meu lado. Enquanto eu estiver aqui, o Anderson Barros será meu grande parceiro.”

Abel Ferreira

“Abel tem contrato conosco até dezembro de 2024. Conversei com ele sim que é um desejo muito grande que tenho que ele fique comigo até o final do meu segundo mandato, se eu for reeleita. Ele não fala que sim e nem que não, mas eu vejo que o Abel está muito feliz aqui no Palmeiras.”

“Não duvido que ele também fique chateado, que alguns têm a memória muito curta. Abel é o maior treinador da história do Palmeiras, mas ele não tem obrigação de vencer todos os campeonatos. Eu volto a falar da violência. Se chega nos atletas, na presidente, claro que ele tem receio que chegue nele.

Foto de Diego Iwata Lima

Diego Iwata LimaSetorista

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero, Diego cursou também psicologia, além de extensões em cinema, economia e marketing. Iniciou sua carreira na Gazeta Mercantil, em 2000, depois passou a comandar parte do departamento de comunicação da Warner Bros, no Brasil, em 2003. Passou por Diário de S. Paulo, Folha de S. Paulo, ESPN, UOL e agências de comunicação. Cobriu as Copas de 2010, 2014 e 2018, além do Super Bowl 50. Está na Trivela desde 2023.
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