Champions League

Por que, com ou sem Champions, Ancelotti faz uma das melhores temporadas da carreira

Aos 64 anos, técnico italiano mostrou repertório tático, lidou com lesões com maestria e deu novas funções aos jogadores do Real Madrid

O Real Madrid faz, neste sábado (1), sua 18ª final de Champions League, em busca do incrível 15º título. Pela superioridade técnica e tática, é considerado o favorito contra o Borussia Dortmund, em Wembley.

Se o clube espanhol alcançou a decisão, além do claro impacto individual de Vinicius Júnior, muito teve da mão de Carlo Ancelotti na montagem do time, já campeão da La Liga e da Supercopa da Espanha em 2023/24.

Não são raras as vezes que o técnico italiano foi taxado apenas de um gestor de grupo – ou “paizão” na gíria brasileira. Mas esta temporada mostra, mais uma vez, que ele é muito mais do que isso.

É incrível pensar que em quase 30 anos à beira do campo, Carletto, agora com 64 de idade, faz uma das melhores temporadas da carreira, e nós apontamos alguns dos motivos abaixo.

Ancelotti evidenciou repertório tático e faceta estrategista

Esse rótulo de um simples gerenciador de egos no vestiário tira todo o mérito tático de Ancelotti – e eles são muitos. Para 23/24, ele sofreu um duro baque, até inesperado nos Merengues, com a saída de Karim Benzema.

Apesar das especulações envolvendo a chegada de Mbappé, o italiano teve que se virar sem um centroavante de ofício. Nesse contexto, decidiu largar o característico 4-4-3 para apostar no 4-3-1-2, tendo Vinicius Júnior e Rodrygo como uma inédita dupla de ataque.

Tudo isso para potencializar Jude Bellingham, então recém-chegado por 103 milhões de euros, ao deixar o camisa 7 mais aberto na esquerda e o Rayo por dentro. Deu muito certo: o meia inglês desandou a fazer gols (18 tentos até janeiro) e bateu recordes de Cristiano Ronaldo, enquanto o Real só tinha perdido uma vez em 23/24.

Com o passar do tempo, Bellingham caiu de rendimento, também com a crescente de Vini Jr, cada vez atuando mais por dentro, e o esquema tático passou mais para um 4-4-2.

A virada de chave definitiva, outra com dedo de Carlo, veio na ida das quartas de final da Champions contra o Manchester City, quando o brasileiro virou atacante por dentro e Rodrygo foi movido para ponta esquerda.

Vinicius é muito humilde e entendeu que este sistema pode ser bom para o time, com ele jogando mais por dentro. É algo que falei com os dois [Vini e Rodrygo], e estavam de acordo. – explicou o italiano em coletiva no dia 12 de abril.

Por ali, a cria da Gávea deu duas assistências no eletrizante 3 a 3 com o time de Guardiola, que não soube como anular a estratégia do técnico italiano.

Plantou a semente que floresceu com perfeição na Allianz Arena frente ao Bayern de Munique: Vinicius fez mais dois, e o camisa 11 sofreu o pênalti convertido pelo compatriota.

Esse esquema, inclusive, deve ser o utilizado na decisão europeia. Ironicamente, Vini não queria fazer a troca de função inicialmente, mas foi convencido por Ancelotti – outro motivo para a temporada tão espetacular.

– Ele me convenceu a mudar de posição, eu não queria. Ele me ensinou a jogar por dentro também. Em um ano, evoluí mais do que em todo o ano anterior. – explicou na coletiva prévia à final da Champions.

Mobilização do elenco e poder de convencimento: uma aula de gestão de Don Carlo

Convencer um jogador a correr por você é um desafio da carreira de técnico. Imaginar pedir que o atleta jogue fora de sua posição ou função favorita? Pois foi exatamente o que Ancelotti fez, e não apenas com Vini.

Rodrygo, por exemplo, se viu afastado dos lados do campo por muito tempo, jogando como o atacante mais fixo – algo próximo de um centroavante. Até por isso, sofreu períodos de irregularidade, como nos primeiros jogos da temporada, com dificuldade por estar encaixotado na marcação adversária.

Alguns jogadores poderiam ir em entrevistas coletivas reclamar, fazer birra ou simplesmente não se dedicar pelo técnico. Não foi assim para Don Carlo, que explicou sua estratégia de convencer, e não forçar o atleta, tudo na base do diálogo, claro.

– Convencê-los é muito importante, mas você deve considerar se conseguirá fazê-lo. O jogador é muito claro, quando você fala com ele você entende se ele quer ou não. Quase todo mundo me disse que não tem problema. Não coloco se não quiserem, nem coloco uma estratégia que não lhes agrada… Convencer sim, forçar não.– disse, em fevereiro.

Aurélien Tchouaméni que o diga. O volante francês viveu boa parte de 23/24 fora da função. Na verdade, virou basicamente um zagueiro que às vezes tinha que quebrar um galho no meio-campo.

As lesões na defesa obrigaram o italiano fazer isso, e aí entra outra causa para ser uma das melhores temporadas da carreira do experiente comandante.

Italiano perdeu titulares essenciais por problemas físicos

Infelizmente para os jogadores, as lesões são comuns no futebol, das mais leves às graves. E mesmo assim, é possível dizer que o Real Madrid viveu uma temporada fora da curva.

Com menos de dois jogos em 23/24, Thibaut Courtois, goleiro titular, e Éder Militão, dono da zaga, romperam o ligamento cruzado do joelho. Em dezembro foi a vez de David Alaba sofrer o mesmo problema.

Isso citando apenas os casos mais graves. Ao longo dos últimos meses, Bellingham, Vini Jr, Tchouaméni, Arda Güler e até Kepa, o goleiro contratado para substituir Courtois, sofreram com questões físicas.

Tudo isso com um técnico sereno, calmo e de um poder de diálogo sem igual para fazer seus jogadores atuaram improvisados, visto que o clube da capital espanhola não foi ao mercado.

O caso mais emblemático veio em fevereiro, quando disputava ponto a ponto a liderança do Campeonato Espanhol com o Girona.

No duelo direto contra o vice-líder, apenas dois pontos atrás, Ancelotti teve que escalar uma defesa simplesmente sem zagueiros. Lucas Vázquez entrou de lateral-direito, Ferland Mendy na esquerda e Tchouaméni e Dani Carvajal como dupla de zaga.

O resultado? Apenas 4 a 0 a favor dos Merengues, resultado que basicamente sacramentou o título.

É ainda mais inacreditável ver que, mesmo com todos esses problemas, o Real só perdeu duas em 54 partidas em 23/24, ambas para o rival Atlético de Madrid.

Por tudo isso, não é um revés na decisão da Champions que tirará todos os méritos de Ancelotti nesta temporada.

Os números da temporada absurda de Ancelotti no Real Madrid

  • 54 jogos, 40 vitórias, 12 empates e 2 derrotas;
  • Campeão de La Liga com 95 pontos – conquistou o título com quatro rodadas de antecedência;
  • Venceu a Supercopa da Espanha eliminado o Atlético de Madrid e goleando o Barcelona por 4 a 1 na final;
  • Finalista da Champions League passando por City e Bayern;
  • Única eliminação da temporada veio após na prorrogação das oitavas da Copa do Rei, 4 a 2 para o Atlético de Madrid.
Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius Amorim

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.
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