Espanha

Como humildade de Vinicius Júnior fez Ancelotti encontrar ataque ideal no Real Madrid

Atuando por dentro, Vinicius Júnior potencializou Rodrygo no Real Madrid

É comum treinadores de futebol ganharem alcunhas, às vezes não tão justas, como estagiário se for muito jovem para função ou ultrapassado quando é considerado velho demais. Um desses casos injustos é do italiano Carlos Ancelotti, definido por muitos apenas como um bom gestor de grupo e não tão bom taticamente. O 2023/24 em especial mostra o quanto essa premissa é equivocada e o técnico, aos 64 anos, faz uma das temporadas mais espetaculares da carreira pelo Real Madrid no sentido tático e estratégico — sem deixar de lado o ótimo relacionamento com o elenco.

Há vários exemplos de como Ancelotti teve ótimas sacadas. Como, ao perder o centroavante Karim Benzema para Arábia Saudita, largou o 4-3-3 e mudou o time para o 4-3-1-2 (hoje é 4-4-2) para fazer uma dupla de ataque com Vinicius Júnior e Rodrygo. Ou, aí em aula de convencimento do grupo de jogadores, montou uma zaga com o lateral Daniel Carvajal e o volante Aurélien Tchouaméni em jogo decisivo pelo título de La Liga quando venceu o então vice Girona por 4 a 0. Na última terça-feira (9), Carletto deu outra mostra de ser um estrategista ao mudar funções no ataque, decisivas no placar final.

No sensacional empate por 3 a 3 com o Manchester City pela ida das quartas de final da Champions League, chamou atenção um detalhe tático na formação dos homens de frente do Real. Normalmente escalado mais à direita ou centralizando, Rodrygo apareceu como ponta pela esquerda. Com isso, Vinicius Júnior ficou por dentro, entre zagueiro e lateral rival ou no meio da defesa inglesa. Enquanto isso, Jude Bellingham flutuava pelo centro também. Do outro lado, Fede Valverde ou Carvajal ocupavam o corredor direito.

Nesta sexta-feira (12), na entrevista coletiva prévia ao confronto com o Mallorca por La Liga, o italiano assumiu que pode voltar a usar essa estrutura de ataque e elogiou Vini Jr, quem teve que sair da posição preferida para dar espaço para outro colega.

— Vinicius é muito humilde e entendeu que este sistema pode ser bom para o time, com ele jogando mais por dentro. É algo que falei com os dois [Vini e Rodrygo], e estavam de acordo.

A humildade do camisa sete citada por Ancelotti pode fazer total diferença para o Real no restante da temporada e a Trivela explica o porquê.

Rodrygo é mais perigoso na esquerda

Com a saída de Benzema dá para dizer que o Rayo acabou sacrificado no esquema tático do Real. Como segundo atacante, por vezes ficava mais preso por dentro e sem tanta autonomia para sair dali, explicando os apenas dois gols e uma assistência nos 15 jogos inicias da temporada 23/24, ainda tentando se adaptar à nova função. Inclusive, chegou a ser reserva em algumas partidas para o esforçado centroavante (mas muito pior tecnicamente) Joselu.

Entre o fim de outubro e início de novembro, Ancelotti deu mais liberdade para Rodrygo sair do centro e ir para esquerda do ataque, seu local favorito desde o início da carreira no Santos, e ainda Vini Jr. se machucou pouco depois, o que permitiu atuar no lado que prefere. Por lá, acumulou incríveis sete gols e quatro assistências em cinco jogos (à época, a Trivela analisou esse bom momento do brasileiro).

Com a volta de Vini, o camisa 11 voltou para direita e teve outra fase irregular. Só fez um gol e deu uma assistência entre meados de janeiro até 31 de março, quando, com a suspensão do compatriota brasileiro, voltou a jogar na esquerda e marcou os dois da vitória sobre o Athletic Bilbao.

A alternativa do Ancelotti serve para potencializar o Rayo em um lugar que ele pode fazer o que faz de melhor: driblar e cortar para perna direita para finalizar. Encaixotado entre zagueiros por dentro, não consegue encontrar o espaço que tem na formação atual.

A diferença do posicionamento médio de Rodrygo quando atuou contra o City como ponta esquerda (imagem à esq.) e como atacante frente ao Celta (à direita) (Foto: SofaScore)

Vini Jr pareceu à vontade por dentro

O mais legal de ver Vini mais pela faixa central do campo foi que ele não pareceu incomodado ou fora de posição. Pelo contrário, por lá deu a assistência para o segundo gol do Madrid contra o City marcado justamente por Rodrygo escapando pela ponta esquerda. Além disso, não perdeu a característica de drible e um contra um.

Também é importante citar que dificilmente o ex-Flamengo ficará apenas fixo ao centro. No próprio duelo com o City esteve várias vezes na ponta, em troca constante de posição com o colega brasileiro.

Esse posicionamento central não é uma novidade para Vini nesta temporada. Ele tem tido cada vez mais liberdade e marcou alguns gols com apenas um toque na área como se fosse um autêntico nove.

A nova estrutura do ataque será uma realidade no Real?

Será necessário acompanhar os próximos jogos dos Merengues para ver se Ancelotti passará a utilizar essa formação de ataque como a titular ou apenas em jogos pontuais. Pode ter sido só uma estratégia para aglomerar jogadores no setor direito de defesa do Manchester City, que estava sem Kyle Walker, um dos melhores defensores de espaço no mundo por conta de sua velocidade.

Contra o Mallorca neste sábado (13), pela 31ª rodada de La Liga, poderemos ver o que o italiano pensa sobre isso. O Real lidera o Campeonato Espanhol com 75 pontos, oito a mais que o Barcelona. No dia 21 de abril acontece o El Clasico que pode decidir o título nacional no Santiago Bernabéu.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius é nascido e criado em São Paulo e jornalista formado pela Universidade Paulista (UNIP). Escreveu sobre futebol nacional e internacional no Yahoo e na Premier League Brasil, além de eSports no The Clutch. Além disso, atuou como assessor de imprensa no setor público e privado.
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