Como foi o primeiro ano da Arena MRV, principal presente que o Atlético-MG ganhou em 2023?
A Trivela esteve presente em todos os jogos da Arena MRV e conversou com torcedores e jogadores para fazer um resumo de como ela afetou o Atlético na temporada
Natal é época de presentes, mas o Atlético-MG recebeu o dele há muitos meses, quando inaugurou a Arena MRV em agosto deste ano. O Galo disputou um turno inteiro em sua nova casa. Mas como ela foi recebida? Deu tudo certo? Teve algo errado? Como ela afetou o time e a torcida? A Trivela, que foi a todos os jogos no estádio, te conta tudo.
A Arena MRV teve um atraso na sua estreia. A ideia do Atlético era utilizar o estádio já em meados de abril, mas isso não aconteceu por alguns problemas de licença e também de obras. A casa atleticana teve alguns eventos de inauguração, como o dia da marcação das linhas e a implementação da trave, essa sim acontecendo em abril. Mas a bola rolou pela primeira vez só em julho, com o evento Lendas do Galo, que reuniu grandes nomes da história atleticana, como Reinaldo, Tardelli, Éder Aleixo e Ronaldinho Gaúcho, para uma partida inaugural, que foi uma verdadeira festa para o torcedor. Um dia realmente histórico.
Estreia oficial com alguns problemas, mas festa em campo
Pouco mais de um mês depois do Lendas do Galo, mais especificamente no dia 27 de outubro, a Arena MRV recebia seu primeiro jogo oficial, a partida entre Atlético e Santos, válida pela 21ª rodada do Campeonato Brasileiro, a primeira do returno da competição. Para começar, o estádio não teve sua capacidade toda liberada, podendo contar com 30 mil torcedores, que acabaram com os ingressos e fizeram grande festa nas arquibancadas. Foi o primeiro capítulo de um livro em branco que o Galo ganhou para escrever.
Em campo, o Atlético fez bonito e venceu o Santos por 2 a 0, com dois gols de Paulinho, que entrou para história ao marcar o primeiro gol da história da Arena MRV. Mal sabia ele que se tornaria o “Rei da Arena”, marcando mais vezes depois. Mas nem tudo foram flores, nem mesmo em campo. O gramado do estádio não estava dos melhores, mesmo sendo o primeiro jogo que recebia, e, em certo momento, um pedaço do campo se soltou e o jogo teve que ser paralisado.
A primeira entrada em campo para um jogo oficial na Arena MRV!@trivela pic.twitter.com/4zu4zu50rZ
— Alecsander Heinrick (@alecshms) August 27, 2023
Fora de campo, pontos positivos e negativos. Os positivos ficam para o acesso ao estádio, algo elogiado, tanto para os torcedores chegarem quanto para eles entrarem na esplanada e na Arena. Outra questão que mostrou como o estádio é diferente foi a acessibilidade, com lugares para PCDs bem respeitados, rendendo vídeos que viralizaram na internet. Por outro lado, nos pontos negativos, podemos citar a instabilidade na internet, que não funcionou em boa parte do tempo tanto para a imprensa quanto para os torcedores, a falta de comida, que acabou a partir de um período, e a sujeira encontrada nas cadeiras, que marcaram as roupas dos torcedores. Para saber mais detalhes do que deu certo ou não na estreia, a Trivela fez uma reportagem completa na época.
Evoluções ao longo dos jogos
Conforme os jogos foram passando, as coisas foram melhorando na Arena MRV. O CEO do estádio e do clube, Bruno Muzzi, sempre fez questão de avisar que demoraria, no mínimo, um ano para eles terem domínio do estádio em todas as áreas. Mas vale destacar os pontos de melhora, como a internet mais estável, o atendimento em bares, a limpeza das cadeiras e a organização nas áreas de imprensa, como novas mesas e cadeiras, já que as antigas eram baixas e prejudicavam a visão do campo.
Vale destacar também que isso não melhorou de um jogo para o outro, aconteceu aos poucos, conforme as coisas erradas eram notadas, o Atlético e a Arena tentavam corrigi-las. O próprio gramado passou por algumas mudanças e foi melhorando aos poucos, chegando no último jogo da temporada em seu melhor estado desde a estreia.
Mas, houve um erro enorme no clássico contra o Cruzeiro
Se o Atlético foi evoluindo aos poucos o funcionamento da Arena MRV, ele teve um tropeço (muito grande) no meio do caminho. No primeiro clássico da história do estádio, o Galo fez algumas mudanças no estádio para receber o Cruzeiro e os seus torcedores. Algumas delas faziam sentido, como a implementação de uma rede para evitar arremesso de objetos. No entanto, outros passaram do ponto, como a retirada de portas e papéis dos banheiros do setor visitante, tirando a privacidade e o direito de higienização de mulheres e crianças, por exemplo.
Em campo, o Atlético perdeu, mas o vexame maior foi fora dele. O Cruzeiro repudiou a forma como o Galo tratou os cruzeirenses e indicou que eles procurassem seus direitos na justiça, o que aconteceu, com vários torcedores do rival movendo ações contra o Alvinegro. Depois do jogo, o Galo assumiu que errou, mas já era tarde. A mancha já estava marcada. Em contrapartida, vale ressaltar também que vários cruzeirenses depredaram o setor de visitante do estádio, dando um prejuízo grande aos atleticanos. A diferença é que um foi erro do clube, algo controlável, o outro erro partiu dos torcedores, que não é algo tão fácil de se controlar.
Arena MRV e a torcida do Atlético
A Arena MRV tem um modelo no estilo europeu, que deixa o torcedor bem perto do campo. A proximidade das arquibancadas com o gramado chegam a assustar na casa atleticana. Essa questão trouxe pontos positivos e negativos. A começar pelo chamado “ponto cego”. No Lendas do Galo, torcedores que estavam no setor superior alegaram que não conseguiam ver parte da linha de fundo mais próxima, o que dificultava também a visão do gol. Isso aconteceu porque outros torcedores ficaram escorados no vidro de proteção, assim como já estavam acostumados a fazer no Independência e no Mineirão. Mas, como a Arena do Galo tem estrutura diferente, essa atitude afeta a visão do campo, diferente dos outros estádios. Por isso, o Alvinegro teve que se mexer para colocar auxiliares nos jogos, que tem a missão de não deixar os torcedores ficarem nesse local. Na maior parte do tempo e dos jogos, funcionou, mas foi possível ver essa ação se repetir algumas vezes.
Processo de adaptação da torcida e menos caldeirão do que o esperado
Por ter as arquibancadas mais próximas ao campo, era esperado que a Arena MRV fosse um verdadeiro caldeirão, que a torcida do Atlético, já marcada por empurrar o time como poucas, fizesse ainda mais diferença. Mas não foi exatamente isso que aconteceu, e alguns pontos ajudam a explicar. O primeiro e óbvio é a adaptação a um novo local. Assim como o clube precisa de tempo para gerir sua nova casa, os atleticanos também precisam disso para se acostumarem.
Dentro dessa questão de costume, entra um ponto importante, que são as torcidas organizadas. A Arena MRV tem um espaço especial, atrás de um dos gols, que não tem cadeiras. O local foi dedicado para a Galoucura, maior organizada do clube e quem tem o poder de reger a festa. No entanto, isso não estava acontecendo nos primeiros jogos, com direito a reclamações que o setor inferior não estava escutando o superior cantar, mesmo um abaixo (ou acima) do outro. Confira o registro da Trivela:
A falta de entrosamento entre os setores da Arena MRV segue forte. No vídeo da pra ver claramente o superior cantando uma música e o inferior outra. Só pelos gestos da pra notar.
Lembrando que hoje a Galoucura está punida e não está presente. pic.twitter.com/vlydqzNJuG
— Alecsander Heinrick (@alecshms) October 29, 2023
Por esse problema, a Galoucura decidiu trocar de lugar e foi para o superior nos últimos jogos, o que realmente fez alguma diferença, mas não a ponto de fazer o estádio pulsar da forma esperada. A melhora foi vista e, no último jogo, por exemplo, a festa foi maior. Mas, com a última partida em casa na temporada sendo no Mineirão, ficou visível como os atleticanos conseguem fazer mais festa e mais barulho na sua antiga casa — claro, são mais de 10 mil vozes a mais, o que também ajuda muito.
Insano o que a torcida do Atlético faz no Mineirão! pic.twitter.com/bxBVH9WzQa
— Alecsander Heinrick (@alecshms) December 3, 2023
Outro ponto que pode ajudar a explicar o estádio ter sido menos caldeirão do que o esperado é o valor do ingresso, algo muito debatido desde a estreia, que teve como mais barato uma entrada no valor de R$ 90. Com o passar do tempo, o Galo foi atendendo (de certa forma) as reclamações da torcida e foi abaixando o preço, até chegar no último jogo, com o mais barato custando R$ 40. É longe de ser um preço popular, mas foi relevante ver o clube escutando um pouco a torcida, que reclamou muito dos valores. No entanto, no clássico contra o Cruzeiro, o clube fez outro caminho e aumentou o preço das entradas.
Opinião dos torcedores sobre a Arena MRV
A Trivela conversou com alguns torcedores que foram aos jogos na Arena MRV e também frequentavam o Mineirão para saber o que um tem de melhor que o outro. Por unanimidade, a nova casa do Galo venceu no quesito acesso, já que tem uma estação do metrô por perto. O estacionamento também foi elogiado, apesar da reclamação do aumento do preço nos últimos jogos. Na questão de entrar no estádio, a Arena também venceu o Mineirão, mesmo com algumas reclamações sobre falhas em catracas e problemas com o Super App do Galo, aplicativo que concentra os ingressos, já que não há mais o físico ou o PDF na nova casa atleticana.
Por falar em super app do Galo, a internet foi algo que divergiu entre os torcedores ouvidos. A maioria afirmou que ela é melhor na Arena do que no Mineirão, mas ao mesmo tempo disseram que “esperavam mais”, já que a nova casa atleticana se intitula como “a Arena mais tecnológica da América Latina”. Relatos de falhas no momento de abrir o app para mostrar o ingresso, ou utilizá-lo no momento de compra em bares também foram ouvidos.
Na parte das arquibancadas, também foi unanimidade, mas dessa vez para o Mineirão. Todos afirmaram que veem a torcida fazendo mais festa e sendo mais pulsante no Gigante da Pampulha. Outro ponto negativo são os preços, que todos acordaram ser mais caro ir na Arena. Mas a maioria também destacou a evolução que ocorreu nos últimos jogos da temporada e tem esperança que, com o tempo, o estádio atleticano vai ser tão bom quanto ou melhor que a antiga residência.
Um membro de uma organizada do Atlético, que não quis se identificar, afirmou: “A Arena é linda e é a nossa casa agora. No momento, eu ainda prefiro o Mineirão, vejo a gente fazendo mais festa por lá. Acho que os preços e a acústica da Arena deixam a desejar. Realmente teve essa questão de um (setor) não ouvir o outro. Mas melhorou agora na reta final e acho que, em breve, vamos conseguir chegar na festa esperada”.
No fim deste ano, a torcida do Atlético se uniu pelo movimento “Califórnia Alvinegro”, que constituiu em transformar o entorno da Arena MRV, que fica no Bairro Califórnia, em preto e branco, com grafites que contam a história e remetem ao Galo. A ação foi abraçada por todos, inclusive pelo clube, e levou centenas de pessoas às ruas que dão volta no estádio. A Trivela esteve presente e contou como foi. O evento não foi único e, nos próximos meses, mais grafites vão ser feitos para deixar a área cada vez mais atleticana.
Jogadores não veem muita diferença com a Arena
A Trivela ouviu também alguns jogadores do Atlético sobre como é jogar na Arena MRV, qual a sensação dentro de campo, se tem mais pressão e se é melhor que no Mineirão. O meia Rubens falou que a Arena é “mais caldeirão”, mas acha não vê muita mudança com relação ao Mineirão, pois “a nossa torcida faz diferença onde ela quiser”. O lateral Guilherme Arana seguiu na mesma linha, falando da força da torcida atleticana em qualquer lugar:
– Na verdade, acaba sendo praticamente igual. O torcedor do Atlético sempre fez muito barulho, sempre nos incentivou bastante. Eu, particularmente, não vejo muita diferença. A diferença tem, porque é um pouco mais próximo, mas a pressão é a mesma que o Mineirão. Acho que a gente foi muito feliz lá no Mineirão, o torcedor nos incentivou muito lá, e é a mesma coisa que eles fazem na Arena MRV agora, na nossa casa. Agora eu estou acompanhando que estão fazendo alguns desenhos nas ruas ali, então fica ainda mais com a nossa cara, com a cara do torcedor atleticano. E a tendência é só melhorar.
Jogador histórico do Atlético ,que passou 10 temporadas e jogou em diversos estádios, o zagueiro Réver, que se aposentou neste fim de temporada, também comentou sobre a Arena MRV. Para ele, a pressão, pelas arquibancadas serem mais próximas, é maior: “na minha análise fica muito mais participativo, então isso acaba incendiando mais o jogo”.
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Gramado sintético na Arena em 2024?
Por falar em opinião dos jogadores, eles também falaram sobre uma questão que já era dada como certa para a Arena MRV em 2024: o gramado sintético. Por conta dos problemas com o gramado natural que teve em 2023, o clube optou por mudar o tipo de grama em 2024. O presidente e o CEO do clube já haviam anunciado sobre essa mudança, o diretor de infraestrutura do estádio também falou sobre já como uma certeza, mas a história mudou.
Os responsáveis pelo Galo já haviam alertado que precisariam entrar em um acordo com a Prefeitura para conseguir implementar o gramado sintético, já que há uma taxa de permeabilidade exigida na legislação de Belo Horizonte que não seria alcançada com o sintético. Apesar disso, os dirigentes estavam confiantes de que conseguiriam fazer tudo nessa pausa entre temporadas. Entretanto, as coisas não saíram como planejado e a troca não deve mais se feito, pois não há mais tempo hábil. O lado positivo é que os jogadores preferem a grama natural e que o clube conseguiu deixar ela em bom estado na reta final. O lado negativo é que, mantendo a natural, será mais complicado intercalar shows e eventos na Arena MRV, que é um espaço multiuso.
O Atlético, em números, na Arena MRV
A Arena MRV foi muito importante para o Atlético em campo. O time teve clara melhora como mandante desde que estreou sua nova casa. No fim, foram nove partidas, um artilheiro nato e quase 300 mil torcedores no estádio. Confira os números:
- 9 jogos
- 7 vitórias
- 2 derrotas
- 15 gols marcados
- 5 gols sofridos
- Artilheiro: Paulinho – 8 gols
- Renda bruta: R$ 17.531.030,25
- Lucro: R$ R$ 8.313.949,31
- Público total: 298.343
- Público médio: 33.149
- Recorde: 42.058 (vs Cruzeiro)
- Pior público: 23.003 (vs Fluminense)



