Brasileirão Série A

Atlético-MG ignora e afasta a torcida ao aumentar preço de ingressos para clássico contra o Cruzeiro

Diretoria do Atlético preferiu ignorar pedido da torcida para abaixar preço dos ingressos, o que afasta o torcedor

O Atlético-MG recebe o Cruzeiro no próximo domingo (22), às 16h, pelo Campeonato Brasileiro, no primeiro clássico da história da Arena MRV. A venda de ingressos começa na manhã desta quarta (18), com o Galo tendo aumentado o preço de alguns setores, indo completamente na contramão da principal crítica da torcida na nova casa atleticana, o alto valor cobrado pelas entradas nos jogos.

Desde que a Arena MRV foi inaugurada, o torcedor do Atlético vê preços caros nos ingressos para acompanhar as partidas in loco na nova casa atleticana. No primeiro jogo, por exemplo, o ticket mais barato, que é para o sócio que paga mais caro, era de R$ 90, com o mais caro, para o torcedor em geral, sendo de R$ 430. A precificação diminuiu nos últimos jogos, com o mais barato sendo de R$ 60 e o mais caro de R$ 320.

Apesar do Atlético ter abaixado o preço dos ingressos, eles seguiram com valores considerados altos. Não há nenhum setor chamado popular, com preços a R$ 10 ou R$ 20, por exemplo. Para o clássico contra o Cruzeiro, o Galo ainda foi na contramão do que a torcida pedia e aumentou o preço de dois setores, irritando ainda mais o torcedor.

Arena MRV afasta um perfil de torcedor

O Atlético historicamente é um time muito marcado pela sua torcida, que não abandona, que empurra o time pra cima em todos os momentos. Para muitos, é uma das melhores torcidas do Brasil. Na Arena MRV, havia uma expectativa da torcida ser ainda mais forte, mas não é isso que acontece.

O primeiro motivo é o preço dos ingressos. Com eles caros, o torcedor comum foi afastado do estádio. Afinal, não é só o ingresso que o torcedor gasta, tem também o transporte, a comida, a bebida. Se é um pai e vai levar os filhos, tem tudo isso em dobro ou triplo, por exemplo. Então um torcedor hoje em dia que precisa gastar 70/80 reais em um ingresso, que já é um alto valor, ainda vai ter que arcar com muito mais.

Um exemplo que deixa claro como o torcedor mais pobre está afastado do estádio é a comparação com o salário mínimo, que hoje é de R$ 1.320. Se um torcedor que ganha isso vai ao estádio com o preço atual do ingresso do Atlético, ele gasta entre R$ 150 e R$ 200 ao todo, somando tudo citado anteriormente. O que representa 11% ou 15% do que recebe. Isso pensando que esse torcedor vai conseguir comprar o ingresso com desconto de sócio, já que, se ele for comprar sem sócio, só o ticket já dá esse valor citado. Há ainda a possibilidade desse torcedor ser pai e querer levar o filho, o que dobra a conta. Enfim, gastar mais de 10% do que recebe em um dia, com algo que não é crucial, não é algo ao alcance de qualquer um.

Em resumo, o preço alto do ingresso afasta o torcedor comum do estádio. Hoje, vão a todos os jogos quem tem mais condição, mais dinheiro. Os que iam antigamente, que pagavam R$ 10 e apoiavam o time do início ao fim, independente do que acontecesse, estão ficando de fora. E isso afeta o desempenho na arquibancada. É notório que a torcida atleticana está menos barulhenta na Arena MRV. Há inúmeros relatos por jogo de torcedores reclamando de outros que não cantam e assistem ao jogo sentado. Não que seja obrigatório o torcedor cantar, mas antes do estádio, era menos comum ver esse tipo de relato.

Estádio também tem problemas de acústica

Outro detalhe que parece atrapalhar a torcida do Atlético na Arena MRV é a acústica do estádio. Desde o primeiro jogo, as torcidas organizadas do clube estão tentando achar um jeito de que o canto delas atinja todo o estádio, o que não vem acontecendo. No penúltimo jogo, a Galoucura, principal organizada, ficou em seu setor atrás do gol, que não tem cadeiras, enquanto outras duas organizadas ficaram acima dela. Um movimento para tentar melhorar a força da torcida. Ao fim do jogo, houveram relatos de que os torcedores não se escutavam, mesmo um acima (ou abaixo) do outro nas arquibancadas. No último jogo, as torcidas inverteram, mas não foi possível ver a diferença pois a Galoucura estava suspensa e não foi ao estádio.

É natural que, por ser um estádio novo, a torcida ainda precise se encontrar para potencializar o seu vocal nele. A promessa da Arena MRV era de ter uma acústica de infernizar os adversários. Quando a torcida conseguiu se encontrar nas músicas e o estádio inteiro cantou, foi possível ouvir a força da acústica do local, o problema é que algumas músicas não estão chegando aos ouvidos de torcedores em outros setores. Nesse ponto, entra também o fato de estarem indo ao local torcedores que preferem assistir ao cantar, citado anteriormente.

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Falta sensibilidade para a diretoria do Atlético

Na última semana, após a derrota do Atlético para o Coritiba, a primeira na Arena MRV, os dirigentes do Galo falaram, em uma conversa informal com a imprensa, que estavam de olho na questão da torcida, que foi algo muito comentado após o revés. Apesar disso, a diretoria optou por manter o preço dos ingressos e ainda aumentar o de alguns setores. Esse movimento, provavelmente, é por saberem que os ingressos tem grandes chances de esgotarem, mesmo com altos preços, por conta do apelo do jogo, de ser um clássico.

Mas é nessa hora que a diretoria poderia ter mostrado que escuta o torcedor. Não precisava colocar ingressos a R$ 10, mas seria importante abaixar e mostrar que quer a torcida ao lado deles. Com esses preços altos de novo para um jogo importante, o recado é de que o dinheiro importa mais do que o torcedor que quer apoiar. Para um clube que gosta de dizer que é “do povo”, é uma atitude que o afasta dessa ideia.

Dinheiro é um “problema” na Arena MRV

A diretoria do Atlético tem seus motivos para optar pelo dinheiro e não pela aproximação com a torcida, se esse realmente foi o caso nesse clássico. O clube tem uma das maiores dívidas do Brasil (+ R$2 bilhões) e o próprio estádio também tem suas dívidas (R$ 440 milhões + R$ 300 milhões em juros). O Galo irá se tornar SAF oficialmente em breve e a promessa dos donos, que são exatamente os mesmos que já fazem parte da diretoria atualmente, é de sanar essas dívidas.

Mas há outra questão no estádio, que ainda não teve uma explicação, que é o alto valor de despesa que o Atlético tem ao jogar nele. Nos quatro jogos que fez até o momento na Arena MRV, o Galo teve cerca de R$ 9 milhões de lucro bruto. No entanto, teve também, quase R$ 4,5 milhões de despesas. Ou seja, quase metade do lucro que teve, o alvinegro teve que usar para pagar despesas de sua própria casa. Valor longe do que se esperava.

Para efeito de comparação, o Atlético tinha despesas menores no Mineirão, estádio que ele precisava pagar para jogar, com valores que giravam entre R$ 500 mil e R$ 800 mil. Já na Arena MRV, esse número supera a casa de R$ 1 milhão. O CEO do clube, Bruno Muzzi, disse antes da inauguração que seria comum ter despesas maiores, pois é uma operação de um equipamento completamente novo e eles só vão chegar na perfeição com erros e acertos. Mesmo assim, era esperado que o Galo conseguiria tirar lucros líquidos maiores na sua própria casa. Por esse motivo, de despesas muito grandes, o clube também opta por ingressos mais caros, para tentar suprir essa diferença.

Foto de Alecsander Heinrick

Alecsander HeinrickSetorista

Jornalista pela PUC-MG, passou por Esporte News Mundo e Hoje em Dia, antes de chegar a Trivela. Cobriu Copa do Mundo e está na cobertura do Atlético-MG desde 2020.

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