Brasil

Nos 35 anos sem Nelson Rodrigues, uma crônica do imortal: Freud explica o Maracanazo

A quantidade gigantesca de transmissões de futebol, às vezes perto da overdose, é coisa de jovem. No passado, quando a televisão ainda dava seus primeiros passos, os jornais tinham a responsabilidade de informar os resultados e os acontecimentos das partidas para o torcedor que não foi ao estádio ou estava curioso com o jogo do adversário. Alguns faziam isso muito bem, outros muito mal, ninguém fazia como Nelson Rodrigues, que morreu há exatamente 35 anos.

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Dramaturgo e jornalista, Nelson Rodrigues tinha um estilo particular de falar sobre futebol e foi um dos principais articulistas de uma época em que o nosso futebol sofria crises sérias de ansiedade e falta de auto-estima, causadas, principalmente, pela derrota para o Uruguai na Copa do Mundo de 1950. Um sentimento que ele chamou de “Complexo de Vira-Lata”, determinante para impedir o brasileiro de realmente acreditar que era o melhor do mundo com a bola nos pés.

Muitos textos de Nelson Rodrigues trataram desse problema, do medo que o brasileiro aparentava ter de finalmente ser o melhor do mundo em alguma coisa, da humildade excessiva que ele praticava, como se fosse um personagem de Charlie Dickens, e nesse texto que trazemos para vocês em homenagem ao escritor, da necessidade de haver um acompanhamento psicológico para os jogadores.

Curioso notar que Nelson Rodrigues, em 1956, já sublinhava essa importância, que demorou muito para ser aceita pelos clubes, pelos técnicos e pelos próprios jogadores. Hoje em dia, isso é mais aceito, mas quase nenhuma comissão técnica tem um psicólogo de prontidão e especializado para ouvir os problemas pessoais e íntimos dos craques do futebol.

FREUD NO FUTEBOL

Texto publicado na revista Manchete Esportiva em 07/04/1956 e reproduzido do livro “O Berro Impresso das Manchetes”

Um amigo meu que foi aos Estados Unidos informa que, lá, todo mundo tem o seu psicanalista. O psicanalista tornou-se tão necessário e tão cotidiano como uma namorada. E o sujeito que, por qualquer razão eventual, deixa de vê-lo, de ouvi-lo, de farejá-lo, fica incapacitado para os amores, os negócios e as bandalheiras. Em suma: — antes de um desses atos gravíssimos, como seja o adultério, o desfalque, o homicídio ou o simples e cordial conto do vigário, a mulher e o homem praticam a sua psicanálise.

O exemplo dos Estados Unidos leva-me a pensar no Brasil ou, mais exatamente, no futebol brasileiro. De fato, o futebol brasileiro tem tudo, menos o seu psicanalista. Cuida-se da integridade das canelas, mas ninguém se lembra de preservar a saúde interior, o delicadíssimo equilíbrio emocional do jogador. E, no entanto, vamos e venhamos: — já é tempo de atribuir-se ao craque uma alma, que talvez seja precária, talvez perecível, mas que é incontestável.

A torcida, a imprensa e o rádio dão importância a pequeninos e miseráveis acidentes. Por exemplo: — uma reles distensão muscular desencadeia manchetes. Mas nenhum jornal ou locutor jamais se ocuparia de uma dor-de-cotovelo que viesse acometer um jogador e incapacitá-lo para tirar um vago arremesso lateral. Vejam vocês: há uma briosa e diligente equipe médica, que abrange desde uma coriza ordinaríssima até uma tuberculose bilateral. Só não existe umespecialista para resguardar a lancinante fragilidade psíquica dos times. Em conseqüência, o jogador brasileiro é sempre um pobre ser em crise.

Para nós, o futebol não se traduz em termos técnicos e táticos, mas puramente emocionais. Basta lembrar o que foi o jogo Brasil x Hungria (derrota por 4 a 2 nas quartas de final) que perdemos no Mundial da Suíça. Eu disse “perdemos” e por quê? Pela superioridade técnica dos adversários? Absolutamente.

Creio mesmo que, em técnica, brilho, agilidade mental, somos imbatíveis. Eis a verdade: — antes do jogo com os húngaros, estávamos derrotados emocionalmente. Repito: — fomos derrotados por uma dessas tremedeiras obtusas, irracionais e gratuitas. Por que esse medo de bicho, esse pânico selvagem, por quê? Ninguém saberia dizê-lo. E não era uma pane individual: — era um afogamento coletivo.

Naufragaram, ali, os jogadores, os torcedores, o chefe da delegação, a delegação, o técnico, o massagista. Nessas ocasiões, falta o principal. Estão a postos os jogadores, o técnico e o massagista. Mas quem ganha e perde as partidas é a alma. Foi a nossa alma que ruiu face à Hungria, foi a nossa alma que ruiu face ao Uruguai.

E aqui pergunto: — que entende de alma um técnico de futebol? Não é um psicólogo, não é um psicanalista, não é nem mesmo um padre. Por exemplo: — no jogo Brasil x Uruguai entendo que um Freud seria muito mais eficaz na boca do túnel do que um Flávio Costa, um Zezé Moreira, um Martim Francisco. Nos Estados Unidos, não há uma Bovary, uma Karênina que não passe, antes do adultério, no psicanalista. Pois bem: — teríamos sido campeões do mundo, naquele momento, se o escrete houvesse freqüentado, previamente, por uns cinco anos, o seu psicanalista.

Sim, amigos: — havia um comissário de polícia, que lia muito X-9, muito Gibi. Para tudo o homem fazia o comentário erudito: — “Freud explicaria isso!”. Se um cachorro era atropelado, se uma gata gemia mais alto no telhado, se uma galinha pulava a cerca do vizinho, ele dizia: — “Freud explicaria isso!”. Faço minhas as palavras da autoridade: — só um Freud explicaria a derrota do Brasil frente à Hungria, do Brasil frente ao Uruguai e, em suma, qualquer derrota do homem brasileiro no futebol ou fora dele.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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