Brasil

Tim Vickery: As ilusões no diagnóstico dos problemas da Seleção e como realmente melhorar

O 'papo de botequim' não vai salvar o Brasil do domínio europeu, explica colunista

Uma contradição aparente: em quase todos os aspectos da vida humana, a Europa está ficando cada vez menos relevante, mas no esporte global o oposto se aplica. No futebol de clubes, o domínio do continente é claro e óbvio. Durante anos, muita gente vem falando que isso só acontece por causa da presença lá dos jogadores sul-americanos. Não rola mais. Na esfera das seleções, o poder da Europa está bem nítido nesta Copa do Mundo. Sem uma expulsão boba do centroavante da Suíça, acho que a gente estaria contemplando um cenário com quatro semifinalistas todos do mesmo continente.

E não é somente nas seleções europeias que se sente a força do Velho Continente. O crescimento da África tem muito a ver com a Europa, com jogadores da diáspora africana desenvolvidos na França, Países Baixos, Inglaterra e Espanha. A Ásia tem menos isso — daí o desempenho ruim dos times asiáticos na Copa. As melhores seleções do continente, de longe — Japão e Austrália, times onde quase todos os jogadores importantes atuam na Europa.

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E o Brasil com isso? Bem, já coloquei o argumento que, potencialmente, as Américas poderiam formar um polo capaz de disputar a supremacia com a Europa. Mas isso se trata ou de um sonho, um delírio ou um projeto de longo prazo. Por enquanto, a gente está vivendo sob um domínio futebolístico europeu.

Endrick e Casemiro lamentam queda do Brasil na Copa (Foto: PictureAlliance / Icon Sport)
Endrick e Casemiro lamentam queda do Brasil na Copa (Foto: PictureAlliance / Icon Sport)

Daí a inutilidade de uma resposta comum por aqui — que a Seleção somente deveria ter jogadores que atuam no Brasil. É um apelo barato para a história. Funcionou no passado, portanto vai funcionar de novo.

Mas a história anda para frente. Vamos puxar o Uruguai, por exemplo. Bicampeão do mundo — e com as conquistas das Olimpíadas dos anos 20 tão importantes para o nascimento da Copa, gosta de exibir quatro estrelas. A Celeste, então, deveria resgatar a sua tradição, e ter um time quase exclusivamente composto por jogadores de Peñarol e Nacional? Claro que não. Seria absurdo. E, numa escala menor, a mesma coisa se aplica no caso do Brasil. Os melhores jogadores vão ser vendidos. É a realidade. E o papo de uma seleção “doméstica” não passa de papo da falastrão de botequim.

Também se fala que a Lei Pelé matou o futebol brasileiro, que o jogador vai para Europa cedo demais e acaba perdendo contato com a essência brasileira.

Bem, a liberdade do contrato é um direito internacional, não tem como negar, verdade, a saída precoce é um problema — pode funcionar bem para algumas carreiras, mas atrapalha várias outras. Mas o jogador quer ir, o clube quer vender,…. Fazer o que, então?

A questão da essência é mais profunda. Trata-se de um tema simplificado e mitologizado. A escola gaúcha faz parte de tal essência bem como a carioca. O Brasil é enorme e diverso. E se perdeu a magia do meio-campo no futebol brasileiro, isso, como venho argumentando, tem muito mais a ver com tendências locais que fatores do futebol europeu. Afinal, a Europa está produzindo meio campistas — de Vitinha até Michael Olise — que raramente se vê por aqui.

Não houve grandes protestos contra o futebol mais reativo quando a seleção de Dunga ganhou títulos em 2007 e 2009. E aquelas vitórias no Mundial de Clubes — de São Paulo, Internacional e Corinthians, que defenderam bem e aproveitaram de uma bola — não foram vistas como traições à tal “essência brasileira”. Tem muito papo furado neste assunto, e um claro argumento contra. Na seleção argentina, quase o elenco todo joga fora do país, e quando voltam tem um estilo quase retrô de toco y me voy.

Uma outra reação — a Europa só quer saber de comprar pontas, aí é isso que a gente produz. Pode ter a ver. Mas os clubes europeus já levaram muitos atletas de outras posições. Pode pensar, por exemplo, em Lucas Silva, Arthur, Matheus Henrique….. Verdade, Artur teve alguns momentos com o Barcelona, mas no palco maior, os volantes vem decepcionando, bem como os atacantes Reinier, Gabigol e Pedro de outras funções e características.

Como melhorar, então? Os clubes têm as suas próprias prioridades. A Seleção precisa olhar além disso para produzir para o futuro. Muitas seleções bem sucedidas agora usam mais as categorias da base nacionais para, propositalmente, identificar pontos fracos e desenvolver um certo tipo de jogador. 

É possível um projeto nacional assim num país tão grande quanto o Brasil? Precisam pensar nessas coisas em vez de ver quem é capaz de gritar mais alto no botequim. Caso contrário, a liderança da Europa só vai crescer.

Samir Xaud, presidente da CBF, em evento na sede da entidade
Samir Xaud, presidente da CBF, em evento na sede da entidade (Foto: Imago/ZUMA Press Wire)
Foto de Tim Vickery

Tim VickeryColaborador

Tim Vickery cobre futebol sul-americano para a BBC e a revista World Soccer desde 1997, além de escrever para a ESPN inglesa e aparecer semanalmente no programa Redação SporTV. Foi declarado Mestre de Jornalismo pela Comunique-se e, de vez em quando, fica olhando para o prêmio na tentativa de esquecer os últimos anos do Tottenham Hotspur

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