Não é só Clairefontaine: Como a França atingiu excelência na formação ‘infinita’ de joias
Bleus estão em sua terceira semifinal consecutiva de Copa do Mundo (também) porque investiram bem em sua base
Pela terceira edição seguida, a França está nas semifinais da Copa do Mundo. Campeã em 2018 e vice em 2022, a seleção de Didier Deschamps é favorita ao tri na América do Norte graças a uma legião de ótimos jogadores em todas as posições. E o sucesso dos Bleus nas últimas décadas tem sido associado a Clairefontaine.
Fundado em 1988, quando o país não se classificou para a Eurocopa mesmo tendo sido campeã da edição anterior de maneira inédita, o centro de excelência de formação de atletas foi uma resposta da Federação Francesa de Futebol (FFF) ao fracasso da seleção a nível continental e mundial. Em 1990 e 1994, também sequer jogou a Copa do Mundo, por exemplo.
Copa do Mundo 2026
Sem defeitos? Existe alguma forma de parar a França?
Os dirigentes da federação analisaram a situação do futebol do país com cuidado para entender o que faltava para virar uma referência global. O consenso foi que era preciso construir um centro nacional, um núcleo de boas práticas para montar uma metodologia que fosse seguida em harmonia e com padronização desde a seleção principal até as categorias de base, incluindo a formação de treinadores e todas as modalidades do esporte.
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Clairefontaine é como um campus universitário, por onde passaram craques como Thierry Henry e Kylian Mbappé, dois dos jogadores mais premiados da história do futebol francês. Entretanto, o núcleo localizado no Parque Nacional Foret Domaniale de Rambouillet, a 40km a sudoeste de Paris, não é o único segredo dos Bleus, que se tornaram referência na revelação quase que infinita de jovens talentos por expandirem seu programa nas últimas décadas.
Clairefontaine é apenas um dos 16 núcleos de excelência da França
Quem chega a Clairefontaine se depara com uma vegetação exuberante, flores a perder de vista e o canto dos pássaros. No coração esportivo, uma gigantesca réplica da taça da Copa do Mundo, com duas estátuas de estrelas douradas, simbolizando o bicampeonato mundial. As instalações são compostas por campos e edifícios bem distribuídos, além do lendário castelo, que é a casa da seleção principal.
Por mais que seja o centro de excelência mais reconhecido, ele não é o único. Ao todo, são 16 núcleos de elite espalhados pelo território francês, que preparam 480 jovens jogadores por temporada, cuja taxa de integração às bases de clubes profissionais é de 60%, segundo dados da Federação Francesa de Futebol.
Como passar pelos núcleos de elite não é garantia de uma carreira no esporte, a iniciativa também oferece formação educacional, para que eles tenham a chance de sucesso em outras áreas que não o futebol. Esse cuidado e investimento é visto como crucial por Christian Bassila, diretor do Instituto Nacional de Futebol (INF, que abrange Clairefontaine), que concedeu entrevista ao portal “The Athletic” no dia 22 de setembro de 2024 para explicar o projeto.
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— Podemos dizer aos meninos aqui: “Ou você se torna jogador de futebol, ou você tem um plano B, porque continuou seus estudos, para poder fazer outra coisa”. O sistema francês e o curso de formação são projetados para que ninguém fique para trás — explicou o ex-volante francês de 48 anos.
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Como funcionam os centros de formação de elite?
A “peneira” de jogadores é anual, e talento bruto isolado não garante uma vaga em Clairefontaine ou nos outros centros. É preciso também que o jovem apresente o temperamento e a mentalidade adequados para o futebol de alto nível. Cada núcleo de excelência acolhe uma turma de 23 meninos, selecionados a dedo por serem considerados como tendo maior potencial para se tornarem o futuro da seleção francesa.
Eles chegam dos 13 aos 15 anos e permanecem por 24 meses como internos semanais, com um programa cuidadosamente elaborado para lhes proporcionar a melhor oportunidade de desenvolvimento. É uma política firmada pela federação francesa em parceria com o Ministério do Esporte. Christian Bassila reconheceu a importância de seu cargo para a formação dessas atletas e o sucesso da seleção a longo prazo.
— É uma pressão diária. Temos que nos questionar constantemente, ver se aquele garoto tem as predisposições para o mais alto nível, se a cabeça dele gira apenas em torno do futebol, se ele tem boa maturidade — começou o diretor.
— Estamos convencidos de que, se se tornarem boas pessoas, poderão aproveitar ao máximo o seu potencial. Temos um lema aqui para os alunos: o homem faz o jogador de futebol, e não o contrário — concluiu.
Rotina e o cuidado por aspectos que ultrapassam as quatro linhas
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A rotina semanal dos centros de formação de elite da França começa com a chegada dos adolescentes no domingo à noite. De segunda a sexta, eles treinam todos os dias e também são levados de ônibus para uma escola local. No final de semana seguinte, voltam para casa, onde jogam na base de seus respectivos clubes, mas também, passam um tempo com seus familiares.
- Acordam às 6h45;
- Tomam café da manhã às 7h;
- Pegam o ônibus para chegar à escola antes das 8h;
- As aulas podem durar até 15h, mas, na maioria dos dias, são liberados às 12h e passam a tarde treinando ou estudando futebol;
- À noite, após o jantar, têm agenda livre para fazer o quiser: descansar, conversar, jogar video-game ou assistir partidas pela TV;
- Às 21h30 ou 21h45, é hora de dormir.
— Quando caminhamos até o campo de treino, às vezes digo aos garotos: “Não olhem (para o castelo), mantenham o foco no treino. O sonho de vocês é estar lá, trabalhar duro para chegar à seleção francesa”. Quero que eles pensem: “Amanhã será a minha vez” — contou Christian Bassila em Clairefontaine.
Os garotos dividem quartos entre si, com uma housemistress (espécie de diretora de residência estudantil) cuidando deles e mantendo a ordem nos corredores. O prédio onde eles ficam é funcional, sem luxos, com salas de aula no térreo. No andar de cima, dormitórios e espaços para relaxar, com tênis de mesa e pebolim.
O uso de celulares é regulado, sendo terminamente proibido ficar o dia todo à frente da tela. Essa limitação do tempo é justificada pela rotina diária repleta de afazeres, mas também serve como proteção aos meninos, tanto como atletas, quanto como seres-humanos em formação.
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— Por um lado, precisamos superprotegê-los e, por outro, existe um mundo real lá fora para o qual precisamos prepará-los. Antes, não tínhamos acesso direto ao feedback das pessoas. Com as redes sociais, alguém pode comentar imediatamente e ver tudo — explica o dirigente.
— Há comentários violentos que chegam diretamente aos jogadores. Antes, éramos protegidos. Hoje, não somos mais. Infelizmente, isso pode afetar o desenvolvimento — complementa Bassila.
A metodologia que incentiva a mentalidade vencedora e diminui o abandono ainda na base
Nas instalações de Clairefontaine, as imagens de Henry e Mbappé estampam as portas de vidro, servindo como inspiração, motivação e (por que não?) pressão. O diretor do INF aponta que isso não é por acaso, pois a ideia é que os garotos entendam que esse é o nível esperado para quem chega aos centros de excelência de formação da França.
Portanto, uma vez lá, a ambição é trabalhada todos os dias para que jovens alcancem, ou até mesmo superem, os feitos das lendas do passado e presente. É um quebra-cabeça técnico, social e filosófico com muitos elementos, e Christian Bassila está numa posição privilegiada para entender o que se passa na cabeça dos garotos escolhidos.
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Ele cresceu em Paris, com raízes familiares no Congo, na África Central. Rodou por Inglaterra, Grécia e Alemanha quando atuava como volante. Agora como dirigente que cuida do centro de formação mais famoso da federação francesa, é uma pessoa calma e gentil, cujo perfil é ideal para liderar jovens em formação.
— (Clairefontaine precisa ser uma família?) Essa noção é importante porque eles deixam as suas quando chegam aqui. Este é o próximo passo. Nós os consideramos um pouco como nossos filhos, os vemos crescer, mesmo que eles não sejam — declarou o ex-jogador.
— Em algum momento, vamos soltar a mão deles. Trata-se de pessoas que se tornam autônomas e que conseguem andar sozinhas. No começo é difícil, e é por isso que acho que a federação foi inteligente, porque percebeu que um dos primeiros fatores de fracasso era a distância da família — esclarece Christian Bassila.
No passado, todos os melhores jogadores da França iam para o estágio em Clairefontaine, que agora só recebe quem é de Paris ou da região. A criação das outras 15 instalações de elite espalhadas pelo país resolveu o problema de obrigar adolescentes a percorrerem longas distâncias ou ficarem longe da família tão precocemente, o que poderia incentivar o abandono da carreira como jogador ainda na base.
Le 𝐁𝐄𝐒𝐓 𝐎𝐅 de la prépa à Clairefontaine est là ! 🍿 pic.twitter.com/PqKO0Q8tZi
— Equipe de France ⭐⭐ (@equipedefrance) June 11, 2026
Esse trabalho de base da federação também visa mudar a mentalidade dos meninos, que ainda não encaram o futebol como um trabalho, e sim como uma paixão. Até pela falta de vivência, eles iniciam seu processo de formação despreocupados. Em Clairefontaine e nos demais centros adjacentes, o objetivo é fazer com que os adolescentes entendem a máxima dita por Henry: “existe uma diferença entre jogar futebol e ser jogador de futebol”.
Futebol da França inclui imigrantes e seus descendentes na organização
Uma das grandes marcas da Copa do Mundo de 2026 é ser o reflexo da diáspora global. Não à toa, 99 jogadores nascidos na França representaram 13 seleções diferentes no torneio, cujo fenômeno se explica pela imigração pelos mais diversos motivos, com jogadores representando as cores do país de nascimento, escolhendo as raízes familiares ou o local onde construíram boa parte de suas carreiras.
Em quais seleções jogam os 99 atletas nascidos na França?
- França (23);
- Argélia (13);
- Haiti (12);
- República Democrática do Congo (11);
- Senegal (10);
- Costa do Marfim (8);
- Tunísia (7);
- Marrocos (6);
- Cabo Verde (3);
- Gana (3);
- Egito (1);
- Catar (1);
- Espanha (1).
As múltiplas nacionalidades e os processos de naturalização são cada vez mais comuns no futebol, e a FFF não fecha os olhos para isso. Em 2015, o lendário treinador francês Arsène Wenger disse que a cidade de São Paulo era o grande celeiro de craques do planeta.
Contudo, não é exagero dizer que esse título agora pertence a Paris, que é o local de nascimento de 56 atletas deste Mundial.
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A região metropolitana de Île-de-France, onde fica a capital da França, conta com 12,5 milhões de habitantes. Essa área densamente povoada representa apenas 2% do território nacional, mas abriga 19% de sua população total. Lá também é o lar de diversas comunidades imigrantes, sobretudo de antigas colônias do país ao redor do mundo.
Com tantos apaixonados por futebol no mesmo lugar, a prática do esporte na rua, nos campinhos, nos clubes amadores e profissionais favorece o “caldeirão cultural”, com diferentes perfis físicos e técnicos se misturando ainda na infância, o que ajuda a elevar o nível. A diversidade, combinada aos investimentos em sistemas de treinamento e construções de instalações esportivas ao longo das últimas décadas, resulta em mais jogadores de qualidade sendo revelados na França.
O grande diferencial da França é o cuidado organizacional, levando em consideração aspectos territoriais. Os garotos são expostos aos mais variados estilos de jogo durante a infância, podendo dar os primeiros passos nos Distritos ou no amador (e seus mais de 13 mil clubes), passando pelas Ligas Regionais até chegar aos Pôles Espoirs, que são Clairefontaine e os outros 15 centros de excelência citados anteriormente.
— É cultural, é social, é um compromisso com o esporte. A França investe muito nos jovens e no esporte nas cidades. O desenvolvimento do futebol amador, com campos municipais, permite esse florescimento. É toda essa alquimia entre o futebol de rua, o futebol amador e o futebol profissional, bem administrada pela federação, que permite que uma cidade como Paris, com muitos habitantes, seja centrada no futebol — finalizou Bassila.