Tim Vickery: ‘Seleções com imigrantes sempre existiram. Quando são negros, o discurso muda’
Edição 7 do "Futebol em Contexto", com Allan Simon e Tim Vickery, debate um dos temas importantes da Copa do Mundo 2026
Como tem sido nas edições mais recentes da Copa do Mundo, o debate sobre imigração, dupla cidadania e identidade volta à tona. Um tema complexo e profundo muitas vezes tratado com desconhecimento e visões discriminatórias.
As seleções muitas vezes já eram retratos de suas sociedades multiculturais, com diferentes movimentos migratórios. Mas hoje o fenômeno parece estar sob mais holofotes que no passado. E dentro disso, o peso da discussão é bastante diferente para atletas com ligação africana.
— Quando as coisas corriam bem, eu lia os artigos de jornal e eles me chamavam de Romelu Lukaku, o atacante belga. Quando as coisas não corriam bem, eles me chamavam de Romelu Lukaku, o atacante belga descendente de congoleses –, criticou o centroavante Romelu Lukaku em entrevista ao “The Players Tribune”, em 2018.
Imigração, identidade e sociedade multicultural na Copa do Mundo
No Mundial 2026, 289 atletas, espalhados por 40 seleções, nasceram fora dos respectivos territórios que defendem. E é a França geralmente quem é alvo de um debate municiado por argumentos intolerantes, mesmo tendo apenas três jogadores na lista citada.
— A questão da imigração ganha outra dimensão quando passa pelo debate sobre identidade. No caso da França, isso fica muito evidente: seleções com jogadores de origem imigrante sempre existiram, mas, quando a pele escurece, o tema vira um problema para muita gente. Não estamos falando apenas de atletas de origem africana, mas de povos não brancos no Ocidente de forma geral. Existe um viés ideológico e racial nessa discussão — analisou o jornalista do Portal Ponta de Lança, Luis Fernando Filho, participante do episódio desta semana do Futebol em Contexto.
Jogadores com diferentes origens sempre fizeram partes das seleções, incluindo a francesa. De Just Fontaine, nascido em Marrakesh, no Marrocos, a Michel Platini, com ligações italianas na família. Apesar de ser um tema muito debatido nos dias atuais, essa questão sempre existiu, mas nem sempre teve o peso que possui na atualidade, conforme lembrado pelo jornalista Tim Vickery, colunista da Trivela.
— Seleções com jogadores imigrantes sempre existiram. A França já teve protagonistas com origens estrangeiras, como Just Fontaine, Roger Piantoni, Michel Platini, Marius Trésor e tantos outros. O que mudou não foi a presença de imigrantes no futebol, mas a cor desses jogadores. Hoje, muitos são negros e carregam nomes de origem africana, especialmente na França, e isso acaba mudando o tom do debate. Uma seleção sempre foi povoada por imigrantes sem grandes questionamentos, mas, quando esses imigrantes são negros, o discurso muda — criticou Vickery.
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Debate em um contexto complexo
Se a imigração é um fator que ajuda a explicar a composição das seleções, a dupla cidadania abriu ainda mais possibilidades para jogadores e federações. Pelas regras da Fifa, um atleta pode ser elegível para representar mais de um país por critérios como local de nascimento, nacionalidade dos pais ou avós, além de períodos de residência.
Na prática, isso transforma a escolha da seleção em uma decisão muitas vezes complexa em um mundo em que a definição de nacionalidade é fluida, misturando identidade, vínculo familiar, projeto esportivo e sentimento pessoal.
— Quando o Marrocos venceu Bélgica e Portugal na Copa do Mundo 2022, houve uma enxurrada de comentários que misturavam críticas válidas ao colonialismo europeu com discursos que, no fim, acabavam legitimando narrativas da extrema-direita, questionando quem ‘deveria’ ou não defender determinada seleção. Casos como o de Lamine Yamal ou de jogadores da França entram nesse debate, mas é preciso entender que existe também uma dimensão de escolha pessoal, familiar e de carreira — explicou Luis Fernando Filho.
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Nos bastidores do futebol internacional, a disputa por atletas elegíveis para mais de uma seleção se tornou cada vez mais comum. Federações monitoram jovens talentos desde cedo, tentando convencê-los antes de uma decisão definitiva. Ayyoub Bouaddi é nascido na França, mas tem origem marroquina e decidiu representar o país da família já na Copa do Mundo 2026.
— A federação marroquina construiu talvez o melhor projeto de captação da diáspora do mundo: não se trata apenas de recrutar talentos espalhados pela França, Bélgica ou outros países, mas de acompanhar categorias de base, dialogar com famílias e construir um sentimento de pertencimento. Muitos desses atletas cresceram na Europa, mas dentro de casas profundamente marroquinas, cercadas por cultura, culinária, religião e identidade familiar. Mesmo quem nunca pisou no país carrega essa vivência — completou Luis Fernando.