Futebol brasileiro

Tim Vickery: Os desafios da seleção brasileira (e das europeias) com calendário e preparação

É evidente que a seleção brasileira deveria jogar mais em casa. Verdade, tem a garantia de nove jogos em cada ciclo das Eliminatórias, mas que tal um amistoso de vez em quando? Seria bom. Mas tem um problema. Precisa de adversários. 

A Bolívia ia ser anfitriã contra a Gâmbia no domingo. Não rolou. Os africanos desistiram. Tudo bem, o encontro foi organizado no último minuto, e ir para a Bolívia deveria ser bem menos atraente do que o jogo no Brasil. Mas o processo de ter amistosos em casa não está fácil nem para a Argentina. Em março, conseguiu seduzir a Mauritânia e a Zâmbia, e agora é Burkino Faso e, para a grande despedida de Messi, o Benim — todas seleções africanas que não foram para nenhuma Copa do Mundo.

Confira as colunas de Tim Vickery na Trivela

Confira as colunas de Tim Vickery na Trivela

Leia →

Parece que o jogo contra o Benim vai rolar sem problemas, mas sábado à noite contra Burkino Faso beirou uma farsa. O time principal não viajou. Problemas técnicos com o avião? Talvez. Mas também parece que os atletas não estavam muito dispostos, que depois de atuar em jogos competitivos na África uma viagem tão longa seria um sacrifício — aquela palavra de novo — além da conta.

Então, no último minuto, mandou o time sub-23. Chegou em Buenos Aires no horário de almoço do sábado, e poucas horas depois foi para o campo no estádio Monumental. Levou três gols nos primeiros onze minutos, e acabou perdendo por 7 a 0. Até o técnico argentino Lionel Scaloni confessou que isso é longe de ser ideal, mas frisou que não há muitas alternativas em termos de adversários disponíveis.

Tem uma questão importante aqui. A América do Sul — e especialmente o Cone Sul, onde o futebol é mais forte — fica muito longe do mundo. Isso não se trata de uma visão eurocêntrica. É um fato geográfico. Descendo, tem o Polo Sul. Subindo, a distância entre Buenos Aires e a Cidade do México é mais longe daquela entre Londres e Mumbai. Por um lado, o grande Oceano Atlântico. Por outro, o Pacifico.

A consequência para o futebol — não é fácil atrair adversários para enfrentar essas distâncias enormes para jogar um amistoso.

Raphinha comemora gol durante Brasil x Austrália (Foto: Imago/AAP)
Raphinha comemora gol durante Brasil x Austrália (Foto: Imago/AAP)

Além disso, fica difícil achar adversários disponíveis. Com a criação da Liga das Nações ficou quase impossível jogar contra uma seleção da Europa. No ciclo entre a Copa do Catar e a deste ano, quase houve espaço para a América do Sul jogar contra a Europa — basicamente foi somente março de 2024, março deste ano e os dias antes do Mundial. 

Ficou, então, impossível trazer os europeus para a América do Sul, mas também é muito difícil enfrentá-los na Europa. Tenho a impressão que o Velho Continente, ao mesmo tempo, ganha e perde com essa situação.

Por um lado, enche o calendário com jogos competitivos, contra adversários páreos, sem ter que viajar muito. Tem sido bom, acho, para o desempenho da Europa dentro do campo — mas ruim para o desempenho da Europa fora dele.

Cristiano Ronaldo, da seleção portuguesa, entrega a braçadeira de capitão a Bruno Fernandes durante a partida contra o País de Gales pela Nations League 2026/27, no Estádio José Alvalade, em Lisboa, em 24 de setembro de 2026.
Cristiano Ronaldo passa a braçadeira de capitão para Bruno Fernandes durante Portugal x País de Gales pela Nations League. Foto: João Gregório/IMAGO / NurPhoto)

A guia do exemplo, vamos puxar a sua campanha para derrubar Gianni Infantino como presidente da Fifa. Com um pouco mais de 50 membros de uma associação de 211, é óbvio que a Europa precisa costurar alianças para ganhar uma votação. Mas tem o que para oferecer?

O continente já congrega quase todos os melhores jogadores do mundo no seus clubes. E agora as suas seleções estão também ficando dominantes, fortalecidas por um calendário que funciona melhor para elas, mas que deixa a Europa fechada em si. Assim fica difícil ter projetos em conjunto com outras federações continentais, e a campanha para derrubar Infantino está claramente perdendo fôlego. Tem pouco mais do que um mês para um candidato aparecer, e até agora, nada.

Antes do próximo Congresso da Fifa, a seleção brasileira, mais uma vez, vai para a Ásia. Vai jogar em Singapura contra o Japão (muito interessante) e o país anfitrião (nem tanto). Mas se a Ásia consegue organizar a sua própria Liga das Nações, a busca por adversários nos amistosos vai ficar mais difícil ainda.

Foto de Tim Vickery

Tim VickeryColaborador

Tim Vickery cobre futebol sul-americano para a BBC e a revista World Soccer desde 1997, além de escrever para a ESPN inglesa e aparecer semanalmente no programa Redação SporTV. Foi declarado Mestre de Jornalismo pela Comunique-se e, de vez em quando, fica olhando para o prêmio na tentativa de esquecer os últimos anos do Tottenham Hotspur

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo