Desde 1930: Como as convocações do Brasil para as Copas do Mundo sempre tiveram polêmicas
Ancelotti anunciou a lista definitiva da seleção brasileira para o Mundial de 2026 novamente com controvérsias
Toda convocação da seleção brasileira tem polêmica, por menor que seja. Há sempre um jogador em discordância, ou algum injustiçado que ficou fora. Na Copa do Mundo, as polêmicas ocorrem desde a primeira convocação do Brasil, em 1930. Nesta segunda-feira (18), o técnico Carlo Ancelotti anunciou a lista definitiva para o Mundial de 2026.
Nos selecionados para o Mundial deste ano, Neymar e Weverton foram duas das surpresas promovidas por Carlo Ancelotti. Escolhas tão surpreendentes que quebraram uma marca que durava quase três década na seleção brasileira.
Das polêmicas de um país dividido politicamente até craques de fora de Copas consecutivas, praticamente nenhuma lista da Seleção passou ilesa. A Trivela relembra os episódios mais memoráveis da história do Brasil nos Mundiais.
A primeira convocação do Brasil para a Copa do Mundo já foi polêmica
A convocação da seleção brasileira para a primeira Copa do Mundo da história, em 1930, esteve longe de representar uma união nacional em torno do futebol. Em um período em que o esporte ainda era marcado pelo amadorismo e por disputas políticas entre federações estaduais, o Brasil chegou ao torneio no Uruguai mergulhado em conflitos internos que enfraqueceram a equipe antes mesmo de a bola rolar.
O principal embate envolvia a rivalidade entre as entidades de futebol do Rio de Janeiro e de São Paulo, então os dois grandes polos do esporte no país. Naquele momento, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD), responsável pela organização da Seleção, rompeu relações com a Associação Paulista de Esportes Atléticos (APEA), que controlava o futebol paulista.
Lembra da nossa primeira vitória em Copas do Mundo? Claro que não, né! Ela aconteceu há 90 anos, em 1930, graças a um craque! ⚽️🇧🇷 #JogaBola
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— brasil (@CBF_Futebol) July 20, 2020
O motivo era uma disputa por poder e reconhecimento dentro da estrutura esportiva brasileira. Como consequência direta, os jogadores ligados aos clubes paulistas acabaram excluídos da convocação para o Mundial. A ausência de atletas de equipes tradicionais como Corinthians, Palestra Itália (o atual Palmeiras) e Santos gerou forte repercussão na época.
Sem contar com boa parte dos principais nomes do futebol paulista, a base da seleção foi formada majoritariamente por atletas de clubes cariocas, especialmente de Fluminense e Vasco. A decisão alimentou críticas de favorecimento regional e levantou questionamentos sobre a legitimidade da equipe que representaria o país na primeira edição da Copa do Mundo.
Dentro de campo, a campanha brasileira acabou refletindo parte daquele cenário turbulento. A seleção estreou com derrota por 2 a 1 para a Iugoslávia e venceu a Bolivia na sequência, mas foi eliminada ainda na fase inicial do torneio.
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Convocações do Brasil para a Copa do Mundo em época de ditadura militar
As décadas de ditadura militar no Brasil também protagonizaram polêmicas na seleção brasileira. A mais clara é a que envolveu a preparação para a Copa do Mundo de 1970, com a demissão do técnico João Saldanha faltando 78 dias para o Mundial.
Assumidamente comunista, Saldanha era abertamente contra o regime militar e teve atritos com o então presidente na época, Emílio Garrastazu Médici. O militar queria a convocação do artilheiro Dadá Maravilha para o time, mas Saldanha era contra. Esse foi um dos motivos para a demissão do jornalista que comandava a equipe, posteriormente substituído por Zagallo.
A conquista do tricampeonato em 1970, inclusive, foi usado pelo regime como propaganda política. O título ajudou a mascarar a repressão e tortura que acontecia, criando uma imagem de país unificado e forte.
Na Copa seguinte, os militares voltaram a usar a Seleção como forma de propaganda, o que gerou boicote de Pelé ao Mundial. Diferente de 1970, no entanto, houve mais resistência contra o regime.
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Diversas Copas tiveram ausências controversas na seleção brasileira
Na Copa de 1954, por exemplo, a ausência de Zizinho foi extremamente questionada. Considerado um dos maiores jogadores brasileiros do período e destaque da campanha do vice em 1950, o meia acabou fora da lista final em meio a rumores de desgaste com dirigentes e divergências internas. A inclusão de dois goleiros reservas em seus clubes (Veludo, do Fluminense, e Cabeça, do Corinthians) também gerou estranheza.
Já em 1966, a principal controvérsia envolveu a insistência em levar Pelé e Garrincha sem que ambos estivessem nas melhores condições físicas. O Brasil chegou à Inglaterra tentando conquistar o tricampeonato consecutivo, mas a preparação foi caótica: houve excesso de convocados, pressão política de clubes e influência de federações na montagem do elenco. A eliminação precoce aumentou ainda mais as críticas à falta de organização da comissão técnica.
Em 1978, a não convocação de Falcão gerou enorme repercussão e é possivelmente a maior ausência da história do país em uma Copa. O meio-campista do Internacional era visto como um dos jogadores mais talentosos do mundo, mas acabou cortado por Cláudio Coutinho na lista final para a Copa da Argentina. A decisão foi considerada impopular e virou símbolo da desconfiança sobre critérios técnicos da comissão brasileira naquele Mundial.
Quatro anos depois, Falcão foi convocado, mas nem por isso faltou polêmica. Telê Santana não chamou Renato Gaúcho, um dos grandes astros do futebol nacional na época, o que também gerou grandes críticas. Além disso, havia cobranças por mais espaço a jogadores considerados mais físicos em uma seleção vista por parte da imprensa como “artística demais”.
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Tanto em 1998 quanto em 2002, Romário foi um nome envolto de controvérsias. O Baixinho foi o astro do tetra em 1994, mas ficou fora dos dois Mundiais subsequentes. Em 1997, Zagallo o acusou de forjar uma lesão e, posteriormente, não acreditou na recuperação do jogador de problemas na coxa e panturrilha, e acabou o cortando.
Romário também foi importante nas Eliminatórias para a Copa de 2002, mas jogou apenas uma partida com Felipão, na estreia do treinador em 2001. Pelo Vasco naquele ano, marcou 26 gols em 27 jogos, e teve partidas de três e quatro gols pela seleção brasileira, mas ficou fora.
Em 2010, Neymar e Ganso foram os dois principais nomes de contestação. A dupla de joias do futebol brasileiro encantava com o Santos e era vista como promessas gigantescas, mas foi esquecida por Dunga — que recebeu até xingamentos depois da Copa. Ambos seriam campeões da Libertadores no ano seguinte.
Mais recentemente, em 2018, Taison foi um nome que chamou a atenção na primeira Copa do Mundo de Tite. Já em 2022, a presença de Daniel Alves, convocado aos 39 anos mesmo sem viver grande fase técnica, também gerou atrito.
Além de Neymar e a escolha por levar Weverton, atualmente no Grêmio, Ancelotti também optou por uma lista com jogadores de ligas ‘alternativas (como a russa e a saudita), além de atletas de clubes menores de ligas importantes como Igor Thiago, do Brentford e Rayan, do Bournemouth, clubes do escalão médio da Premier League.