Brasil

A Seleção de 1994 jogou para Romário e todo mundo sabe… Mas como ela fez isso?

Nos 30 anos do tetra, Trivela explica o que o subvalorizado Brasil de 1994 fez para que o Baixinho pudesse brilhar

A Seleção Brasileira foi campeã da Copa do Mundo nos Estados Unidos há exatos 30 anos. O tetra chegou, principalmente, pelos pés de Romário — o melhor jogador do mundo pela Fifa naquele ano. Mas não só por ele.

Se a Seleção de Carlos Alberto Parreira foi vista por anos como um time de um homem só (no máximo dois, se contar a dupla do Baixinho, Bebeto), essa é uma história mal contada. O time de 1994 foi um dos mais completos do Brasil em Copas.

Essa análise especial da Trivela em comemoração aos 30 anos do tetra conta como a Seleção Brasileira jogou para que Romário decidisse de forma tão perto da perfeição, que o resto do time fosse quase esquecido.

A seleção cruyffista para um Romário de Cruyff

O lendário Johan Cruyff foi o treinador que mais comandou Romário no futebol europeu. Apesar de terem apenas 84 jogos juntos (entre amistosos e partidas oficiais), os dois se entendiam muito e o holandês teve lugar especial para o Baixinho e, consequentemente, a Seleção.

No Barcelona de Cruyff, o brasileiro era o centroavante do 3-4-3 em losango. Pep Guardiola era o volante que distribuía o jogo e era o motorzinho do time para manter a bola em movimento. Romário era quem aproveitava os espaços atrás da linha de marcação do adversário para receber e finalizar.

Foto: (Reprodução/homecrowd) - 3-4-3 do Barcelona Johan Cruyff
O Barcelona de Johan Cruyff no 3-4-3 (Foto: Reprodução/homecrowd)

Romário no Barcelona (temporada 1993/94)

  • Partidas oficiais: 47
  • Partidas amistosas: 17
  • Gols em partidas oficiais: 32 (média de 0,68 por jogo)
  • Gols em amistosos: 14 (média de 0,82 por jogo)
Foto: (IconSport) - Romário pelo Barcelona
Romário pelo Barcelona em 1994, comandado por Johan Cruyff (Foto: IconSport)

Time que tem a bola é pragmático?

O time do tetra ficou popularmente conhecido com o passar dos anos como pragmático. A equipe que não jogava “futebol arte” porque faltavam dribles desconcertantes e firulas – que vieram em 2002, por exemplo.

Apesar da formação diferente e dos jogadores bem distintos, Parreira levou aos Estados Unidos um time propositivo, que controlava muito bem a posse de bola e, consequentemente, se defendia muito bem.

Mas a equipe de Parreira era moderna até demais para o seu tempo. Entre os times que passaram da fase de grupos, o Brasil teve ótimos números, pois tinha a posse da bola:

  • Posse de bola: 59,6% (1º, média por jogo)
  • Passes certos: 512.1 (1º, média por jogo)
  • Gols totais: 11 (2º)

Se hoje vivemos em um tempo em que a ideia de que “ter a bola para que o adversário não a tenha” é tão comum, isso sequer passava pela cabeça das pessoas há 30 anos. E o uso de meias e laterais de Parreira é digna de um guardiolista.

O 4-4-2 de Parreira começou a Copa com Zinho e Raí como meias abertos, e os dois geralmente transitavam para as regiões centrais quando o time tinha a bola. Era um claro 4-4-2 brasileiro, que se tornava rapidamente um 4-2-2-2, com pontas virando meias.

Um esquema diferente do clássico 4-4-2 inglês, em que os extremos eram cruzadores ou jogadores de linhas de fundo. E há quem diga que “faltou brasilidade” nesse time…

Foto: (Reprodução/homecrowd) - 4-4-2 da seleção brasileira de 1994
Foto: (Reprodução/homecrowd) – 4-4-2 da seleção brasileira de 1994 durante a fase de grupos da Copa do Mundo

Os laterais aproveitavam os espaços criados com a movimentação dos extremos. No entanto, eles não atuaram como o estereótipo da posição, como Carlos Alberto Torres. Jorginho e Leonardo, por exemplo, cansaram de atacar espaços pelo meio de campo. Leonardo, inclusive, já era meia no São Paulo a essa altura da carreira.

Em diversos momentos, Bebeto saía da área, abria o campo em movimentos para os lados e puxava um marcador para criar espaço. Raí e Zinho, mais articuladores que atacantes, ocasionalmente deixavam esses espaços para os laterais.

- - Continua após o recado - -

Assine a newsletter da Trivela e junte-se à nossa comunidade. Receba conteúdo exclusivo toda semana e concorra a prêmios incríveis!

Já somos mais de 4.800 apaixonados por futebol!

Ao se inscrever, você concorda com a nossa Termos de Uso.

Não haveria Romário sem Dunga

No Barcelona de Cruyff, não haveria o mesmo sucesso ofensivo sem a presença do volante Guardiola. No Barcelona de Pep, muito passou pela capacidade de Busquets. Na Seleção Brasileira, esse jogador era Dunga.

Conhecido pelo estereótipo do volante raçudo, brigador e até violento — principalmente pela imagem quase militar que tomou como treinador –, Dunga era muito mais do que isso. Injustiçado, foi um dos melhores controladores de jogo de todas as edições da Copa do Mundo.

Foto: (IconSport) - Dunga pela seleção brasileira
Dunga tinha um papel fundamental na seleção do tetra. (Foto: IconSport)

E apesar de ser conhecido como o destruidor de jogadas, ele não era o primeiro volante do time. Com a bola, Mauro Silva era o mais recuado, enquanto o gaúcho subia e atuava quase que como um meia.

Era ele quem tabelava para progredir, conduzia desde trás, dava lançamentos e se tornou ainda mais importante com a queda de produção de Raí. Principal jogador do ciclo pré-Copa, o camisa 10 virou reserva no mata-mata para o lateral de origem Mazinho.

Dunga – duas vezes no ranking de maior passador das Copas do Mundo:

  • 1 – Dunga (1994) – 692 passes
  • 2 – Xavi (2010) – 657 passes
  • 3 – Philipp Lahm (2014) – 651 passes
  • 4 – Mascherano (2014) – 633 passes
  • 5 – Toni Kroos (2014) –  626 passes
  • 6 – Dunga (1998)  – 575 passes

Os percalços que levaram ao isolamento de Romário

Algumas situações ao longo da Copa fizeram com que Romário ficasse ainda mais “distante” do resto do time. Com cada vez menos funções coletivas e quase que um jogador única e exclusivamente para completar as chances criadas pelos companheiros.

Tamanho foi o isolamento do Baixinho que ele foi apenas o 13º jogador em passes completados por jogo no Brasil, em um total de 18 atletas utilizados. Seus 22 passes por partida eram levemente superiores aos do reserva Cafu (21,7) e do goleiro Taffarel (15).

Brasil (passes certos por jogo – Copa de 94):

  • 1 – Dunga: 84,1
  • 2 – Branco: 57,7
  • 3 – Mauro Silva: 51,4
  • 4 – Leonardo: 49,8
  • 5 – Márcio Santos: 49,7
Foto: (IconSport) - Romário pela seleção brasileira
Romário também contribuía defensivamente para a Seleção Brasileira, mas a sua maneira. (Foto: IconSport)

Em contrapartida, foi o líder em finalizações por jogo (5,4) e chutes certos por partida (3) em toda a Copa. Foi também o maior driblador do time (3,4 dribles por jogo), principalmente porque era o responsável por enfrentar a defesa de frente. Diferente dos demais, que circulavam a bola para encontrá-lo, ele era o ponto final.

Isso ocorreu por conta de algumas mudanças forçadas. Primeiramente pela queda de desempenho de Raí — pouco criativo com a bola e sem condições de performar sem ela, saiu e deu espaço a Mazinho, que lateralizava muito mais.

Isso fez com que Bebeto recuasse cada vez mais para ter funções mais criativas — tanto que se tornou o jogador com mais passes-chave por jogo (2,6) da equipe, número próximo ao de grandes criadores no torneio como Bergkamp, Balakov e Hagi.

Foto: (IconSport) - Bebeto pela seleção brasileira
Bebeto foi crucial para a Seleção do tetra. (Foto: IconSport)

Além disso, as mudanças na defesa impactaram o Baixinho. A dupla de zaga teve de ser trocada por lesões, e Aldair e Márcio Santos entraram no lugar dos Ricardos Gomes e Rocha. As trocas levaram a mais preocupação dos laterais e volantes em proteger o sistema defensivo, gerando mais cautela com a bola e nas subidas.

E, por fim, a expulsão de Leonardo trouxe Branco, abaixo fisicamente, ao time titular. Menos criativo e mais explosivo na lateral, o canhoto subia com menos ímpeto. A seleção ficou mais compacta no meio, criava com mais proximidade, mas deixava Romário mais distante.

Foto: (Reprodução/homecrowd) - Formação da seleção na final do Mundial de 1994
Formação da seleção brasileira na final do Mundial de 1994 (Foto: Reprodução/homecrowd)

Craque defende?

Estatisticamente, Romário praticamente nada fez no setor defensivo durante o torneio. Foi o jogador com menos divididas (0,3 por jogo) e interceptações (0,3) do Brasil na Copa.

Ainda assim, recuperou 1,9 bola por jogo, mais do que Bebeto (0,9), Zinho (1,7), Mazinho (1,8), Raí (0,6) e Mauro Silva (0,7), por exemplo. Ele tinha uma única função: o primeiro momento de pressão.

Respondendo: craque também defende. Pouco, mas defende. O 4-4-2 variava na defesa a depender do adversário: às vezes 4-2-2-2, outras 4-1-3-2, variando no posicionamento de Dunga.

Foto: (Reprodução/homecrowd) - Seleção brasileira prostrada em um 4-2-2-2 defensivo
Foto: (Reprodução/homecrowd) – Seleção brasileira prostrada em um 4-2-2-2 defensivo

No 4-2-2-2, Dunga ficava ao lado de Mauro Silva, enquanto Zinho e Raí (e depois Mazinho) fechavam mais. Não defendiam no corredor, mas acompanhavam os meias ou pontas adversários que entravam em diagonal. O lado do campo era defendido pelo lateral.

O 4-1-3-2 surgia quando Dunga saltava à linha da frente, geralmente contra um time que povoava mais o meio-campo, para pressionar o volante adversário. Isso atrapalhava a primeira fase de construção.

Foto: (Reprodução/homecrowd) - Seleção do tetra se defendia com Dunga avançado para dificultar a saída de bola adversária
Seleção do tetra se defendia com Dunga avançado para dificultar a saída de bola adversária (Foto: Reprodução/homecrowd) –

Era a subida de Dunga que fazia com que Romário pudesse “brilhar” defensivamente. Sem a opção do volante à frente, marcado por Dunga, o zagueiro adversário perdia o controle, não encontrava o passe e podia cometer erros com Romário por perto o pressionando.

O Baixinho não era um Gabriel Jesus em 2018, mas tinha seu papel defensivo. Caso o time adversário passasse da primeira linha de pressão em que o camisa 11 estava, paciência — não era mais problema dele e isso estava combinado.

Valeu a pena jogar por Romário?

Ao longo dos anos foi criada a ideia no futebol brasileiro de que os menos afortunados têm de jogar para o craque. Os argumentos apontam para como Pelé, Romário e Ronaldo tiveram times que carregavam o piano por eles e, por isso, o Brasil foi campeão.

Romário mesmo pedia para que a seleção jogasse por Neymar para ter sucesso nas últimas Copas — ou o exemplo do que a Argentina fez em 2022 para o sucesso com Messi.

Foto: (IconSport) - Neymar pela seleção
Neymar ainda busca uma Copa do Mundo com a Seleção. (Foto: IconSport)

Isso não é regra. Muitas vezes a ausência do craque em determinadas fases do jogo atrapalha o time. Isso aconteceu com o próprio Brasil, acontece com a seleção portuguesa com Cristiano Ronaldo e com diversos outros times pelo mundo.

Mas deu certo com o time de Parreira. Existia união suficiente para isso e até uma simbologia na imagem de Romário, que praticamente sozinho classificou o Brasil à Copa com seus gols na vitória decisiva contra o Uruguai, nas Eliminatórias.

As ideias de Parreira na montagem do elenco e nas decisões em campo, no entanto, são subestimadas. Ele criou um time controlador, com grande capacidade associativa, atacantes velozes e letais, meias versáteis e volantes destruidores e com boa capacidade de armação.

O controle de jogo, que ficou visto como pragmático, rendeu ao time a melhor defesa que o Brasil já teve na história das Copas do Mundo — Tite igualou o feito em 2022, mas caiu nas quartas.

Foto: (IconSport) - Carlos Alberto Parreira pela seleção brasileira
Carlos Alberto Parreira não foi pragmático na seleção do tetra (Foto: IconSport)

Apesar de não ter o melhor ataque, alguns gols não marcados podem ser colocados na conta dos próprios jogadores. Romário mesmo poderia ter dois ou três gols a mais caso tivesse guardado algumas boas chances que teve.

Mas a lição que fica, 30 anos depois, é que, apesar de ter jogado para Romário, a Seleção Brasileira tetracampeã do mundo foi muito mais do que um time simplista que “só queria vencer” e ignorou a beleza estética no futebol.

Não havia um Ronaldinho ou um Neymar para rabiscar nos campos americanos, mas a beleza foi coletiva, complexa e ainda não completamente compreendida.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.
Foto de Matheus Cristianini

Matheus CristianiniRedator

Jornalista formado pela Unesp, com passagens por Antenados no Futebol, Bolavip Brasil, Minha Torcida e Esportelândia. Na Trivela, é redator de futebol nacional e internacional.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo