Futebol brasileiro

Austrália x Brasil: Ancelotti repete padrão que últimas ‘reestreias’ pós-Copa deixaram de alerta

Da ousadia de Mano à 'temeridade' de Ramon, primeiras partidas pós-Mundial costumam ser repletas de novidades sem garantias

Carlo Ancelotti comandará a seleção brasileira em duelo contra a Austrália, nesta sexta-feira (25), depois da eliminação para a Noruega na Copa do Mundo de 2026. O italiano convocou nove estreantes e uma parcela expressiva de atletas que atuam no futebol brasileiro. Jovens em diferentes posições e fins de ciclo marcam uma nova era.

Há uma expectativa inevitável quando o Brasil joga pela primeira vez depois de uma Copa. O treinador pode testar jogadores, abandonar hierarquias e, principalmente, oferecer ao torcedor a sensação de que uma nova história começou na Seleção.

Ancelotti não esconde que a ideia é renovar. O Brasil chega, portanto, repetindo uma tradição das últimas duas décadas: abrir as portas para jogadores que estavam pedindo passagem e tentar descobrir, antes que seja tarde, quem realmente merece permanecer. A Trivela relembra as primeiras partidas dos últimos cinco ciclos de Copa e como há um padrão que pode preocupar.

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Dunga mostrou renovação e conservadorismo em diferentes ciclos 

Na primeira partida depois da Copa de 2006, Dunga não fez uma ruptura completa, mesmo que o ciclo de diversas lendas tivesse acabado naquela derrota para a França. O Brasil empatou por 1 a 1 com a Noruega, em Oslo, em 16 de agosto, e o time tinha uma mistura de veteranos e jogadores que haviam ficado em segundo plano no Mundial.

Robinho, Cicinho e Fred foram titulares depois de terem participado da Copa com papéis menores, enquanto Gomes assumiu o gol, Elano apareceu no meio e Daniel Carvalho ganhou uma oportunidade como titular. A escalação já dizia muito sobre a intenção de Dunga.

Havia um time que ainda tinha a espinha dorsal da geração anterior, mas apresentava algumas portas abertas. No segundo tempo, entraram Maicon, Dudu Cearense, Júlio Baptista e Vágner Love. Daniel Carvalho marcou o gol brasileiro e parecia ser exatamente o tipo de descoberta que uma primeira partida pós-Copa costuma produzir.

Dunga iniciou os ciclos para 2010 e 2018 na seleção brasileira
Dunga iniciou os ciclos para 2010 e 2018 na seleção brasileira (Foto: GPG / Icon Sport)

Mas Daniel Carvalho é o exemplo perfeito do problema que Ancelotti precisa ter em mente. O meia do CSKA marcou logo na estreia e voltou a jogar contra a Argentina e a Suíça naquele mesmo ano, mas terminou sua trajetória na Seleção com apenas três partidas e um gol. O brilho daquele começo não se transformou em uma carreira internacional duradoura.

Alguns jogadores daquela geração se tornaram importantes nos anos seguintes, mas é o sinal de que o primeiro jogo é péssimo para separar potencial de momento. Um jogador pode parecer pronto porque está atravessando uma ótima fase no clube ou simplesmente porque a torcida está sedenta por novidades. Daniel Carvalho marcou naquela noite, mas o tempo mostrou que o gol não era necessariamente o começo de uma trajetória.

Em 2014, Dunga retornou ao cargo depois do traumático 7 a 1 e, em vez de promover uma reformulação profunda, optou por manter a base que havia disputado a Copa. Queria restaurar o pulso firme e manter ordem, então promoveu menos mudanças para ter controle em um momento crítico.

A vitória por 1 a 0 sobre a Colômbia, em Miami, teve poucas novidades relevantes. O Brasil jogou mal, teve dificuldades para criar e encontrou a vitória graças a Neymar. As novidades relevantes daquela noite foram Philippe Coutinho e Marquinhos, que entraram no segundo tempo. O restante era essencialmente a mesma geração que havia fracassado poucos meses antes.

O problema daquela reestreia não foi simplesmente não renovar, mas a dependência que ela revelava. O Brasil precisava de Neymar para resolver partidas novamente. O craque apareceu, marcou e a vitória permitiu que o novo ciclo começasse sem uma cobrança imediata.

Dunga posteriormente encontrou soluções mais interessantes, especialmente com Douglas Costa e Roberto Firmino, mas a primeira impressão foi de continuidade. O Brasil não parecia estar procurando uma nova identidade, mas tentava reconstruir rapidamente uma estrutura que já conhecia. Para Ancelotti, há uma lição. Renovação não significa necessariamente trocar dez jogadores, mas também não pode ser apenas manter os mesmos protagonistas.

Com Mano Menezes, a seleção brasileira realmente apontou para o futuro

Se a estreia de Dunga em 2006 abriu algumas portas, a primeira partida de Mano Menezes escancarou a janela para uma nova geração. O Brasil venceu os Estados Unidos por 2 a 0, em Nova Jersey, com gols de Neymar e Alexandre Pato, mas o placar foi apenas parte da história. Ganso, Neymar e Pato começaram juntos, e a equipe apresentou uma proposta muito mais agressiva do que havia sido a Seleção de Dunga.

Ganso e Neymar, muito pedidos para o Mundial da África do Sul, fizeram sua estreia pela equipe principal, enquanto David Luiz também começou a construir sua trajetória como nome recorrente da Seleção. Jucilei e André também ganharam minutos, outros jovens de potencial.

Aquela noite acabou como uma síntese da curta ‘era Mano Menezes'. Havia a sensação de que o Brasil precisava se reconectar com uma geração mais jovem, técnica e criativa. Mas nem todos vingaram, evidentemente. André teve quatro partidas pela Seleção entre 2010 e 2011, enquanto Jucilei disputou apenas duas. Mas a diferença em relação a Daniel Carvalho está justamente no que aconteceu com os principais nomes daquela noite.

Neymar virou o nome da geração. Ganso teve uma trajetória marcada por lesões e não alcançou o potencial que parecia ter, mas David Luiz se tornou pilar dos anos seguintes. E Pato, apesar de jamais ter correspondido à expectativa que criou, chegou a 27 jogos pela Seleção e disputou uma Copa das Confederações.

Em 2018, Tite renovou o Brasil sem precisar desmontar nada

Tite com Neymar e Coutinho na Copa de 2018
Tite com Neymar e Coutinho na Copa de 2018 (Foto: Sven Simon/Imago)

A reestreia de Tite depois da Copa da Rússia foi provavelmente a mais tranquila das cinco. O Brasil venceu os Estados Unidos por 2 a 0 e, ao contrário de 2014, não havia necessidade de reconstruir uma equipe em crise. Tite vinha de um trabalho sólido de dois anos, havia chegado às quartas de final e manteve praticamente toda a estrutura que havia levado ao Mundial.

Fabinho apareceu como lateral-direito, mas a maior parte das novidades aconteceu durante o jogo. Arthur, Lucas Paquetá e Richarlison entraram no segundo tempo, enquanto Éverton Cebolinha também ganhou minutos. Em diferentes níveis, todos seriam peças relevantes da Seleção nos anos seguintes e foram campeões da Copa América de 2019, por exemplo.

O time titular era praticamente uma continuação da equipe da Copa, mas Tite utilizou a primeira oportunidade para acrescentar jogadores ao elenco controladamente. Foi o melhor exemplo de como equilibrar duas necessidades que frequentemente entram em conflito: às vezes, basta manter uma base confiável e introduzir jogadores que tenham características capazes de alterar a equipe.

A ‘temeridade' de Ramon pós-2022 é o grande alerta para Ancelotti

Se 2018 mostra o caminho mais equilibrado, o pós-2022 representa o maior alerta histórico para Ancelotti. Depois da eliminação para a Croácia no Catar, a CBF ainda não havia contratado um novo técnico. Ramon Menezes assumiu interinamente para enfrentar Marrocos, em março de 2023.

O resultado foi uma derrota por 2 a 1, mas o placar era irrisório. Ramon promoveu uma quantidade enorme de estreias e testes. Rony começou como titular, Rodrygo atuou centralizado, Andrey Santos, então com apenas 18 anos, foi titular, enquanto Emerson Royal, Ibañez e Alex Telles formaram parte da defesa. Vitor Roque e Arthur também entraram.

Ramon Menezes comandou o Brasil interinamente em 2023
Ramon Menezes comandou o Brasil interinamente em 2023 (Foto: SUSA / Icon Sport)

Era um time que parecia montado com duas intenções diferentes ao mesmo tempo: premiar jogadores que estavam se destacando no futebol brasileiro e dar experiência aos jovens que Ramon conhecia das categorias de base. O próprio treinador admitiu que a oportunidade de testar jogadores era importante, apesar da falta de entrosamento e de uma ideia clara.

Tudo isso criou histórias individuais interessantes, mas, olhando anos depois, é uma convocação quase irônica: nenhum dos nove estreantes daquela partida foi convocado para a Copa de 2026. Andrey ainda permaneceu no radar e participou da preparação, mas os demais desapareceram da disputa.

Agora, o Brasil de Ancelotti chega à Austrália repetindo vários elementos dessas histórias. Uma eliminação frustrante, a necessidade declarada de renovação e um grupo que mistura jogadores estabelecidos com atletas que ainda estão tentando descobrir até onde podem chegar. A lista tem, inclusive, uma característica muito específica: Ancelotti buscou parte da renovação onde o torcedor brasileiro está acostumado a procurá-la.

Breno Bidon, Gabriel Bontempo, Martinelli, Pedro Morisco, Matheuzinho e Arthur Dias são jogadores acompanhados semanalmente por quem assiste ao Brasileirão. Isso naturalmente produz entusiasmo, o que não é um problema. É uma das funções culturais da Seleção: apresentar jogadores ao país inteiro, transformar uma boa temporada em expectativa nacional e permitir que o torcedor imagine o que aquela geração pode fazer.

O perigo começa quando a convocação é confundida com consagração. Breno Bidon não precisa ser tratado como futuro titular da Seleção. Bontempo não precisa carregar a responsabilidade de ser o próximo grande meio-campista brasileiro porque recebeu uma oportunidade aos 21 anos. A convocação significa que Ancelotti identificou características que considera interessantes e quer observá-las de perto.

Foi exatamente assim com Daniel Carvalho, André, Jucilei, Rony e vários jogadores que tiveram seus minutos de fama na Seleção e depois descobriram que o nível exigido para permanecer ali era muito maior do que o necessário para ser chamado uma primeira vez.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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