Futebol brasileiro

Allan Simon: Futebol brasileiro não precisava se humilhar para defender casas de apostas

Você pode ser a favor ou contra o jogo legalizado, mas nota oficial dos clubes foi vergonhosa e rebaixou (mais uma vez) o produto dos nossos gramados

Ainda nem é oficial, mas a simples ideia de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva possa proibir de alguma maneira (total ou parcial) o funcionamento das casas de apostas online no Brasil já gerou um acontecimento lamentável para a história do nosso futebol: a nota na qual nossos clubes e entidades se humilham e se colocam no papel de reféns das bets.

Não é intenção deste texto discutir o mérito da questão que envolve as apostas, isso é tema para um Futebol em Contexto aqui na Trivela para Tim Vickery e eu debatermos mais profundamente o assunto, suas repercussões de saúde pública e financeira, bem como o peso delas no futebol atual. Portanto, quem veio aqui para destilar opiniões raivosas fica convidado a baixar as armas e refletir um pouco. 

Confira as colunas de Allan Simon na Trivela

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Quando os principais atores da modalidade adotam um tom “terrorista”, atrelando a proibição das casas de apostas ao “fim do futebol brasileiro”, o que se diz nas entrelinhas é que esse mesmo futebol é um esporte incapaz de aumentar receitas de outras formas. 

Quando a nota fala que os patrocínios de apostas ajudaram o futebol brasileiro a dominar as competições da Conmebol, esquece de todo um contexto que incluiu, a partir de 2017, a mudança do calendário da Libertadores, que passou a ser disputada ao longo de todo o ano – e não mais praticamente toda no primeiro semestre, o aumento nas vagas do Brasil, e também a chegada de dinheiro de fora na guerra pelos direitos de transmissão, que inclui hoje players como Disney, Amazon, Google, Warner, Paramount, entre outros, na era do streaming. O Brasileirão hoje vale R$ 3 bilhões por ano. A Copa do Brasil chega a R$ 1 bilhão em 2027. E cerca de metade do valor da Libertadores é pago pela mídia do Brasil.

É verdade que as casas de apostas também são importantes patrocinadoras de transmissões de futebol, e a mídia esportiva também poderá sofrer caso restrições sejam colocadas em prática. Mas o impacto da disparada dos valores dos direitos de TV das competições foi um agente extremamente importante também na criação desse abismo entre Brasil e os demais países do continente. 

O presidente da CBF, Samir Xaud
O presidente da CBF, Samir Xaud. Foto: IMAGO / Carneiro Images

Em 2026, só sobrou o Estudiantes para tentar evitar o oitavo título consecutivo do futebol brasileiro na Libertadores. Se o time argentino perder para o Flamengo na semifinal, além dessa marca de títulos seguidos para o Brasil desde 2019 ser aumentada, teremos ainda em um Flamengo jogando contra Fluminense ou Palmeiras a terceira final 100% nacional em sequência, a sexta nesses oito anos. Só River Plate, em 2019, e Boca Juniors, em 2023, conseguiram furar o domínio brasileiro nas semifinais.

Seria muito mais inteligente uma nota que demonstrasse preocupação com os destinos do futebol brasileiro, e não apenas o uso casuístico do risco à continuidade existencial dos times pequenos, lembrados apenas em discursos na pandemia (contra a paralisação do futebol enquanto o mundo vivia sua pior crise sanitária em um século) e no risco da proibição das bets. No resto do tempo, eles são considerados estorvos de calendário para os grandes, os “estaduais precisam acabar”, e por aí vai. 

Parece que o futebol brasileiro entendeu a possibilidade de uma medida provisória de Lula como uma jogada eleitoral para ganhar votos na reta final das eleições presidenciais no primeiro turno. Tanto que a resposta veio como uma lógica também eleitoral, destinada a jogar pressão das torcidas sobre o atual presidente petista. Não deu certo. 

É só olhar as caixas de comentários das notas oficiais postadas pelos clubes. As redes sociais, que não representam a totalidade da população, mas são usadas como ferramentas para pautar o debate e pressionar a política, indicaram uma reação contrária. Proliferam comentários contra as bets e criticando os clubes pela defesa apaixonada delas. 

O caminho deveria ser muito mais diplomático e equilibrado. Ao surtar, o futebol brasileiro passou a imagem de um refém das apostas para pagar as contas inflacionadas de suas administrações frequentemente ruins. A união pelas bets não é vista para criar uma liga, para melhorar gramados, para ajustar um calendário mais organizado, nem para pensar em formas de fomentar o futebol dos clubes menores. Isso passa uma imagem de oportunismo.

Nosso futebol de fato tem uma histórica rica de avanços com patrocínios. A Coca-Cola foi fundamental na Copa União em 1987, torneio cheio de defeitos, mas vital para acabar com o antigo Campeonato Nacional de Clubes que ainda tinha cheiro da ditadura militar com números absurdos de participantes e sem organização alguma.

Os anos 1990 trouxeram parcerias em contratações, como Parmalat no Palmeiras e Juventude, Banco Excel Econômico no Corinthians, Vitória e Botafogo, entre outros. A profusão dos bancos e da Caixa nos anos 2010. E, agora, as bets. Os clubes parecem achar toda vez que a atual maneira de se bancar é sempre a última. Mas sempre haverá uma próxima.  

Foto de Allan Simon

Allan SimonColaborador

Jornalista e criador de conteúdo. Canal de mídia esportiva no YouTube com +164 mil inscritos, e de história do futebol com +25 mil

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