Tim Vickery: A disputa ‘atletas locais x brasileiros na Europa’ tem diagnóstico errado na Seleção
Carlo Ancelotti deve usar primeira Data Fifa pós-Copa para testar nomes importantes do futebol brasileiro
Um novo ciclo para a seleção brasileira, com novos nomes. E, sem grandes surpresas, vários dos atletas da nova safra ainda jogam no Brasil. Desconfio que a palavra mais importante naquela última frase é “ainda” — mas, de qualquer maneira, a inclusão de jogadores “locais” é normalmente motivo para comemoração por aqui.
Lembro bem da coletiva de imprensa de 25 anos atrás, quando o técnico Leão anunciou uma nova era, com o time mostrando uma atitude diferente, porque quase todo mundo jogava no Brasil.
Confira as colunas de Tim Vickery na Trivela
Lembro bem dela, lembro bem da êxtase dos muitos jornalistas …. e lembro bem do desempenho pífio do time em campo. Ganhou atitude? Não sei. Perdeu qualidade? Sem dúvida.
O diagnóstico errado da seleção brasileira
A fila anda. O mundo de hoje não é o mundo de México 70 — que também não era o mundo da Copa de 30, quando os jogadores representando o Brasil eram amadores. E a lei do futebol profissional, feita explícita com as leis Bosman e Pelé, determina que o talento segue o dinheiro.
Sempre acho engraçado aqueles que confiram um tipo de superioridade moral naqueles jogadores que ficam no Brasil.
/https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2026%2F09%2Frayan-bournemouth-e1789678722231.jpg)
Se nós comentaristas emitimos uma opinião sobre um assunto, estamos tentando ensinar a torcida como torcer, ou ensinar um país como deveria jogar. Nada disso. Felizmente, não temos nem o poder nem a pretensão de fazer nada além de expressar uma opinião. Enquanto isso tem muitos na internet explicitamente se esforçando para ensinar um jogador em o que ele deveria fazer com a carreira dele, ou até barrar a possibilidade de ele ir para o exterior.
Não tenho dúvida que tem um problema com a saída precoce. Para alguns, funciona bem sair com 18 anos. Para muitos, atrapalha bastante. A idade poderia ser elevada para 20 ou 21? Pode. Mas quem somos nós para decretar que o jovem — que frequentemente cresceu sem grande ajuda do Estado brasileiro, seja impedido de dar sequência da sua profissão, ganhando mais e atuando com e contra os melhores do mundo? Não parece razoável.
Então, os projetos de craques brasileiros vão continuar migrando, enquanto talentos sul-americanos como De Arrascaeta e Arroyo vão continuar pintando no Brasil. Trata-se do mesmo mecanismo. E vamos falar o óbvio; nenhum brasileiro fica menos brasileiro trabalhando fora. Vou além; muitos daqueles que atuam fora são os melhores embaixadores que o país tem.
Mas, depois de mais uma frustração na Copa do Mundo, faz parte da reação querer voltar para o planeta de México 70. Jogar no Brasil passa a ser visto com uma virtude. Quem o faz ainda vive a essência do futebol brasileiro — embora esta se trata de um conceito bem difícil de definir. E aqueles que atuam fora, além de perder contato com tal “essência”, são taxados de “superestimados.”
Perda de essência brasileira ao jogar na Europa? Não
/https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2026%2F09%2Fgabriel-bontempo-santos-scaled-e1788984278400.jpg)
Só que aí tem uma briga com os fatos. Porque tem uma maneira fácil de ganhar uma grande torcida para uma convocação para a seleção brasileira — decepciona na Europa e volta rápido para o Brasil. Fazendo sucesso na volta, o jogador vai estar com muito mais holofote que o colega que ficou na Europa e triunfou num ambiente de elite. E também tem os casos dos veteranos voltando com valor contestado — como Hulk ou Filipe Luís — para finalmente ter o seu mérito reconhecido pelo público local.
O argumento de “abandonou o futebol romântico do Brasil para jogar no futebol pragmático da Europa” somente se sustenta se você não se dá ao trabalho de assistir aos jogos.
/https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2026%2F09%2Ffluminense-martinelli.jpg)
Quando o novo elenco de Ancelotti foi anunciado, gravei um vídeo falando sobre. Nos comentários, várias críticas para os “superestimados” jogadores de fora. Aquele que mais entrega o jogo veio de um argentino, que comentou que “nós na América do Sul temos a tendência de superestimar quem joga na Europa, um grande equívoco.”
Ignora o básico — que os jogadores que atuam na Argentina nem são capazes de ganhar a Libertadores, enquanto o elenco “estrangeiro” conquistou o mundo. Podemos concluir, então, que a gente está lidando com um nacionalismo ressentido, e não com qualquer tipo de análise séria.