Futebol brasileiro

Tim Vickery: A disputa ‘atletas locais x brasileiros na Europa’ tem diagnóstico errado na Seleção

Carlo Ancelotti deve usar primeira Data Fifa pós-Copa para testar nomes importantes do futebol brasileiro

Um novo ciclo para a seleção brasileira, com novos nomes. E, sem grandes surpresas, vários dos atletas da nova safra ainda jogam no Brasil. Desconfio que a palavra mais importante naquela última frase é “ainda” — mas, de qualquer maneira, a inclusão de jogadores “locais” é normalmente motivo para comemoração por aqui.

Lembro bem da coletiva de imprensa de 25 anos atrás, quando o técnico Leão anunciou uma nova era, com o time mostrando uma atitude diferente, porque quase todo mundo jogava no Brasil.

Confira as colunas de Tim Vickery na Trivela

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Lembro bem dela, lembro bem da êxtase dos muitos jornalistas …. e lembro bem do desempenho pífio do time em campo. Ganhou atitude? Não sei. Perdeu qualidade? Sem dúvida.

O diagnóstico errado da seleção brasileira

A fila anda. O mundo de hoje não é o mundo de México 70 — que também não era o mundo da Copa de 30, quando os jogadores representando o Brasil eram amadores. E a lei do futebol profissional, feita explícita com as leis Bosman e Pelé, determina que o talento segue o dinheiro.

Sempre acho engraçado aqueles que confiram um tipo de superioridade moral naqueles jogadores que ficam no Brasil.

Rayan deixou sua marca na vitória do Bournemouth sobre a Real Sociedad
Rayan deixou sua marca na vitória do Bournemouth sobre a Real Sociedad (Foto: Mickael Ducint / Ball Raw Images / IMAGO)

Se nós comentaristas emitimos uma opinião sobre um assunto, estamos tentando ensinar a torcida como torcer, ou ensinar um país como deveria jogar. Nada disso. Felizmente, não temos nem o poder nem a pretensão de fazer nada além de expressar uma opinião. Enquanto isso tem muitos na internet explicitamente se esforçando para ensinar um jogador em o que ele deveria fazer com a carreira dele, ou até barrar a possibilidade de ele ir para o exterior.

Não tenho dúvida que tem um problema com a saída precoce. Para alguns, funciona bem sair com 18 anos. Para muitos, atrapalha bastante. A idade poderia ser elevada para 20 ou 21? Pode. Mas quem somos nós para decretar que o jovem — que frequentemente cresceu sem grande ajuda do Estado brasileiro, seja impedido de dar sequência da sua profissão, ganhando mais e atuando com e contra os melhores do mundo? Não parece razoável.

Então, os projetos de craques brasileiros vão continuar migrando, enquanto talentos sul-americanos como De Arrascaeta e Arroyo vão continuar pintando no Brasil. Trata-se do mesmo mecanismo. E vamos falar o óbvio; nenhum brasileiro fica menos brasileiro trabalhando fora. Vou além; muitos daqueles que atuam fora são os melhores embaixadores que o país tem.

Mas, depois de mais uma frustração na Copa do Mundo, faz parte da reação querer voltar para o planeta de México 70. Jogar no Brasil passa a ser visto com uma virtude. Quem o faz ainda vive a essência do futebol brasileiro — embora esta se trata de um conceito bem difícil de definir. E aqueles que atuam fora, além de perder contato com tal “essência”, são taxados de “superestimados.”

Perda de essência brasileira ao jogar na Europa? Não

Gabriel Bontempo, meia do Santos (Foto: IMAGO / Rainier Moura)
Gabriel Bontempo, meia do Santos (Foto: IMAGO / Rainier Moura)

Só que aí tem uma briga com os fatos. Porque tem uma maneira fácil de ganhar uma grande torcida para uma convocação para a seleção brasileira — decepciona na Europa e volta rápido para o Brasil. Fazendo sucesso na volta, o jogador vai estar com muito mais holofote que o colega que ficou na Europa e triunfou num ambiente de elite. E também tem os casos dos veteranos voltando com valor contestado — como Hulk ou Filipe Luís — para finalmente ter o seu mérito reconhecido pelo público local.

O argumento de “abandonou o futebol romântico do Brasil para jogar no futebol pragmático da Europa” somente se sustenta se você não se dá ao trabalho de assistir aos jogos.

Martinelli, meio-campista do Fluminense
Martinelli, meio-campista do Fluminense (Foto: Pelaez Burga/DiaEsportivo via Imago)

Quando o novo elenco de Ancelotti foi anunciado, gravei um vídeo falando sobre. Nos comentários, várias críticas para os “superestimados” jogadores de fora. Aquele que mais entrega o jogo veio de um argentino, que comentou que “nós na América do Sul temos a tendência de superestimar quem joga na Europa, um grande equívoco.” 

Ignora o básico — que os jogadores que atuam na Argentina nem são capazes de ganhar a Libertadores, enquanto o elenco “estrangeiro” conquistou o mundo. Podemos concluir, então, que a gente está lidando com um nacionalismo ressentido, e não com qualquer tipo de análise séria.

Foto de Tim Vickery

Tim VickeryColaborador

Tim Vickery cobre futebol sul-americano para a BBC e a revista World Soccer desde 1997, além de escrever para a ESPN inglesa e aparecer semanalmente no programa Redação SporTV. Foi declarado Mestre de Jornalismo pela Comunique-se e, de vez em quando, fica olhando para o prêmio na tentativa de esquecer os últimos anos do Tottenham Hotspur

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