Bundesliga

Urs Fischer escreveu um conto de fadas no Union Berlim, mas, diante do caos, era hora de virar a página

Urs Fischer dirigiu o Union Berlim em cinco anos inesquecíveis, da segunda divisão à Champions League, mas a sequência de péssimos resultados nos últimos meses levou técnico e diretoria a optarem pela saída em comum acordo

Urs Fischer conseguiu fazer na vida real aquilo que todo jogador de Football Manager sonha: levou um clube tradicional das agruras na segunda divisão ao sonho da Champions League. E a epopeia à frente do Union Berlim tinha mais cores. Não era uma equipe qualquer que o suíço conseguiu resgatar, afinal. Os Eisernen tinham disputado a primeira divisão pela última vez nos tempos de Alemanha Oriental. O treinador foi quem fez os alvirrubros realmente romperem o Muro de Berlim, rumo à Bundesliga. Tal façanha valorizava uma torcida apaixonada, das mais engajadas inclusive para salvar o time da bancarrota anos antes. Pois a escalada não ficaria só no acesso inédito. A permanência na elite foi seguida pela classificação à Conference League, depois com a passagem à Liga Europa, até render finalmente a Champions. Contudo, a vida real é mais dura que o FM. A queda dos últimos meses se tornou abrupta. Numa situação sem muito para onde correr, Urs Fischer deixou o Union Berlim nesta quarta, depois de cinco anos no An der Alten Försterei. Outro técnico tentará resgatar os Eisernen na lanterna.

É fato que o trabalho de Urs Fischer foi memorável. O que o Union conseguiu desde a promoção em 2018/19 parece mais um enredo de filme. De tão amado, virou até tema de mosaico nas arquibancadas. No entanto, uma hora é preciso reconhecer quando as coisas não estão dando mais certo. E também está escancarado como os Eisernen se atolaram na lama. O sonho da Champions virou uma sequência de decepções, com só um ponto conquistado nas quatro primeiras rodadas, além de duas dolorosas derrotas sofridas no apagar das luzes. Já na Bundesliga, o time que parecia empolgado nas duas primeiras rodadas, desde então, não ganhou mais nenhum de seus últimos nove compromissos pelo campeonato. Neste intervalo, são 24 gols sofridos e apenas três anotados pela liga. O Union é o lanterna sem desculpas e a tentativa de reação é a troca de treinador. Mesmo que doa um bocado dispensar aquele que proporcionou tamanha ascensão.

Segundo o comunicado oficial, Urs Fischer deixou o Union Berlim em comum acordo com a diretoria. Os Eisernen pareciam aproveitar bem a projeção das últimas temporadas e a estreia na Champions, com um mercado de transferências bastante interessante. A renovação do elenco foi uma constante nesse ciclo de cinco temporadas com o treinador e a frente continental promovia uma política até mais agressiva de reforços. Contudo, o trem descarrilou. Muitos dos novatos sugeriam um estilo de jogo mais ofensivo. Nessa transformação, o Union perdeu sua fortaleza na zaga e o esquema tático também não funciona para o ataque, tantas vezes dependente das individualidades – quando muito. Além disso, a gestão de elenco ruiu, com mostras de vaidade visíveis. Sem que Fischer conseguisse apresentar uma solução, os berlinenses vão atrás de ideias novas. Foi o melhor técnico da Bundesliga 2022/23, mas sua demissão parecia mesmo inescapável com a última colocação em 2023/24.

O pesar nas palavras

Mesmo com a demissão de Urs Fischer, o respeito ainda imperou na relação de ambas as partes. O Union Berlim deixou claro em sua nota oficial que mesmo os contos de fadas mais incríveis acabam uma hora. A história, ao menos, não se apagará. E essa consideração se via mesmo nas arquibancadas, pela forma como a torcida continuou no apoio mesmo diante de tantos resultados ruins – o que aconteceu notadamente, por exemplo, com os cânticos após a derrota para o Napoli na Champions League.

Presidente do Union, Dirk Zingler declarou: “Eu recentemente deixei claro que Urs Fischer é um excelente treinador e continuo absolutamente convencido disso. Sua personalidade e seu trabalho bem sucedido caracterizaram nosso clube nos anos recentes e abriram várias novas oportunidades para nós. Nos últimos cinco anos e meio em que trabalhamos juntos, desenvolvemos um respeito e uma confiança entre nós, que nos permitiu sempre trocar ideias de forma aberta e honesta. Juntos, chegamos agora à conclusão que era o momento de seguir por um caminho diferente”.

“Este é um momento muito triste não só para mim, pessoalmente, mas certamente para toda a família do Union. Dói não termos conseguido romper a sequência negativa das últimas semanas. Sou grato e orgulhoso quando olho para trás, pelo tempo que passamos juntos e pelos sucessos que celebramos. Por mais dolorosa que seja essa separação, Urs Fischer sai como um amigo que sempre será recebido aqui de braços abertos”, complementou o dirigente.

Urs Fischer também se demonstrou bastante sereno em admitir o fim: “As últimas semanas custaram demais as nossas forças. Tentamos muito e o time se esforçou bastante, mas isso não se pagou em termos de resultados. Sou grato pela confiança que sempre senti aqui. No entanto, parece certo fazer essa mudanças agora. Algumas vezes, um rosto diferente e uma maneira distinta de lidar com o time ajuda a desatar o desenvolvimento”.

“Preciso reconhecer como o Union é um clube excepcional. Meus agradecimentos vão para os jogadores com quem pude trabalhar, a Markus Hoffmann e minha comissão técnica, à administração do clube e aos funcionários, bem como aos torcedores. Sou muito sortudo de ter vivenciado esse apoio extremamente positivo. Desejo tudo de melhor ao Union e estou convencido que o clube conseguirá permanecer na primeira divisão”, finalizou o treinador. Apesar da péssima campanha, o Union está a um ponto da zona dos playoffs de rebaixamento e a dois de sair do Z-3.

Os méritos de Urs Fischer

Urs Fischer, do Union Berlim (Foto: UWE KRAFT/AFP via Getty Images/One Football)

Urs Fischer era um treinador bastante experiente quando assumiu o Union Berlim, mas com seus trabalhos restritos ao futebol suíço. Começou na base do Zurique e assumiu a equipe principal, antes de ter bons desempenhos no modesto Thun. Ganhou a chance de dirigir o Basel e conquistou duas vezes o título nacional, já no fim do período hegemônico dos Rot-Blau que rendeu oito taças consecutivas. Em 2018/19, o Union Berlim abriu as portas para Fischer na Alemanha. Assumiria um time de segunda divisão, mas que rondara o acesso inédito à Bundesliga algumas vezes, mesmo que faltasse um gás no final.

O milagre de Urs Fischer no Union Berlim começa logo em 2018/19, com a promoção à primeira divisão. Os Eisernen não conseguiram o acesso direto, mas ficaram com a vaga nos playoffs e prevaleceram contra o Stuttgart graças aos gols fora. Os berlinenses, enfim, voltavam a ser um clube de primeira divisão – como ocorrera antes da Segunda Guerra Mundial e depois da divisão da Alemanha Oriental. E se era natural imaginar o Union como um candidato ao rebaixamento imediato em 2019/20, a equipe fincou o pé com uma excelente campanha no 11° lugar. Nem mesmo as dificuldades provocadas pela pandemia, com o fechamento das arquibancadas no alçapão do An der Alten Försterei, não atrapalharam o desempenho. E então veio o crescimento.

O Union cresceu degrau após degrau na Bundesliga desde então. A sétima colocação em 2020/21 foi excelente, porque rendeu a vaga na Conference League e recolocou o time numa competição europeia depois de duas décadas. Depois, a quinta colocação em 2021/22 soou ainda melhor, com a Liga Europa no bolso e ambições concretas de buscar a Champions. Por fim, o quarto lugar de 2022/23 foi gigantesco. O Union virava um time de Champions numa temporada em que frequentou a liderança durante o primeiro turno. E isso sem deixar a peteca cair na Liga Europa, com uma campanha bastante digna, em que eliminou o Ajax e só caiu nas oitavas.

Ao longo desse tempo, Urs Fischer pareceu se casar perfeitamente com a personalidade ao redor do Union Berlim. Era um treinador sereno e sensível nas suas colocações, bastante próximo dos jogadores, que se encaixou num clube tão arraigado em sua comunidade. A gestão do grupo era exatamente um dos seus pontos fortes, até porque o Union não deixou de contratar à medida que permanecia na primeira divisão. A abertura com os atletas não necessariamente o tornava superprotetor: na hora em que precisava sacar um medalhão ou trocar peças por conta do rendimento, isso aconteceu.

Já em campo, Urs Fischer teve uma linha de trabalho bastante consistente no Union Berlim. Não era o treinador mais inventivo e nem o time mais vistoso de se ver, mas os Eisernen primavam pela ideia clara de jogo. A defesa sólida e a força pelo alto, sobretudo nas bolas paradas, garantiram muitos pontos aos berlinenses. À medida que um jogador ou outro chegava, o Union ganhava recursos diferentes dentro das partidas, mas sem abandonar sua mentalidade coletiva e o encaixe dos diferentes setores. Com o passar do tempo, virou um quadro mais veloz nas transições e com pressão mais alta sem a bola, além de variações táticas. Era até impressionante a maneira como isso se fortalecia, mesmo com os mercados bastante movimentados no An der Alten Försterei. Até que tudo desabasse em 2023/24.

A explosão do caos

Leonardo Bonucci, do Union Berlim (Icon Sport)

A presença na Champions League tornou o Union bastante atrativo na janela de transferências. Era um time da parte de cima da tabela na Bundesliga e que começava a bater cartão nas copas europeias. Oferecia um excelente ambiente no estádio, bem como as boas condições técnicas da Bundesliga. Morar em Berlim, além do mais, virou um diferencial para atrair muita gente. Tanto é que, no último verão, os Eisernen buscaram figuras além de suas possibilidades até pouco tempo. Robin Gosens e Kevin Volland desembarcaram como jogadores de seleção. Outras promessas como David Datro Fofana e Brenden Aaronson vinham para se desenvolver na equipe. Deu até para contratar um multicampeão como Leonardo Bonucci para o último ano de sua carreira.

A pré-temporada do Union Berlim empolgou. O time fez algumas grandes partidas, em especial pela força ofensiva que demonstrava. Chegou até a golear a Atalanta, no último compromisso antes da estreia na Copa da Alemanha. Já o início das competições guardaram atuações arrasadoras dos Eisernen. O time encheu os olhos ao fazer 4 a 1 no Mainz 05 e também no Darmstadt. Um novo jeito de jogar parecia se impulsionar, com características diferentes para ambições maiores. Se um dos entraves do Union em 2022/23 era justamente ser mais agressivo para desamarrar partidas contra adversários menores e mais fechados na defesa, isso parecia mudar com o vigor do ataque.

O problema é que, quando começou a pegar adversários mais qualificados, o Union Berlim não conseguiu jogar de igual, abandonando sua velha identidade. Tomou um chocolate do RB Leipzig e depois também perdeu para o Wolfsburg. Já a estreia na Champions seria inesquecível, contra o Real Madrid em pleno Bernabéu. Os Eisernen voltaram a fazer seu jogo correto na defesa e seguraram o placar zerado até os acréscimos do segundo tempo. O gol tardio de Jude Bellingham, para o 1 a 0 no apagar das luzes, caiu como um castigo sobre os alemães. E os efeitos das derrotas consecutivas se ampliavam, quando o time sucumbiu ao Hoffenheim e até ao recém-promovido Heidenheim, antes de outro duro golpe na Champions. No jogaço com o Braga no Estádio Olímpico, os português reverteram o 2 a 0 e riram por último nos 3 a 2 de virada, com o gol decisivo outra vez no final.

Já nas últimas partidas, o Union Berlim foi o típico time que se perde nos seus erros e gira em círculos em busca de uma solução. Não era mais o quadro ofensivo que se prometia no início da temporada, mas também não encontrava mais a consistência de outros anos. Perdeu para Borussia Dortmund, Stuttgart, Napoli, Werder Bremen. Caiu para o Stuttgart na Copa da Alemanha e perdeu de novo na Bundesliga para o Eintracht Frankfurt, com 12 derrotas consecutivas por todas as competições. Se o empate na visita ao Napoli pelo menos interrompeu as pancadas, não melhorou o ambiente. E a derrota para o Bayer Leverkusen no último final de semana foi a gota d’água.

O resultado na BayArena nem foi exatamente uma surpresa. Era de se esperar que o Leverkusen, líder da Bundesliga e um dos melhores times da Europa na atualidade, goleasse o Union Berlim. Pela diferença de momento dos clubes, os 4 a 0 na contagem ficaram até baratos. E também escancaravam como os Eisernen perderam o caráter das temporadas passadas. Os gols na bola parada que o time tomou, definitivamente, não aconteceriam em outros tempos. A desatenção e o desencaixe preponderavam. Não há o mesmo foco dos outros tempos e nem a mesma pegada nas disputas. A lanterna no campeonato, com apenas seis pontos em 13 rodadas, é um reflexo. Urs Fischer optou por sair, numa situação em que o treinador não encontrou um caminho.

O que se vê no horizonte

Onde assistir Napoli x Union Berlim

Obviamente, há uma parcela considerável de responsabilidade do treinador na derrocada do Union Berlim. O próprio Urs Fischer declarou que um novo rosto será bem-vindo. Porém, não dá para eximir os jogadores disso. Especialmente porque os egos parecem bastante aflorados no An der Alten Försterei. O maior exemplo público disso aconteceu na Champions, quando David Datro Fofana se recusou a cumprimentar Fischer ao ser substituído contra o Napoli, durante a derrota no Olímpico. A gestão do elenco, com muitos jogadores capacitados a brigar pela titularidade, pareceu se transformar num problema.

O Union ainda tem time para dar a volta por cima na Bundesliga, até porque mesmo a repescagem para a Liga Europa via Champions parece difícil. A missão neste momento é sobreviver na primeira divisão. Alguns jogadores ainda entregam um desempenho razoável mesmo com a crise, como o lateral Robin Gosens ou o meio-campista Aïssa Laïdouni. Mesmo os atacantes Kevin Behrens e Sheraldo Becker tiveram suas grandes partidas. O ponto é que o aspecto individual tem servido pouquíssimo e o coletivo desmontou. A defesa não se sustenta e o ataque se limita a lampejos. A principal missão do novo comandante será reencontrar esse equilíbrio, que por tanto tempo foi o principal mérito de Urs Fischer. Hoje, a impressão é de que o elenco também não está tão bem servindo em certos setores.

O Union Berlim terá mais cinco partidas pela frente na Bundesliga até a pausa de inverno. O Bayern de Munique é o único adversário realmente duro, dentro de duas semanas. Todos os outros aparecem do meio para baixo na classificação, inclusive alguns concorrentes contra o rebaixamento: Augsburg, Borussia Mönchengladbach, Bochum e Colônia. É o momento de tentar corresponder, enquanto os Eisernen ainda tentarão encerrar a Champions com alguma honra diante de Braga e Real Madrid. No entanto, se todas as três derrotas no torneio continental foram apertadas, na Bundesliga a defesa virou uma água, e nem é que o ataque compense. A equipe passou em branco, sem balançar as redes, em sete das últimas nove partidas do campeonato.

Por enquanto, o Union Berlim será treinado por Marco Grote, comandante do time sub-19. Também foi promovida a assistente Marie-Louise Eta. Entretanto, até pelo peso do elenco que foi montado, a expectativa é de que um treinador mais cascudo chegue. Resta saber se a direção dos Eisernen acertará tanto a mão quanto foi com Urs Fischer. Durante cinco anos, o suíço pareceu o nome perfeito para escrever aquele conto de fadas. Quando as feridas cicatrizarem, será um ídolo para ser aplaudido a cada visita ao An der Alten Försterei. Mas, por enquanto, os berlinenses têm preocupações mais urgentes. Se cair não seria uma surpresa há quatro temporadas, desta vez o temor é natural, pelo risco de presenciar uma derrocada tão rápida quanto a ascensão, mesmo com bases firmes estabelecidas nesta escalada recente.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
Botão Voltar ao topo