Bundesliga

Os acertos do Union Berlim para elevar ainda mais seu sarrafo e fazer uma das campanhas mais incríveis da temporada europeia

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Quando o Union Berlim ainda estava na segunda divisão da Bundesliga, rondando o acesso inédito, alguns torcedores permaneciam reticentes sobre as perspectivas. Temiam que a ascensão forçasse os Eisernen a um novo tipo de realidade e, assim, o time perdesse muito de sua essência. Durante as últimas décadas, afinal, o Union foi um clube que existiu por sua torcida, em que o futebol servia mais de pretexto para o ambiente vivido no Estádio An der Alten Försterei do que para grandes ambições esportivas. O salto à elite, no fim das contas, não afastou os berlinenses de sua gente. E, em sua segunda temporada lutando entre os melhores clubes alemães, o Union dá exemplo de como manter suas raízes ao mesmo tempo em que realiza um excelente trabalho dentro de campo. Há uma entrega em comum, além de um espírito inesgotável a cada compromisso, que permite aos pequeninos sonharem com a Champions League.

A grande história ao redor do Union Berlim em seu primeiro ano na Bundesliga ainda foi sua torcida, mesmo que quase metade da temporada tenha sido disputada diante de arquibancadas vazias. Os Eisernen realizaram campanhas bem bacanas para reforçar seus laços com a comunidade e permitir que os torcedores aproveitassem mais a jornada na primeira divisão. Um grande exemplo disso ocorreu logo na primeira rodada, quando o clube lançou uma ação para que os torcedores levassem imagens de entes falecidos ao estádio, representando aqueles que não puderam assistir à estreia do time na primeira divisão. A mesma ocasião seria marcada por protestos diante do RB Leipzig, contrapondo o modelo comercial que desagrada os berlinenses.

Durante esta primeira temporada na Bundesliga, o Union Berlim fez do Estádio An der Alten Försterei sua grande fortaleza. O estádio recebeu algumas partidas inesquecíveis do time dirigido por Urs Fischer. Em seus domínios, o clube da capital derrotou Borussia Dortmund e Borussia Mönchengladbach, assim como desbancou o Hertha Berlim no clássico do primeiro turno. Dos 41 pontos somados pelos Eisernen na Bundesliga 2019/20, 27 foram contabilizados em casa. Mas se a pandemia já significava perdas de receitas fundamentais, especialmente a uma agremiação de proporções mais modestas, ela também culminou numa queda de rendimento durante a reta final do campeonato. Algo natural, diante do caldeirão vazio em Köpenick.

Antes que a atual temporada começasse, o Union Berlim tentou liderar uma campanha para que os portões reabrissem na Bundesliga. O clube idealizou seu próprio protocolo, com o controle mais estrito dos torcedores que frequentariam o Estádio An der Alten Försterei. O plano não foi para frente, mas os Eisernen conseguiram se manter bem, dentro de suas limitações. A comunidade de torcedores abraçou campanhas para apoiar o clube e ajudar a sustentar as receitas. E o salto viria na maneira inteligente como se geriu o departamento de futebol, visando os desafios do segundo ano na primeira divisão.

O Union Berlim não seria mais uma novidade na atual campanha da Bundesliga. O clube naturalmente acabaria mais visado pelos adversários, com seu padrão de jogo mais conhecido. Além disso, o rendimento acima das expectativas em 2019/20 custou a saída de dois protagonistas – o goleiro Rafal Gikiewicz e o atacante Sebastian Andersson. Os Eisernen precisariam encontrar um novo caminho se quisessem uma estadia tranquila na elite, quando os adversários estariam muito mais cientes de suas forças. Conseguiram, com um primeiro turno até o momento irretocável.

Fez a diferença para o Union Berlim contar com um treinador de ótimo nível. Urs Fischer está no clube desde o acesso na segunda divisão, mas é um técnico com vasta experiência e currículo respeitável. Antes de chegar a Köpenick, o suíço dirigiu clubes importantes de seu país e foi bicampeão nacional à frente do Basel. Chegou a trabalhar na Champions League e alcançou as oitavas de final da Liga Europa. Seria ele o responsável por aprimorar o jogo dos Eisernen. O Union mantém algumas de suas bases, como o fortíssimo jogo aéreo e a defesa bem montada. Porém, na atual campanha, é uma equipe que depende menos das bolas espetadas a um centroavante grandalhão e que conta muito mais com a velocidade para punir os adversários. A marcação por vezes também se adianta na pressão, transformando os berlinenses numa equipe mais agressiva. Não à toa, o clube conta com o segundo melhor ataque da liga, enquanto a defesa é a quarta menos vazada de todo o campeonato. O pragmatismo não se perdeu, mas dá mais gosto de ver o futebol rápido e impiedoso do Union.

Para moldar esse novo Union Berlim, Urs Fischer precisou de peças diferentes. E a janela de transferências foi bem aproveitada pelo diretor esportivo Oliver Ruhnert, num dos mercados mais intensos da Alemanha. Não que os berlinenses tenham gastado muito, investindo seus recursos mais em salários do que nos próprios negócios. A agremiação desembolsou em compras apenas €1,5 milhão, que valeu para assegurar a permanência do ponta Marius Bülter – que nem titular absoluto é. Contudo, os Eisernen observaram muito bem as oportunidades e trouxeram outros 11 atletas sem custos, cinco deles por empréstimo. Deu até para fazer lucro, com as saídas de Gikiewicz e Andersson.

O nome mais midiático é o de Loris Karius, mas o goleiro emprestado pelo Liverpool só atuou uma vez, na eliminação diante do Paderborn pela Copa da Alemanha. Muito mais importante é Taiwo Awoniyi, igualmente cedido pelos Reds. O atacante de 23 anos talvez não seja aproveitado em Anfield, mas se transformou em uma das principais peças ofensivas do Union. Muito veloz e forte fisicamente, não serve exatamente para prender a bola na frente como Sebastian Andersson fazia. Em compensação, é um tormento no mano a mano e algumas das maiores vitórias dos Eisernen passaram pelos seus pés. O nigeriano descobriu um grande parceiro em Sheraldo Becker, outra opção de velocidade que estava no clube e tem ganhado mais espaço no atual campeonato.

Mais um novato que faz a diferença para o Union Berlim é o zagueiro Robin Knoche. Formado pelo Wolfsburg, o defensor teve bons momentos na Volkswagen Arena, mas não parecia preencher por completo seu potencial de anos atrás. Saiu de graça para a capital e virou um esteio no sistema defensivo, formando uma excelente parceria com Marvin Friedrich – este, essencial à engrenagem desde a segundona. É um miolo de zaga com ótima estatura, mas que possui sua qualidade para iniciar as transições velozes dos Eisernen. Protegem bem o goleiro Andreas Luthe, seguro em sua meta, mesmo que não seja tão decisivo quanto Gikiewicz durante a passagem do polonês por Berlim Oriental.

De qualquer maneira, o grande acerto do Union Berlim foi com Max Kruse. Os Eisernen contrataram um dos melhores atacantes da Bundesliga nos últimos anos sem custos. Vários fatores auxiliaram no negócio, como o rompimento de contrato com o Fenerbahçe por atraso salarial e a própria vontade do veterano em morar na capital – ou mesmo seu histórico de indisciplina, que gerava desconfianças. Ainda assim, ao trazer um jogador do calibre de Kruse, os Eisernen demonstram um projeto mais amplo. E ganharam uma liderança óbvia dentro de campo, além de um medalhão para resolver partidas, que logo conquistou a torcida.

Em dez partidas pela Bundesliga, Kruse soma seis gols e cinco assistências, auxiliando bastante a arrancada do time até novembro. O camisa 10 é um diferencial técnico por seu estilo de jogo, atuando atrás do homem de referência e ditando os avanços. Acaba se tornando um imã por seu talento e criando um bom número de ocasiões. Sua ausência recente por lesão foi um temor ao Union, considerando as repetidas vezes em que ele desequilibrou os jogos. Ainda assim, o time se vira bem apostando mais na aceleração ofensiva e terá um plus quando o veterano retornar. Há alternativas.

Uma das chaves ao Union Berlim na atual campanha, inclusive, são suas variações táticas. Isso já tinha ficado evidente em 2019/20, especialmente com as adaptações defensivas realizadas por Urs Fischer, entre um sistema com três zagueiros ou com duas linhas de quatro. Desta vez, até pelo elenco mais recheado do meio para frente (com as chegadas de outros nomes, como Joel Pohjanpalo e Cedric Teuchert), os Eisernen conseguem diferentes encaixes. Podem atuar com dois atacantes, com um armador centralizando a organização, com laterais bastante soltos no apoio, com pontas velozes. Já atrás, contra os adversários mais duros, os berlinenses não apelam necessariamente ao ferrolho com cinco defensores e ganham mobilidade por suas escolhas. Foram oito sistemas diferentes adotados nestas 16 rodadas, com preferência maior ao 4-2-3-1.

Coletivamente, o Union Berlim não é uma equipe que se pauta no volume de jogo. É a terceira que menos preserva a bola nesta Bundesliga. Em compensação, possui um ataque que arrisca bastante quando avança e que possui um bom aproveitamento de suas chances, combinando precisão e técnica. Faz a diferença a qualidade na bola parada, como o time que mais produz gols desta maneira no campeonato – incluindo excelente papel dos laterais Christopher Trimmel e Christopher Lenz nos cruzamentos, algo notório durante os últimos anos. Além disso, defensivamente, os Eisernen costumam conceder poucas chances aos adversários. Luthe não é muito exigido porque sua defesa não é permissiva. Os homens de linha costumam ser muito empenhados em seu trabalho tático e com excepcional preparo físico para manter o alto ritmo até os últimos minutos. Grischa Prömel e Robert Andrich servem como principais motores na cabeça de área.

Como resultado, o Union Berlim sofreu apenas duas derrotas nesta Bundesliga. O excesso de empates pode conter um pouco o nível de desempenho, mas os berlinenses só sucumbiram duas vezes na atual campanha: na estreia diante do Augsburg e no clássico contra o Hertha Berlim. O melhor exemplo do alto rendimento vem justamente contra os times da parte superior da tabela. Os Eisernen não perderam um jogo sequer contra os clubes presentes nas copas europeias nesta temporada. Venceram Borussia Dortmund, Bayer Leverkusen e Hoffenheim, além de terem segurado empates diante de Bayern de Munique, Borussia Mönchengladbach e Wolfsburg. O triunfo sobre o Leverkusen na última rodada, numa atuação muito mais eficiente que brilhante, serve de exemplo.

Assim, o Union Berlim não só passa longe do rebaixamento e supera a campanha passada, como também sonha com a classificação às copas europeias. O feito não seria inédito, com o time presente na Copa da Uefa de 2001/02 após ser vice-campeão da Copa da Alemanha. Entretanto, a atual perspectiva aponta a um crescimento sustentado. Não será fácil se manter na briga contra adversários mais ricos e experientes. Entretanto, os Eisernen se mostram mais competitivos e equilibrados. Prova disso está no rendimento tanto fora quanto em casa. Embora o Estádio An der Alten Försterei garanta a maior parte dos pontos do time, o desempenho como visitante praticamente se equipara neste primeiro turno.

A última rodada desta metade inicial da campanha, aliás, será emblemática: o Union Berlim se reencontra com o RB Leipzig, adversário em seu primeiro compromisso na elite. A esta altura, parece muito difícil que o time de Julian Nagelsmann repita os 4 a 0 daquela ocasião, mesmo jogando agora na Red Bull Arena. Todos os oponentes conhecem o potencial dos Eisernen, e isso não representa um estilo manjado ou facilidades para desmontar os berlinenses. Pelo contrário, nos últimos tempos inspira muito mais respeito, ao encarar uma equipe que nunca desiste e que possui suas armas para peitar mesmo os times mais estrelados. Dá para apostar em uma jornada dura aos Touros Vermelhos.

Caso a classificação à Champions ou à Liga Europa venha, é difícil imaginar que o Union Berlim quebre suas contas por causa disso. O calendário recheado exigirá mais do elenco, mas os Eisernen dão exemplo pela maneira como mantêm os pés no chão e trabalham dentro de suas possibilidades. A atual subida de produção é uma mostra, com um grupo montado de maneira inteligente e escolhas importantes às lideranças. Fica um pouco mais difícil de imaginar uma continuidade no topo da tabela, mas o equilíbrio costumeiro da Bundesliga não torna isso impossível. Além do mais, o ambiente e a preservação de suas raízes não deixarão de ser um diferencial ao Union.

Se o futebol acaba em foco diante dos portões fechados, este parece ser um trabalho pronto a premiar a torcida, com a palpável presença na Europa quando o An der Alten Försterei puder ser reaberto. Tal avanço também permite ao Union mirar melhorias em sua própria estrutura, como a ampliação do estádio em 15 mil lugares, o que acolheria mais gente e permitiria um peso ainda maior aos torcedores. Os berlinenses dão uma lição de como extrapolar seus horizontes em campo, sem se desligar de sua origem e sem perder a mão daquilo que o clube representa. A união em campo também faz isso se notar.

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O caso de discriminação na rodada passada

É importante pontuar, também, que o Union Berlim protagonizou um inadmissível episódio de xenofobia durante a vitória sobre o Bayer Leverkusen. Nadiem Amiri acusou o defensor Florian Hübner de chamá-lo de “afegão de merda”. Apesar da postura do diretor Oliver Ruhnert em negar o ocorrido, dizendo que a esposa do atleta “não é branca” e passando o pano como a maioria do futebol faz diante desse tipo de denúncia, os demais membros dos Eisernen tomaram as posições devidas. O técnico Urs Fischer disse que “não há lugar no futebol para essas atitudes, que precisam ser investigadas”. Além disso, o próprio Hübner admitiu o erro.

Segundo o Leverkusen, o defensor foi até os vestiários conversar com Amiri e se desculpar. “Palavras feias foram proferidas por causa das emoções do jogo, as quais ele lamentou muito. Ele me deu uma garantia crível disso, portanto o assunto está resolvido para mim”, contou o meia dos Aspirinas. Oficialmente, o Union Berlim republicou as desculpas, disse aguardar a investigação da federação e reafirmou sua posição contra o racismo.

O reconhecimento da culpa não exime Hübner de ser punido, como deveria acontecer em qualquer caso de racismo. Porém, a admissão do erro aponta a uma direção em prol da reeducação e da conscientização. Se tal mudança de atitude partir dos próprios acusados, sem eximi-los da necessária responsabilidade, o exemplo à sociedade pode se tornar mais eloquente.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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