Eurocopa 2024

Euro 2004: Felipão, Cristiano Ronaldo, Charisteas e o maior presente de grego da história do futebol

Há 20 anos, a eficiência grega chocou o mundo e desbancou favoritos em plena casa dos anfitriões

O ano de 2004 foi um dos mais icônicos da história do futebol mundial. Em todos os continentes do planeta bola ao menos uma zebra surpreendeu os amantes deste esporte tão apaixonante.

No Brasil, a dupla do ABC Paulista formada por São Caetano e Santo André conquistaram os títulos do Paulistão e da Copa do Brasil, respectivamente.

Na América do Sul, o Once Caldas contrariou as expectativas e venceu o Boca Juniors nos pênaltis, faturando a Libertadores de maneira inédita.

Na Europa, o Porto de José Mourinho bateu gigantes, e fez uma das finais de Champions League mais alternativas da história diante do Mônaco de Didier Deschamps.

Enfim, exemplos não faltam para justificar a premissa de que o ano de 2004 foi sim um dos mais marcantes da história do futebol pelos seus resultados surpreendentes.

Ainda falando do cenário europeu, foi em 2004 que a Grécia chocou o mundo, há exatos 20 anos! Com um futebol eficiente, e uma dedicação defensiva jamais vista, venceu a Eurocopa, batendo Portugal, o país-sede, na grande final.

Contaremos neste artigo sobre o caminho que o time grego percorreu até chegar a final contra a seleção portuguesa e como os anfitriões se prepararam até o começo da competição.

Portugal após a decepção da Copa do Mundo em 2002

António Oliveira não conseguiu extrair o melhor da boa geração portuguesa na Copa do Mundo de 2002. O time lusitano, cotado como uma das potências da competição, acabou eliminado na primeira fase do Mundial da Coreia e do Japão após somar apenas três pontos em três jogos. As vagas do grupo D ficaram com a anfitriã Coreia do Sul e os EUA.

Após perder para os Estados Unidos por 3 a 2 na estreia, a vitória por 4 a 0 frente a Polônia deu esperanças de classificação ao time português.

No entanto, a derrota para o bom time da Coreia do Sul encerrou o sonho português de parmenecer no Mundial, ao mesmo tempo, marcou o início de um novo momento para a seleção lusitana.

Luiz Felipe Scolari, campeão da mesma Copa de 2002, foi o escolhido para preparar a seleção de Portugal para a Euro de 2004, que seria sediada no país.

Mas antes mesmo da sua chegada, oficializada apenas em 2003, António Oliveira e Agostinho Oliveira encerraram o ano de 2002 com quatro amistosos.

Logo após o Mundial, Portugal empatou contra a China e contra a Inglaterra, mas venceu a Suécia e a Escócia nos últimos jogos daquele ano.

Como país-sede daquela Euro, Portugal não disputou as Eliminatórias para a competição, mas ao longo de seu ciclo preparatório fez diversos amistosos antes da estreia no torneio continental.

A era Felipão na seleção portuguesa

Portugal tinha uma das gerações mais talentosas do futebol mundial, e Felipão mesclou a experiência de nomes como Figo e Fernando Couto, com a juventude de Tiago e Cristiano Ronaldo.

A estreia do técnico brasileiro a frente do selecionado português aconteceu no dia 12 de fevereiro de 2003, em amistoso contra a Itália. 

Naquela ocasião, Felipão escalou a seguinte equipe: Ricardo; Fernando Couto, Fernando Meira, Ricardo Rocha, e Nuno Valente; Figo, Rui Costa e Tiago; Conceição, Pauleta e Simão Sabrosa.

Portugal acabou derrotado naquela ocasião, mas em seguida embalou uma sequência de seis jogos seguidos sem perder, incluindo uma vitória sobre o Brasil por 2 a 1, no dia 29 de março, na cidade do Porto.

A equipe lusitana viria perder apenas mais uma vez em 2003, quando tomou um sonoro 3 a 0 da Espanha no Estádio Municipal de Guimarães.

Mas nada que atrapalhasse o trabalho do técnico brasileiro, que na sequência engatou três vitórias em um empate, nos quatro últimos jogos do ano.

Ao final da primeira temporada de Felipão no comando de Portugal, a seleção conquistou sete vitórias, três empates, e duas derrotas. Saldo positivo para quem teria uma Eurocopa pela frente, e visava ao menos chegar a final.

Felipão ao lado de sua comissão técnica em Portugal na Euro de 2004
Felipão no comando da seleção portuguesa em 2004. Foto: Icon Sport

A preparação de Portugal antes da Euro 2004

Portugal começou o ano de 2004 empatando dois jogos, contra Inglaterra e Suécia, e perdendo mais uma vez para a Itália. Sem vencer nos primeiros amistosos no ano da Euro, o torcedor temeu pelo pior, mas confiava no trabalho e experiência de Felipão. 

Os triunfos contra Luxemburgo e Lituânia, os dois últimos jogos antes da competição continental, deram um pequeno alento ao time, que mostrava força contra seleções menores, mas tropeçava diante das equipes de maior tradição. 

O medo era de que aquela geração talentosa, cuja habilidade de Cristiano Ronaldo começava a aflorar, sentisse o peso da disputa de uma competição continental.

Felipão foi inteligente ao mesclar a experiência com a juventude, e formou um time forte para tentar o título europeu pela primeira vez em sua história.

Não foi somente a seleção de Portugal que promoveu mudanças para tentar buscar o título. Em termos de estrutura, o país aproveitou a oportunidade de sediar a Eurocopa para reformar seus estádios, contribuindo para o avanço econômico da região.

A qualidade dos gramados e algumas paisagens, como o do Municipal de Braga, construído tendo ao fundo a encosta do Monte Castro, encantou os torcedores ao redor do mundo.

Portanto, a expectativa era alta de uma grande festa em solo português, e o sentimento do torcedor lusitano era de que seu país pudesse chegar ao ponto mais alto do continente.

O caminho da Grécia até a Eurocopa

Mostramos até aqui a trajetória de Portugal até a estreia da Eurocopa em 2004. Sendo assim, falaremos do caminho trilhado pela Grécia, finalista daquela edição junto aos portugueses.

Nas Eliminatórias, a Grécia caiu em um grupo nada confortável, tendo Espanha e Ucrânia como principais expoentes. No entanto, o time de Otto Rehhagel não tomou conhecimento de seus adversários, e liderou a chave com 18 pontos somados em oito jogos.

Nos dois primeiros jogos do Grupo 6, duas derrotas para as favoritas da chave, ambas pelo placar de 2 a 0. Mas isso não tirou o ânimo nem o ímpeto grego em busca da classificação para a Euro.

Após perder para a Espanha e Ucrânia, a Grécia engatou uma sequência de seis vitórias seguidas, devolveu as derrotas sofridas no primeiro turno da chave, e chegou com ampla moral para a disputa da competição continental.

Charisteas, atacante da Grécia contra a República Tcheca.
Angelos Charisteas, herói da Grécia na Eurocopa 2004. Foto: Icon Sport

A batalha de gregos e portugueses na primeira fase da Eurocopa

Portugal e Grécia finalmente dariam seu primeiro passo rumo à final da Eurocopa, na estreia do Grupo A da competição. A disputa no Estádio do Dragão, na cidade do Porto, foi intensa.

A festa estava armada para uma grande vitória lusitana, contudo, a derrota por 2 a 1 para os gregos causou um choque, não só para os portugueses, mas para o mundo da bola.

Karagounis, em um chute de fora da área, abriu o marcador logo aos sete minutos, e Angelos Basinas, motorzinho daquele meio-campo, em cobrança de pênalti, marcou o 2º gol grego, deixando os adeptos em atônitos.

Portugal ainda diminuiu com Cristiano Ronaldo, seu primeiro gol em Euro, mas não foi o suficiente para evitar um capítulo histórico escrito pelos comandados de Otto Rehhagel.

Após a primeira rodada, Portugal precisaria dar uma resposta rápida para evitar um vexame ainda na primeira fase, o que veio com o triunfo por 2 a 0 frente à Rússia.

Já a Grécia surpreenderia novamente ao empatar com a Espanha por 1 a 1. Na última rodada, Portugal eliminou os espanhóis após vencer por 1 a 0.

Enquanto isso, a seleção grega sofreria sua primeira e única derrota naquela edição da Eurocopa para a Rússia, pelo placar de 2 a 1.

Contudo, nem mesmo o revés impediu o feito histórico da Grécia, que pela primeira vez se classificava para a segunda fase da competição.

Portugal e Inglaterra durante as quartas de final da Eurocopa 2004. Foto: Icon Sport
Portugal e Inglaterra fizeram um dos confrontos mais icônicos da Eurocopa 2004. Foto: Icon Sport

História e resiliência no mata-mata

Portugal passou no sufoco pela Inglaterra nas quartas de final. Após empate por 2 a 2 no tempo normal, a vaga para a semifinal foi decidida nos pênaltis. Os comandados de Felipão levaram a melhor, e venceram por um apertado 6 a 5.

Já a Grécia teria a poderosa França de Zidane, Henry, Trezeguet e companhia como adversária na segunda fase da Eurocopa.

Nem o mais otimista torcedor grego acreditaria na vitória e na classificação para uma histórica semifinal. Mas como no futebol nada é certo e nem sempre o favorito vence. Charisteas marcou aos 19 minutos da etapa complementar e eliminou um dos favoritos ao título.

Nas semifinais, Portugal enfrentou a Holanda, e não teve dificuldades para vencer por 2 a 1. Enquanto isso, os gregos conquistaram um triunfo histórico sobre a boa seleção tcheca por 1 a 0.

Portanto, Portugal e Grécia se encontrariam novamente na Euro de 2004. De um lado, o sentimento de revanche após a derrota lusitana por 2 a 1 no jogo de abertura da competição.

Do outro, a segurança e confiança dos gregos, que naquela altura já haviam perdido a alcunha de azarão.

Aos 11 minutos do segundo tempo daquela final, o poder da bola aérea grega fez a diferença. Basinas cobrou escanteio na entrada da pequena área e Charisteas fazendo o gol que deu o título da Eurocopa para a Grécia. Após o apito final no Estádio da Luz, Portugal e Cristiano Ronaldo choraram, e os críticos da bola se calaram.

Cristiano Ronaldo chorando após perder a final da Eurocopa
Cristiano Ronaldo, com apenas 19 anos, chora após perder a Eurocopa em 2004. Foto: Icon Sport

O saldo da Euro 2004 para CR7 e Felipão

Ainda muito novo, Cristiano Ronaldo tinha apenas 19 anos quando disputou aquela final, e o desespero da derrota funcionou como um combustível para a sequência de sua brilhante carreira.

O astro do Al-Nassr perseguiu o título europeu por mais 12 anos, até que finalmente, no auge dos seus 31 anos, pôde finalmente levantar a taça por seu país na edição de 2016.

Assim como aconteceu com o jogador, Cristiano Ronaldo sentiu o gosto de vencer o país anfitrião na final da competição continental, e desta vez chorou de alegria com mais um objetivo conquistado.

Já Luiz Felipe Scolari é lembrado até hoje como um dos maiores técnicos da história de Portugal. Sob seu comando, o time lusitano ainda chegou ao quarto lugar na Copa do Mundo da Alemanha, em 2006, segundo melhor resultado do país em um mundial (os lusos foram terceiros em 1966, com a geração comandada por Eusébio). O excelente currículo de Felipão à frente de Portugal credenciou o brasileiro a ser contratado pelo Chelsea, na temporada 2008-2009.

Foto de Lucas de Souza

Lucas de Souza

Lucas de Souza é jornalista formado pela Universidade São Judas em São Paulo. Possui especialização em Marketing Digital pela Digital House, e passagens pelos sites Futebol na Veia e Futebol Interior.
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