Europa

Porto surpreendeu e conquistou a Europa em final alternativa de Champions League há 20 anos

Treinado por José Mourinho na época, Porto superou o Monaco em decisão disputada em Gelsenkirchen, na Alemanha

O ano de 2004 foi marcado por grandes zebras em boa parte dos principais campeonatos de futebol ao redor do mundo. Na Champions League não foi diferente, já que na temporada 2003/2004, um tal de José Mourinho levou o competitivo time do Porto, de Deco, Carlos Alberto e Alenichev ao título da principal competição de clubes da Europa. O que chama a atenção nesta conquista dos Dragões é o fato do adversário da decisão ter sido o Monaco, que chegava a final pela primeira vez em sua história.

As duas equipes fizeram grandes campanhas antes de se enfrentarem no dia 26 de maio de 2004 em Gelsenkirchen. Do lado francês, o time treinado na época por Didier Deschamps foi o líder do Grupo C da competição, tendo somado 11 pontos na primeira fase, com três vitórias, dois empates e somente uma derrota para o Deportivo La Coruña por 1 a 0 na Espanha. Ainda na fase de grupos, os franceses deram o troco com “juros e correção monetária” no Stade Louis II, goleando por 8 a 3.

Já do lado português, o Porto de José Mourinho passou sem dificuldades no Grupo F, o mesmo do Real Madrid. Após dois jogos sem vencer nas primeiras duas rodadas da chave, a equipe se encontrou, engatou uma sequência de três jogos consecutivas e passou em segundo lugar na chave, atrás do time madrilenho. Vamos relembrar em detalhes as campanhas de cada um dos times e claro como o Porto conseguiu conquistar a Europa em mais uma grande e inesquecível zebra que o futebol nos proporcionou em 2004.

Vice-campeão francês, Monaco fez história na Champions de 2003/2004

Antes de falarmos da campanha da equipe do principado de Mônaco, vamos voltar um pouco no tempo e explicar como o Monaco chegou até a disputa da Champions League na temporada 2003/2004. Vice-campeão francês na temporada anterior, perdendo o título para o Lyon, que conquistara o bicampeonato nacional, com apenas um ponto de distância para o rival. A conquista veio com uma rodada de antecedência após empate diante do Montpellier pelo placar de 1 a 1.

Juninho Pernambucano, em grande fase, anotou 13 gols naquele campeonato. O Lyon também tinha como destaques os zagueiros Claudio Caçapa e Edmílson. Como vice-campeão nacional, o Mônaco recebeu a sua vaga para Champions League de forma direta e voltava a disputar a competição continental depois de duas temporadas, já que o time ficou na fase de grupos em 2000/2001 e não conquistou a classificação em 2001/2002 e 2002/2003.

Em seu retorno, o time treinado por Didier Deschamps foi muito bem na primeira fase, terminando à frente do La Coruña como líder do Grupo C. Em sua estreia, vitória diante do PSV Eindhoven por 2 a 1, fora de casa. Na sequência, uma sonora goleada por 4 a 0 diante do AEK Atenas e em seguida sua primeira e única derrota na fase de grupos, diante do time espanhol por 1 a 0.

No returno da chave, a goleada por 8 a 3 diante do Deportivo La Coruña, que tinha um grande time, com nomes de destaque como Diego Tristán em seu ataque, Naybet e Jorge Andrade na zaga e o grande volante Mauro Silva na volância. Nem mesmo a categoria dos comandados por Javier Irureta impediu que os franceses aplicassem a maior goleada daquela fase de grupos.

Naquela noite, no Estádio Louis II, Dado Prso, atacante croata, foi grande personagem da partida, marcando quatro gols. Nas duas últimas rodadas da primeira fase, o Mônaco acabou tropeçando, ficando no 1 a 1 diante do PSV e no 0 a 0 contra o AEK. Nas oitavas de final da competição o adversário foi o Lokomotiv Moscou, que na primeira fase desbancou a Internazionale. No primeiro jogo na Rússia, Ismailov marcou o primeiro e Maminov fez o segundo dos mandantes.

Pelo que foi o jogo, o Monaco poderia ter saído do primeiro jogo com um placar muito desfavorável, mas conseguiu marcar um gol com Morientes e deixou o confronto em aberto para o duelo da volta na França. No jogo de volta o time de Deschamps pressionou muito, teve um pênalti perdido por Prso, que acabou se redimindo aos 15 minutos do segundo tempo ao marcar o gol que deu a classificação ao time do principado. Na época ainda existia o critério do gol fora de casa, e os franceses seguiram em frente.

Nas quartas de final, o desafio seria frente ao galático Real Madrid de Figo, Ronaldo, Beckham e Zidane. Na Espanha, a equipe madrilenha fez valer o mando de campo e venceu por 4 a 2. Mas quem saiu na frente foram os franceses com Squillaci, aos 43 minutos do primeiro tempo. Ivan Helguera deixou tudo igual aos seis minutos após cobrança de escanteio. Zinedine Zidane, aos 25, virou o jogo para o time madrilenho. Figo, aos 32, aproveitou rebote de pênalti perdido para aumentar ainda mais a vantagem no Santiago Bernabéu.

Ronaldo, o fenômeno, quatro minutos mais tarde, ampliou o marcador para 4 a 1. Quando tudo parecia caminhar para uma vitória tranquila do Real Madrid, Morientes, aos 38 minutos, diminuiu o marcador e manteve a esperança de classificação do time francês. Na volta, o time espanhol saiu na frente do placar, com um lindo gol de Raul, aos 36 minutos do primeiro tempo. Em uma demonstração de resiliência e qualidade, o Mônaco foi em busca da virada e nos acréscimos da etapa inicial, Giuly deixou tudo igual.

No começo do segundo tempo, Morientes, principal artilheiro do time na competição, virou o jogo aos três minutos da etapa complementar em belo cabeceio. A pressão dos franceses continuou e Giuly, em mais um golaço, dessa vez de letra, fez o terceiro gol, fazendo o Louis II explodir e garantindo a classificação do Mônaco para a semifinal da Champions League.

Embalado pela grande conquista diante do Real Madrid, o Monaco seguiu em frente para encarar o Chelsea na semifinal da competição. Jogando em casa no jogo de ida, o time comandado por Deschamps despachou o time londrino, treinado por Claudio Ranieri na época, pelo placar de 3 a 1. Dado Prso, ao seu melhor estilo, tocou de cabeça para abrir o placar aos 17 minutos do primeiro tempo.

Hernán Crespo deixou tudo igual cinco minutos mais tarde. O jogo seguia quente, nervoso, com os dois times criando oportunidades, até que aos 33 da etapa complementar, Morientes recebeu dentro da área e estufou a rede do Chelsea para colocar o time francês em vantagem mais uma vez. Didier Deschamps colocou Nonda no lugar de Giuly e em seu primeiro toque na bola conseguiu marcar o terceiro gol francês fechando o placar em 3 a 1, resultado importante e que praticamente garantiu o time francês na decisão da Champions pela primeira vez.

Uma característica muito marcante daquele Monaco era a resiliência do time em campo. No jogo de volta diante do Chelsea em Stamford Bridge, Gronkjaer e Lampard abriram 2 a 0 de vantagem para os ingleses, o resultado daria a classificação à final ao time londrino. Mas a força mental daquele talentoso grupo possibilitou ao time francês empatar e calar a torcida inglesa. Ibarra, quase sem querer, diminuiu o marcador e Morientes, sempre ele, fez a alegria do povo francês na Inglaterra.

Porto de Mourinho dominou Portugal para ganhar a Europa em seguida

Campeão português, da Copa de Portugal e da Copa da Uefa na temporada 2002/2003, o Porto chegou para a disputa da Champions League como único representante português, já que o Benfica havia ficado pelo caminho ao perder para a Lazio ainda na terceira fase preliminar da competição. José Mourinho já despontava como um dos grandes treinadores do cenário europeu e os feitos à frente dos Dragões demonstravam um recado claro: seu time não estaria de brincadeira e não teria medo de ninguém, independente do seu tamanho.

Diferente do Mônaco, o time do Porto era mais firme na marcação, tinha um contra-ataque muito rápido e contava com a força da sua defesa para conseguir vencer jogos difíceis. Na fase de grupos da Champions League, o time português caiu no Grupo F, ao lado do Real Madrid, do Olympique de Marselha e do Partizan, que na época ainda fazia parte da Iugoslávia.

O começo da caminhada do Porto na competição continental não foi fácil. Na estreia, empate por 1 a 1 diante do Partizan e na sequência uma derrota por 3 a 1 frente ao galático Real em pleno Estádio do Dragão. A retomada dos comandados de Mourinho na competição aconteceu nas três rodadas seguintes, quando venceu o Olympique, fora de casa, por 3 a 2, bateu os franceses novamente por 1 a 0 na cidade do Porto e superou o Partizan em casa novamente por 1 a 0.

Na última rodada, um empate diante do Real Madrid por 1 a 1 no Santiago Bernabéu sacramentou a classificação do time português para as oitavas de final da principal competição de clubes do Velho Continente. Já nas oitavas de final o Porto continuou a aprontar contra as grandes forças do futebol mundial, ao desbancar o Manchester United.

No jogo de ida, vitória do time português por 2 a 1 de virada. Fortune deu a vantagem aos comandados de Sir Alex Ferguson no primeiro ataque do time inglês naquele confronto. Em noite inspirada, Benny McCarthy tratou de fazer dois belos gols, um aproveitando jogada de Carlos Alberto no primeiro tempo e o da virada anotado em linda cabeçada no segundo período.

Embalado pela grande vitória diante do gigante inglês, o Porto pouco sentiu a pressão de jogar no teatro dos sonhos e jogou com muita personalidade diante do United. Apesar de ter se comportado bem na Inglaterra, o time inglês abriu o marcador com Scholes, de cabeça, na marca dos 32 minutos do primeiro tempo. Nada que intimidasse aquele grande esquadrão português, que empatou com a lenda Costinha, aos 45 minutos do segundo tempo, em uma das comemorações mais emblemáticas da história do Porto e de José Mourinho. Era o modesto time português eliminando o gigante inglês em sua casa.

Nas quartas de final, o Porto não tomou conhecimento do campeão francês Lyon. Jogando em Portugal, Deco, aos 44 minutos do primeiro tempo e Ricardo Carvalho, aos 26 do segundo, deram um baile à portuguesa no temido time de Juninho Pernambucano. O time português não jogava o melhor futebol daquela competição, longe disso, mas era uma equipe muito consciente do que queria em campo e conseguia neutralizar as ações dos seus adversários com muita tranquilidade.

Foi dessa forma que o Lyon pouco apareceu para o jogo no Estádio do Dragão e teria a difícil missão de tentar a classificação em casa, precisando vencer por mais de dois gols. No confronto da volta, Maniche foi o nome do jogo, marcou os dois gols do Porto no empate por 2 a 2 e foi fundamental para mais uma classificação do time português na Champions League.

Um parênteses importante

Já dissemos neste artigo que a final entre Mônaco e Porto nesta edição de 2004 foi alternativa por si só, mas se nos aprofundarmos mais nesta questão, a própria Champions deste ano foi uma sucessão de zebras quase inacreditável. Falaremos daquela grande decisão logo mais, porém é importante fazermos uma pequena pausa na campanha do Porto para resgatar o que foi o duelo entre Milan e Deportivo La Coruña nas quartas de final daquela edição.

Vamos valorizar este confronto não só pela classificação do time espanhol, mas pelo contexto deste feito. O time espanhol não se abalou por conta dos 8 a 3 que sofreu diante do Mônaco na fase de grupos e passou pela forte Juventus nas oitavas de final. O Milan, por sua vez, liderou o Grupo H com dez pontos na primeira fase e depois despachou o Sparta Praga nas oitavas. No confronto das quartas, o time italiano não tomou conhecimento dos espanhois e venceu por 4 a 1.

Ali muitos consideravam que o time do Milan estaria classificado para a semifinal para encarar o Porto e que o jogo da volta na Espanha seria uma mera formalidade, ledo engano. Em mais uma demonstração de resiliência e determinação de um time considerado médio naquela Champions League, o La Coruña deu um baile de bola nos italianos e no ritmo das touradas goleou por 4 a 0.

Portanto a semifinal entre Porto e La Coruña foi alternativa não só pelo o que os times representavam no cenário naquele momento, mas pelo contexto da classificação por parte das duas equipes, que eram pouco cotadas a chegar tão longe no início da competição.

Porto foi melhor na batalha contra o La Coruña

Quando a bola rolou nos dois jogos entre Porto e Deportivo La Coruña, prevaleceu a força mental e a organização do time português. Na ida em Portugal, empate sem gols, o que de certa forma preocupou um pouco os torcedores da equipe de José Mourinho, tendo em vista a força demonstrada pelos espanhois em casa. Mas isso não foi sucifiente para abalar a estrutura do seu competitivo grupo.

No jogo de volta na Espanha, Pierluigi Colina, lendário árbitro italiano anotou pênalti em favor do Porto, cobrado com maestria por Derlei, heroi do título da Copa da Uefa uma temporada antes. O Estádio Municipal de Riazor ficou em silêncio e o único grito que bradava naquele alçapão era o da barulhenta e intensa torcida portuguesa, que comemorava o retorno à final da Champions League após 17 anos, desde o seu último título na temporada 1986/1987.

Bicampeonato português em grande estilo

Chegamos à final da competição mais disputada da Europa. Porto e Mônaco fizeram grandes campanhas e mereceram, ao seu estilo, a classificação para a disputa da decisão. De um lado o ofensivo time francês, de Morientes, Giuly, Prso, Evra e companhia. Do outro o forte time português de Mourinho. A dúvida na época era se a firmeza defensiva dos portugueses seria o suficiente para suplantar o plástico e envolvente futebol francês.

Como a história mesmo já contou em outras oportunidades, o Porto não só venceu como não tomou conhecimento do Mônaco em um desempenho surpreendente dos dois times. Talvez pela pressão de ter chegado na final da principal competição de clubes da Europa pela primeira vez, o Mônaco sentiu a pressão da final diante de um Porto consciente, que jogou muita bolas e mereceu seu segundo título Europeu.

Carlos Alberto, marcou um golaço aos 39 minutos do primeiro tempo e abriu o caminho do baile português após acertar lindo chute no ângulo do goleiro Roma. Deco, aos 26 da etapa complementar, em um toque de classe após um contra-ataque mortal, aproximou ainda mais o Porto de seu título europeu. O banho de bola do time de Mourinho seguiu, com o russo Alenichev marcando o terceiro e último gol do jogo aos 30 do segundo tempo, sacramentando um trabalho brilhante do Porto e o início da era Mourinho como o mais novo grande treinador do futebol europeu.

 

Foto de Lucas de Souza

Lucas de Souza

Esse é Lucas de Souza, redator e repórter do Futebol na Veia e da Trivela. Jornalista especializado em Marketing digital é também narrador do Portal Futebol Interior e da RP2Marketing.
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