Sem categoria

Terceiro rebaixamento em oito anos é o resultado de uma série de erros do La Coruña

Era para ser a temporada da virada. Após três anos salvando-se do rebaixamento nos momentos finais, o Deportivo La Coruña finalmente havia equalizado suas dívidas e tinha um pouco mais de poder de investimento. O objetivo era o meio da tabela, por volta da 10ª posição. A realidade foi bem mais cruel: rebaixamento com três rodadas de antecedência, o terceiro dos galegos em oito temporadas. 

LEIA MAIS: Vitória dá título ao Barcelona, consagra eficiência com fator decisivo de Messi e rebaixa Deportivo

A queda do La Coruña é uma tragédia anunciada. E os avisos são constantes desde o último acesso, em 2014. No ano seguinte, o Depor escapou do rebaixamento no último dia da temporada. Em 2016 e 2017, na penúltima rodada. Desta vez, o milagre não foi possível e mal foi esboçado, apesar de um suspiro final honroso para a equipe treinada pelo holandês Clarence Seedorf. 

O cargo de treinador do Deportivo La Coruña é uma questão séria. O último que conseguiu um trabalho mais longo foi Miguel Ángel Lotina, que saiu com o primeiro rebaixamento da série, em 2011, depois de 20 anos consecutivos na elite espanhola. Ficou quatro temporadas. Seedorf foi o nono homem a comandar os treinamentos da equipes neste período de sete anos. O terceiro da campanha que culminou com a queda, depois de Pepe Mel e Cristóbal Parralo. 

Pepe Mel chegou em fevereiro do ano passado e conseguiu manter o Depor na primeira divisão. O seu rendimento, porém, já causava dúvidas na diretoria. Mas o presidente Tino Fernández estava com um sério caso de Lesão por Esforços de Repetição de tanto assinar rescisão de contrato de técnicos. Decidiu mantê-lo e ouviu seus conselhos na montagem do elenco, que, enfim, receberia um pouco mais de investimento. Mel queria um atacante e um goleiro. 

Chegaram Guilherme, da Udinese, Fabian Schar, do Hoffenheim, Juanfran, do Watford, e Gerard Valentín, da segunda divisão. Custaram € 9,5 milhões, pouco a mais do que o gasto total da temporada passada. Todas as atenções da janela foram voltadas à tentativa de levar Lucas Pérez de volta ao Riazor. Uma proposta de € 12 milhões foi recusada pelo Arsenal. Pérez acabou retornando por empréstimo de um ano. E nenhum goleiro chegou. 

Foi um erro, como também foi a manutenção de Pepe Mel. A confiança da diretoria durou apenas as nove primeiras rodadas do Campeonato Espanhol, com cinco derrotas, dois empates e duas vitórias. Neste período, ele usou quatro goleiros diferentes. Rubén nas duas primeiras. Machucado, deu lugar ao polonês Przemysla Tyton, que durou uma única partida. O romeno Costel Pantilimon guardou as metas do La Coruña entre as rodadas quatro e sete. O jovem nigeriano Francis Uzoho, de apenas 19 anos, disputou os últimos dois jogos de La Liga com Pepe Mel no comando do Depor. 

A escolha do sucessor de Mel foi feita sem convicção. Cristóbal Parralo foi promovido dos reservas e durou apenas até fevereiro, quando era dono de uma sequência de apenas uma vitória em 12 rodadas, com goleadas frescas contra o Real Madrid (7 a 1) e Real Sociedad (5 a 1). Estava no comando durante os negócios de inverno. Chegou o goleiro, o ucraniano Maksym Koval, de 25 anos, do Dínamo de Kiev. Jogou uma única vez pelos galegos: expulso aos 39 minutos do primeiro tempo do empate com o Eibar, no começo de março. Também chegaram Michael Krohn-Dehli e Eneko Bóvde, além de Sulley Muntari, sem clube, o único reforço pedido por Seedorf. 

A própria escolha de Seedorf para ser o terceiro treinador da temporada foi uma aposta. O holandês tinha apenas dois trabalhos de seis meses no Milan e no Shenzhen, da China, sem grandes resultados. Na época da contratação, a imprensa espanhola noticiava que ele havia sido a terceira opção da diretoria que, naquela altura, havia sido fragmentada pelas saídas de Fernando Vidal, braço-direito do presidente, e Richard Barral, diretor esportivo, os dois homens fortes do futebol do La Coruña. 

A estreia de Seedorf foi contra o Bétis: derrota por 1 a 0. Os sete jogos seguidos também não tiveram triunfos, com quatro derrotas e três empates. A vitória chegou apenas no começo de abril, por 3 a 2 contra o Málaga. E foi repetida na rodada seguinte, pelo mesmo placar, contra o Athletic Bilbao. Mas foram as únicas. Dois empates por 0 a 0 contra Sevilla e Leganés, com desempenhos razoáveis, é bom que se diga, complicaram a vida do La Coruña. Especialmente porque a reviravolta que se esperava no Riazor aconteceu no Levante, que ganhou seis das últimas oito rodadas. 

Seedorf recebeu o Deportivo dentro da zona de rebaixamento, a três pontos da salvação. O rebaixamento foi confirmado, contra o Barcelona, a 12 pontos de evitar a segunda divisão. Em vez de se recuperar, os galegos se afundaram ainda mais sob o comando do holandês, apesar de um rendimento bem melhor na reta final. O holandês fala em futuro aberto, mas já em tom de despedida. “Estamos muito tristes pelo rebaixamento. Quero agradecer a todos do clube, torcida e jogadores, encontrei uma equipe de trabalho muito boa. Não cumprimos nosso objetivo, mas o esporte é assim. Quero acabar bem a temporada, com dignidade, e continuar trabalhando para seguir esta linha. Não há portas fechadas para mim no ano que vem”, disse. 

A queda do La Coruña não aconteceu com Seedorf, nem com Pepe Mel, nem com seus numerosos antecessores. Foi o resultado de um processo cheio de erros, de montagem de elenco e escolha de treinadores, depois de três anos evitando o rebaixamento por muito pouco. Um dado específico chama a atenção: as duas vitórias de Seedorf, as únicas do holandês na sua passagem pelo Riazor, foram a primeira vez em dois anos e meio que o Deportivo venceu duas rodadas seguidas do Campeonato Espanhol. Desde novembro de 2015. Assim não tem como ficar na primeira divisão por muito tempo. 

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.
Botão Voltar ao topo