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Ficou sensacional a homenagem do Atlético de Madrid aos 125 anos do Athletic Bilbao, que deu origem os colchoneros

O Atlético de Madrid surgiu como uma filial do Athletic Bilbao, fundado por estudantes bascos na capital, e exaltou as raízes com o belíssimo tributo deste sábado

Athletic Bilbao e Atlético de Madrid possuem histórias cruzadas em seus primórdios. As semelhanças entre os clubes não é mera coincidência. De início, o clube de Madri era uma filial da equipe de Bilbao, criado por estudantes bascos que viviam na capital. Apenas com o tempo é que os colchoneros se tornaram independentes dos leones, sem ficar à sombra da “matriz”. E se há inclusive disputas importantes entre os times, como a decisão da Liga Europa de 2011/12, isso não atrapalha um reconhecimento amplo dessas raízes. Neste domingo, o Atleti prestou uma homenagem aos 125 anos de criação do Athletic em pleno Estádio Metropolitano, antes da vitória dos anfitriões por 1 a 0 em La Liga.

O Athletic Bilbao já era um clube de sucesso nos primórdios do futebol na Espanha quando o Atlético de Madrid foi criado, em abril de 1903. Um combinado de Bilbao havia conquistado a Copa da Coroação de 1902, torneio que daria origem à Copa do Rei, e o Athletic faturou a taça sob a nova nomenclatura durante o ano seguinte. Na esteira do sucesso, semanas depois, bascos que viviam em Madri resolveram fundar na capital um novo time baseado no Athletic. Naqueles primórdios, os dois clubes não podiam sequer disputar as mesmas competições oficiais. Os madrilenos acabavam inclusive cedendo jogadores aos bilbaínos. O desligamento só ocorreu em 1907, quando o chamado Athletic de Madrid resolveu se formalizar como agremiação independente.

De início, o Athletic Bilbao e o Athletic de Madrid ainda precisaram esperar um tempo para disputar os mesmos torneios, o que só foi permitido com a criação da Real Federación Española de Fútbol em 1913. Os dois times seguiam com ligações permanentes, o que inclusive provocou uma mudança conjunta dos uniformes em 1909. As duas equipes usavam fardamentos idênticos, inspirados no Blackburn Rovers – de camisas azuis e brancas, com bermudas azuis. A transformação das cores só aconteceu quando um dirigente basco foi até a Inglaterra e, sem encontrar uniformes no modelo correto, trouxe similares ao do Southampton para os dois clubes espanhóis. O Athletic Bilbao então adotou integralmente as camisas alvirrubras listradas com calções pretos, enquanto o Athletic de Madrid manteve os calções azuis com as novas camisas alvirrubras listradas.

A partir da decisão da Copa do Rei de 1921, que colocou criador e criatura frente a frente, com vitória do Athletic Bilbao, os dois times se distanciaram um pouco mais. Viraram oponentes costumeiros desde a criação do Campeonato Espanhol e seguiram por caminhos distintos a partir da ditadura franquista. Enquanto o Athletic Bilbao era perseguido e forçosamente mudou seu nome para Atlético Bilbao, com as restrições aos estrangeirismos que também fizeram o elenco se fechar a jogadores de fora do País Basco, o Atlético Aviación virou um time apadrinhado pelo regime durante o início da década de 1940, antes de se tornar o renomeado Atlético de Madrid em 1949 – e sem retomar a alcunha original de “Athletic” quando o franquismo acabou.

Apesar das décadas que distanciaram os dois clubes, isso não impediu que Athletic Bilbao e Atlético de Madrid nutrissem um reconhecimento mútuo. Um sinal concreto mais recente aconteceu em 2016/17, quando o Atleti solicitou que o Athletic fosse seu adversário na rodada final de La Liga, que marcaria a despedida do Estádio Vicente Calderón. E esse carinho ficou bastante claro neste sábado, no reencontro pelo Campeonato Espanhol. Logo na entrada do Metropolitano, o Atleti promoveu agradecimentos ao Athletic nos telões e em cachecóis oficiais. Camisetas especiais também foram confeccionadas, com uma mensagem de gratidão no local dos patrocinadores.

Durante a entrada em campo, bandeiras alvirrubras foram alinhadas no gramado durante a recepção aos jogadores de ambas as equipes. Depois disso, veteranos de ambos os clubes foram chamados para uma homenagem no gramado – incluindo vários personagens históricos do futebol espanhol, como Javier Clemente, Julio Salinas, Andoni Goikoetxea e Javier Irureta. Entre os nomes na ativa, Raúl García era o elo em comum. Mais bonito ainda ficou o tributo aos dois sócios que atualmente possuem as carteirinhas mais antigas dos clubes, acompanhados ao campo pelos capitães Koke e Iker Muniain. Ambos participaram também de um jantar prévio ao duelo no Metropolitano, junto com os ídolos do passado e dirigentes.

Como sinal de respeito, excepcionalmente, o Atlético de Madrid vestiu o uniforme reserva para que o Athletic Bilbao, a velha matriz, usasse as camisas alvirrubras tradicionais no jogo. A atitude relembrou uma tradição vigente durante os primórdios do confronto, em que sempre o time local é que mudava sua camisa a cada encontro de ambos. Só dentro de campo é que essa reverência não se repetiu, com o triunfo por 1 a 0 dos madrilenos. Os Leones completarão 125 anos em 18 de julho. E as celebrações certamente terão os colchoneros como convidados de honra, especialmente depois de tamanha homenagem.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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