Retrospectiva tática do futebol em 2025: Menos passes, mais velocidade e a ‘nova pressão’
Em 2025, times de todo o mundo e de vários níveis marcharam para longe do jogo pausado e de domínio da última década

O futebol caminhou para uma nova faceta em 2025. Um jogo antes dominado pelo controle quase sufocante e, para muitos, tedioso, deve entrar em 2026 com padrões mais acelerados. E a Copa do Mundo pode se mostrar um reflexo disso.
Em retrospectiva do que foi visto em 2025 no mais alto nível, a mudança é notória: o futebol tem sido mais rápido, com menos passes, mais transições e com novidades impactantes nos sistemas de pressão.
Menos controle e mais ‘caos’: A maior mudança tática de 2025 no futebol
O fim da temporada 2024/2025 e o início da atual revelaram uma mudança tática curiosa: o ressurgimento da bola longa. Depois de vários anos definidos pela posse controlada e pelo jogo metódico, os clubes voltaram a adotar uma abordagem mais direta e vertical.
Dados das nove primeiras rodadas da Premier League, por exemplo, já destacavam um aumento claro em passes longos, transições mais rápidas e métricas de velocidade direta notavelmente mais altas — sinalizando um movimento coletivo dos times para longe de sequências de passes curtos.

Na última década, a evolução dos passes ilustrou uma transformação que, agora, atingiu um ponto de inflexão decisivo: a atual temporada é a com menos passes por jogo dos últimos 10 anos e mostra um recorde.
Segundo o Wyscout, houve crescimento quase constante desde 2016/17, quando a liga já tinha uma marca de mais de 880 passes por jogo. Essa evolução culminou no recorde de 945,2 em 2020/21.
Na atual temporada, são menos de 860 passes por partida na Premier League. Atualmente, o time com mais passes certos por jogo na liga é o Manchester City, com 481, em média. Em 2023/24, o Arsenal, que foi o 6º nessa estatística, tinha o mesmo número — e foram cinco times com mais de 500.
Busca pela velocidade e ‘impaciência’
Ainda há quem siga dominando o jogo com a bola, como o Bayern de Munique e o PSG, os únicos times com mais de 700 passes de média por partida. Mas mesmo esses times já têm demonstrado padrões diferentes.
O Bayern, por exemplo, ataca em um 2-2-6 praticamente inédito, com muitas trocas de posição e Harry Kane como um centroavante que recua até os zagueiros. E já não é mais o padrão de construção lenta do Jogo de Posição, em que todos viajam juntos e a tentativa é de deslocar a marcação através dos passes.
🇩🇪🤩 Kompany 'dinizista', Kane volante e risco altíssimo
Como o Bayern revolucionou o futebol e se tornou um dos times mais ousados da última década
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— Trivela (@trivela) November 26, 2025
O próprio Manchester City, ainda que seja o time com mais posse da Premier League, mudou claramente seu estilo. A prioridade ainda é ser paciente, mas em diversos momentos da temporada a equipe de Pep Guardiola criou oportunidades e venceu jogos aproveitando contra-ataques e lançamentos para Haaland em profundidade.
Na Champions League, o Olympique de Marselha de Roberto De Zerbi, um treinador conhecido pelo seu estilo de muitas trocas de passe curtos perto da defesa para passar pela pressão, é o time com mais ataques diretos na competição (19). O Real Madrid de Xabi Alonso, outro que implementou um sistema de posse desde o Leverkusen, é o segundo (15).
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Pressão mais forte do que nunca e que causou mudanças no ataque
Pressionar alto virou padrão no futebol mundial em 2025. Se antes era normal “jogos de um time só”, em que times menos capazes procuravam apenas se defender, a atual temporada tem mostrado cada vez mais urgência de todos os times para pressionar e impedir sequências longas de passes.
A Champions League é um exemplo disso. O time com menos passes por ação defensiva (PPDA) — uma estatística que mede quantos passes adversários a equipe permite antes de tentar roubar a bola — é o Slavia Praga, com apenas oito. O Athletic Bilbao é o segundo, com 9,4.
Em um recorte das cinco grandes ligas, o Como é o time com a pressão mais feroz da Europa com 8,4 PPDA, mesmo número do PSG. Na Premier League, times menos expressivos lideram a estatística: Bournemouth e Brighton.

Isso simboliza como diferentes os times têm buscado o mesmo padrão: pressionar alto e forte — e combinar com ataques rápidos para aproveitar as brechas causadas pela pressão.
Fazer pressão alta não é necessariamente novidade. Desde Valeriy Lobanovskiy com o Dínamo de Kiev dos anos 1980, que foi inspiração para Ralf Rangnick e Jürgen Klopp nos anos 2000. Mas, agora, a ideia é ser ainda mais agressivo e fazer perseguições individuais por todo o campo.
Agora, times procuram pressionar quase que com igualdade numérica. A ideia é que cada jogador tenha um opositor direto e, quando a bola chega ao goleiro, um dos atacantes fecha a opção de passe de retorno para pressioná-lo e avançar ainda mais a pressão. Isso força o adversário a dar um chutão ou levar muito perigo para sair pelo chão.
Essa pressão forte impactou o ataque. Se cada jogador pressiona um opositor direto, todas as regiões do campo se tornam grandes duelos individuais. E isso influencia o crescimento de dribladores e especialistas em curto espaço, como Phil Foden e Lamine Yamal.
Retorno da saída lavolpiana e meio esvaziado
Com a pressão ainda mais forte e alta, a busca por superioridade numérica na construção baixa fez com que a saída lavolpiana — aquela em que um volante recua entre os zagueiros — voltasse à moda em determinados centros.
A construção popularizada pelo técnico argentino Ricardo La Volpe se baseia em recuar um dos meio-campistas para criar vantagem diante dos atacantes frente ao popular 4-4-2 defensivo no futebol moderno.
E mais do que recuar um volante, os times têm escolhido propositalmente esvaziar o meio do campo. A Trivela já analisou essa tendência no início da temporada, que se fez bastante presente já na temporada passada e até no Mundial de Clubes.
Durante os últimos anos, a ideia do futebol era encher o meio e controlar o jogo com a posse.
Recentemente, o jogo tem sido mais dinâmico. Apesar da priorização da bola, grandes times têm preferido esvaziar o meio para progredir.
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— Guilherme Ramos (@guilhermer_amos) July 31, 2025
Com essa ideia, o foco é chamar a pressão, que tem sido feita com mais frequência, e “abrir” o campo com jogadores se movimentando para os lados e mantendo um atacante fixando os defensores em profundidade.
Com o meio sem opções de passe, também não há marcadores, uma vez que vivemos uma constante de marcação individual. Isso permite que jogadores tomem vantagem cinética para se desvencilhar da marcação e receber com espaço. Isso tem criado oportunidades principalmente com jogadores vindo de trás para atacar a profundidade ou com quem está descendo para gerar dinâmicas de terceiro homem.
Grandes times do futebol mundial têm sido expoentes dessas novas tendências, mas o rumo do jogo tem sido esse em quase todas as instâncias. Do Brasileirão à Premier League e seleções: 2025 foi um ano de transição para deixar para trás um estilo que dominou a última década.



