Inglaterra

O novo padrão de sucesso na Premier League aponta o rumo do futebol

Impaciência, aceleração e até bolas paradas têm sido tendências curiosas na temporada inglesa

Em uma era do futebol de alto nível que é dominada pela posse de bola, paciência e triangulações, seria muito difícil imaginar que três dos quatro primeiros na tabela da Premier League “não gostam” da bola. É o que acontece na atual temporada.

O novo rumo do esporte em termos de estratégia é evidente. Construir com passes curtos, aproximações e ocupação racional dos espaços ainda é o que norteia o jogo — mas o antídoto disso já é tendência. E isso significa ser intenso para defender e acelerar com a bola.

Bournemouth, Tottenham e Sunderland estão no top-4 da Premier League neste momento, e todos vão contra a ideia do jogo paciente. O crescimento do Manchester United também passa pela aceleração e por “pular etapas” na construção. O Crystal Palace viveu uma sequência histórica de invencibilidade e conquistou dois títulos dessa forma recentemente.

Fato é que o novo padrão de sucesso no futebol inglês passa por um jogo mais direto. E exceto o Arsenal, equipes historicamente mais pautadas no domínio da posse têm tido dificuldades, como Manchester City, Liverpool e Chelsea. Por quê?

Ter a bola é passado na Premier League

A ideia de “ter a bola para que o adversário não consiga atacar” era o ponto central da maioria dos modelos de jogo no futebol de alto nível. Mesmo que na Inglaterra sempre houvesse uma onda de pensamento conservador no futebol que fosse contra ao jogo de domínio da bola, o sucesso do Manchester City de Pep Guardiola fez escola.

Na temporada anterior à chegada do catalão, em 2015/16, os times com maior número de posse de bola não passavam dos 58% (Manchester United de Louis van Gaal e Arsenal de Arsène Wenger). No ano seguinte, três já tinham média superior aos 60%, incluindo os 65% dos Citizens.

Pep Guardiola, técnico do Manchester City (Foto: Imago)
Pep Guardiola, técnico do Manchester City (Foto: Imago)

O City dos 100 gols, inclusive, teve assustadores 71,7% de posse — e outros três além dele tiveram média superior aos 60%. Em 2020/21, por exemplo, o surpreendente Leeds recém-promovido chegou ao 9º lugar com um jogo baseado no domínio da bola.

As coisas já mudaram na temporada passada. Seja porque chegamos a um ponto em que todos tentam dominar a bola ou em uma situação em que os adversários já conseguem quebrar as sequências quase ininterruptas das equipes dominantes, apenas o City teve mais de 60% de média — “míseros” 61%.

O Liverpool foi campeão com 57% de posse de bola, mesma média do Leeds ousado de Marcelo Bielsa, citado anteriormente. E curiosamente, o time de Guardiola tem, nesta temporada, sua pior média em toda a carreira (58%).

Se até mesmo Guardiola tem se voltado a uma nova forma de criar e construir, é porque o ciclo está voltando a um ponto perto do seu início. Talvez mais perto do “kick and rush” do que o futebol inglês já esteve nos últimos anos.

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As surpresas que mostram a nova face do futebol inglês

Uma olhada rápida pela tabela é o suficiente para perceber surpresas. O recém-promovido Sunderland em 4º lugar na Premier League impressiona por alguns motivos — desde o investimento surpreendente, até a forma com a qual chegaram ali.

Os Black Cats não têm um grande ataque (11 gols marcados), mas têm a segunda melhor defesa (sete sofridos) e a terceira menor média de posse de bola da liga (42%). Mais absurdo que isso: é o time com menos finalizações certas no campeonato (25).

Por outro lado, um dado é crucial para explicar o novo movimento inglês: a direção dos passes. Quem mais surpreende é, coincidentemente, quem dá mais passes para frente — ou seja, quem prioriza um jogo vertical e rápido.

Média de passes para frente na Premier League 2025/26, segundo a “Opta”:

  1. Brentford – 37,8%
  2. Sunderland – 37,3%
  3. Crystal Palace – 35,9%
  4. Bournemouth – 35,6%
  5. Newcastle – 35,6%

O Manchester United, que tem crescido recentemente com seu modelo de jogo que busca velocidade com o trio de ataque ou bolas longas para passar da pressão e acelerar no último terço, também é exemplificado pelas estatísticas. Mais de 35% dos seus passes são para frente e é o terceiro time com mais bolas enfiadas na liga, atrás apenas de Arsenal e Manchester City.

Defesa sólida e intensidade são regras

Tottenham e Sunderland cresceram na tabela também por seu sólido desempenho defensivo. Eles têm duas das três maiores diferenças negativas entre gols sofridos e gols sofridos esperados da liga — ambos com ao menos 3,5 xG a mais do que a quantidade gols que levaram.

Thomas Frank, técnico do Tottenham
Thomas Frank, técnico do Tottenham (Foto: Imago)

Mais do que isso, os adversários não conseguem transformar chutes em gols contra os dois. Depois do Arsenal, são donos das menores taxas de conversão de adversários: as finalizações que vão aos gols de Tottenham e Sunderland entram em menos de 6,4% das vezes.

A dupla está sempre junta nas estatísticas defensivas: tem dois dos quatro menores xG por chute adversário e duas das três menores porcentagens de finalizações adversários dentro da área.

Antes de impedir finalizações, essas equipes também se mostram intensas em duelos. Sunderland, Manchester United e Crystal Palace, por exemplo, lideram a liga e duelos vencidos no chão.

A intensidade é vista também no ataque. O Bournemouth, segundo colocado na tabela, é o líder em ataques diretos (18). Junto do Brentford, é quem mais marcou gols de ataques diretos (4) no campeonato, e também lidera em gols de contra-ataques (5).

Em termos individuais isso também se traduz. Matheus Cunha é o jogador que teve mais conduções que acabaram em finalização no campeonato (13). Em termos defensivos, Palhinha (Tottenham) e Mitchell (Palace) são os líderes em divididas.

Bola parada é a cereja do bolo

O Arsenal fez sucesso na última temporada reforçando a qualidade da sua bola parada ofensiva. Agora, o crescimento desse tipo de jogada fez com que times que não têm a bola também encontrem outra forma de marcar mais gols.

Os Gunners ainda lideram o número de gols de bola parada na Premier League, mas Tottenham, Crystal Palace e Bournemouth estão no top-5 da estatística. O Manchester United, por sua vez, é o 4º em xG a partir de bolas paradas.

O Brentford também tem sido um expoente das cobranças longas de lateral, que quase simulam escanteios, e outras equipes têm feito o mesmo. Apesar de ainda não ser algo computado estatisticamente como bola parada, é outra tendência que tem crescido — e rendeu até gol de Sesko no United, por exemplo.

A Premier League tem sido caracterizada pela intensidade há anos, mas quem domina, majoritariamente, era paciente. A evolução do jogo tem levado a liga para um caminho diferente: mais aberto, surpreendente e veloz.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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