Inglaterra

Guardiola perdeu a coragem? O que significa o ‘pragmatismo’ radical do Manchester City

Empate pragmático contra o Arsenal pode ter sido virada de chave na carreira do treinador

O clássico entre Arsenal e Manchester City, que terminou empatado em 1 a 1 pela 5ª rodada da Premier League, parece ter sido um ponto de virada para Pep Guardiola. O principal expoente da ideia de dominar o jogo com a bola a qualquer custo não fez a menor questão de tê-la, e seu time jogou de forma que ele sempre abominou.

Isso rendeu críticas de todos os lados. Quem aprecia seu estilo ficou confuso com uma mudança tão repentina e radical. Outros falam sobre como até mesmo Pep se rendeu ao “pragmatismo e resultadismo”.

Em um confronto de dois gigantes que mais tinham medo de perder do que buscavam ganhar, os treinadores chegaram até a serem chamados de “GuardiolAI” e “Chat ArGPteta”, em alusão à falta de “humanidade” da dupla. Mas Guardiola realmente perdeu a coragem?

De onde vem a mudança de Pep Guardiola

Pep vive em constante mudança. Diferente do estereótipo que foi criado sobre o catalão, de que acaba com jogadores criativos para manter um sistema, seus times ao longo da história têm diferenças significativas.

Enquanto seu Barcelona, mais ao fim da passagem, já jogava sem atacantes e repleto de meias, o Bayern de Munique chegou a jogar sem nenhum zagueiro. Já o Manchester City campeão da Champions League viveu seus grandes momentos com uma linha defensiva com quatro zagueiros de ofício — algo quase impensável para um treinador obcecado pela bola.

Pep Guardiola, técnico do Manchester City
Pep Guardiola, técnico do Manchester City (Foto: Imago)

A virada de chave para o treinador veio na temporada passada. Mesmo com as mudanças ao longo da carreira, Pep sempre teve um volante com quase as mesmas características: exímio controlador da bola, que sai da pressão e progride sem sustos e, ocasionalmente, tem sua qualidade em duelos físicos.

Ao longo da sua trajetória, esse volante sempre existiu: inicialmente foi Sergio Busquets, Xabi Alonso e até Philipp Lahm em alguns momentos, depois Fernandinho e, finalmente, Rodri. A lesão do Bola de Ouro de 2024, no entanto, desmoronou o Manchester City e, consequentemente, seu treinador.

O time não conseguia pressionar com a mesma intensidade, uma vez que não tinha a proteção de Rodri comandando a marcação alta e cuidando da sobra. Também teve dificuldades de progredir o jogo e passou a sofrer sob pressão feroz.

O resultado foi surpreendente: uma sequência de derrotas inédita na carreira do treinador no fim de 2024, incluindo goleadas para rivais como Tottenham e Arsenal, e uma temporada sem títulos pela primeira vez em oito anos.

Mas o resquício desse trauma foi ainda maior. Para além das saídas de jogadores cruciais para o modelo de jogo, como Ederson, Gündogan e De Bruyne, veio a mudança na forma de jogar.

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Pep é ‘culpado’ por seu próprio pragmatismo

Guardiola popularizou a fundação do futebol moderno no fim dos anos 2000. Sua paixão pelo Jogo de Posição, bem como o sucesso que teve com o modelo, fez com que diversos treinadores se baseassem em sua filosofia e adotassem um estilo de controle a partir de passes curtos.

Mesmo quem sempre teve ideias mais verticais e intensas, como Jürgen Klopp e José Mourinho, ainda assim se adaptaram para um futebol que se tornou, por regra, mais pausado. E mais do que isso: Pep ensinou seus próprios rivais.

Mikel Arteta, seu principal concorrente na Premier League nos últimos anos, foi seu auxiliar no Manchester City. Enzo Maresca, campeão da Conference League e do Mundial de Clubes, que tem levado o Chelsea a grandes momentos recentemente, também esteve sob sua tutela.

Guardiola e Arteta nos tempos de Manchester City
Guardiola e Arteta nos tempos de Manchester City (Foto: IMAGO)

De certa forma, o futebol de alto nível se moldou naquilo que Pep popularizou e, por isso, aprendeu não só a fazer algo muito parecido, como também a defendê-lo e atacá-lo de volta. E sem todos os pilares do seu modelo de pé, Guardiola teve que se radicalizar.

Adaptação sempre foi seu forte

“Me diga como meu oponente vai se defender, e só depois eu vou decidir como vou atacar”, foi o que o treinador do Manchester City disse em entrevista coletiva no início da temporada. Adaptação sempre esteve no centro do seu trabalho. Claro que existem princípios básicos do seu modelo de jogo, como, por exemplo:

  • Primeira fase de construção curta, com aproximação em 2-3 ou 3-2;
  • Passes curtos para deslocar oponentes e criar homem livre para progredir a bola;
  • Jogadores em amplitude para receber em condições de avançar e ganhar terreno (ou passar pelo defensor);
  • Grande número de jogadores na última linha de ataque para afundar e manipular a linha de defesa.

Na atual temporada já é possível perceber como cada jogo é diferente para o City. Contra o Brighton, quem dava amplitude eram os laterais, enquanto os pontas entravam nos meio-espaços e os meias recuavam — e havia pouca progressão pelo lado com conduções.

Diante do Wolves, um time mais passivo do que o Brighton, a amplitude veio dos pontas, que teriam mais tempo e espaço para enfrentar um bloco defensivo baixo. Contra o Tottenham, uma mistura dos dois cenários.

Um Manchester City cada vez mais radical

As mudanças e o planejamento de adaptação de Guardiola também é visto no mercado de transferências. Na última janela, contratou Reijnders, um meia com boa capacidade de chegada à área e que brilha em espaço aberto, e Cherki, o completo oposto: um criador de espaços curtos.

Isso dá ao treinador as possibilidades que ele precisa para cada cenário e isso ficou evidente na atual temporada: contra times mais agressivos, que pressionam alto e, principalmente, com encaixes individuais, o Manchester City será um time muito mais direto.

Foi o caso contra o Brighton — colocando seus pontas pelo meio, criava movimentos fora-dentro, saindo da pressão pelo lado e levando a bola ao espaço que foi criado no meio — e teve sua epítome diante do Arsenal.

Manchester City tem sido mais direto há meses, como no Mundial (Foto: Reprodução/CazéTV)

Contra o Manchester United, Pep fez o City pressionar ainda mais alto e feroz do que o seu tradicional, mas que isso abrisse espaços. Uma vez que garantiu vantagem, fez mudanças no time para criar um 5-4-1 bastante retroativo e sair no contra-ataque. Contra o Huddersfield, foi um time clássico guardiolista: dominou com a bola e sufocou o adversário com 75% de posse.

O “medo de perder” contra Arteta, seu principal pupilo, fez o City ter seu pior número de posse de bola na era Guardiola e criou um jogo discutivelmente pouco atrativo. Tornou-se estranho ver um time de Pep defender baixo e sair em velocidade, mas o ciclo parece ter chegado perto da sua rotação total — onde o criador tem que duelar contra sua própria criação.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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