Europa

Um russo desconhecido mudou o futebol para sempre e você deveria conhecê-lo

Décadas antes de Guardiola e Rinus Michels, um técnico soviético revolucionou o futebol com ideias à frente de seu tempo

Por mais que nomes como Pep Guardiola, Johan Cruyff e Rinus Michels estejam no panteão das grandes mentes táticas da história do futebol, é possível que nenhum deles tivesse encantado o mundo se, décadas antes, um técnico quase anônimo da União Soviética não tivesse ousado pensar diferente. Seu nome era Boris Arkadyev.

Muito antes de se falar em “Futebol Total” ou no famoso “tiki-taka”, Arkadyev já via o jogo como uma coreografia coletiva — uma construção onde a movimentação e o espaço contavam mais do que os nomes nas camisas.

A revolução russa do futebol

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Boris Arkadyev, lendário treinador russo (Foto: Divulgação/Lokomotiv Moscou)

Nos anos 1930, o futebol ainda dava os primeiros passos em termos de organização tática. Na Inglaterra, Herbert Chapman rompia com a tradicional pirâmide (2-3-5) ao introduzir o WM (3-2-2-3). Enquanto isso, na então URSS, Arkadyev colocava o Metallurg Moscou entre os primeiros colocados no que seria o embrião do Campeonato Russo.

Seu sucesso o levou ao comando do Dínamo de Moscou, e foi nesse período que o treinador cruzou com o futebol dos bascos, que estavam em uma turnê internacional, e percebeu o quanto o futebol soviético precisava evoluir taticamente. A partir daí, Arkadyev começou a aplicar ideias que ainda hoje são consideradas modernas: ataque com troca constante de posições, movimentação ofensiva sem bola e ocupação inteligente dos espaços.

Seus atacantes corriam, trocavam de posição e confundiam defesas que, acostumadas à marcação individual, não sabiam como reagir. Na época, o padrão do WM era defender em uma espécie de zona. Para abrir espaços na defesa, era necessário que alguém puxasse a marcação e, para que não deixassem os jogadores do Dínamo sozinhos, os adversários começaram a defender individualmente — mais um ponto de inovação, mesmo que indireta, para o russo.

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Da defesa à cobertura: o nascimento da linha de quatro?

Ao observar que seus jogadores atacavam sem parar, Arkadyev também notou a necessidade de uma defesa mais estruturada. Começou a testar a cobertura de espaços deixados por companheiros, algo que hoje é fundamento básico em qualquer time organizado. Para isso, recuou um dos meio-campistas, criando um embrião do que viria a ser a linha de quatro defensores.

Embora não tenha sido creditado oficialmente como o inventor do 4-2-4, popularizado fortemente pelo Brasil de 1970, foi quem ao menos fundou suas bases.

Sua visão também incorporava influências improváveis, como da esgrima — o contra-ataque veloz, a troca de posições como surpresa, e o desequilíbrio do adversário como arte. Tudo isso com um valor: o coletivo acima do individual.

Do leste para o centro da Europa (e o esquecimento britânico)

WM Finale 1954 in Bern – Mannschaftsvorstellung Ungarn, v.li.: Ferenc Puskas, Torwart Gyula Grosics, Gyula Lorant, Nand
Hungria vice-campeã da Copa de 1954, um dos times que beberam da fonte de Arkadyev (Foto: Imago)

Nas Olimpíadas de 1952, Arkadyev comandou a seleção soviética e apesar de ser afastado após a eliminação precoce, seu estilo deixou marcas. Em turnês no Reino Unido, os soviéticos mostraram ao mundo a passovotchka – um toque de bola curto e incessante que lembrava, ainda que rudimentarmente, o tiki-taka do futuro.

Os britânicos, no entanto, não aceitaram bem a ideia de um jogo baseado na coletividade e na movimentação. Fiéis à tradição dos pontas dribladores e do jogo centrado em talentos individuais, viram na proposta soviética uma afronta ideológica, ainda mais por vir de uma nação comunista.

A resistência não impediu, porém, que outros países do leste e da Europa Central adotassem os conceitos de Arkadyev. A Hungria dos anos 1950, com Ferenc Puskás como líder, foi o exemplo mais brilhante. O estilo coletivo, de ataque por aproximação e jogadores versáteis, nasceu de uma matriz que vinha de Moscou.

Da União Soviética a Guardiola: a linhagem de uma ideia

A contribuição de Arkadyev ecoou em diferentes gerações. O Carrossel Holandês da década de 1970 e a Espanha campeã de 2008 a 2012 foram herdeiros dessa lógica coletiva e fluida. O próprio Guardiola, muitas vezes tratado como o maior inovador do século XXI, é parte de uma linhagem que não começa com ele, mas sim com um soviético quase esquecido.

Até experiências recentes, como o Audax de Fernando Diniz ou o Real Betis de Quique Setién, reciclam princípios criados por Arkadyev: a valorização do passe, a ocupação dos espaços, o posicionamento interdependente.

Pep Guardiola, técnico do Manchester City (Foto: Imago)

Enquanto isso, quem rejeita essa mentalidade, como o Brasil de Dunga em 2010, ou times que giram exclusivamente em torno de um craque, muitas vezes repete fórmulas do passado, com resultados previsíveis.

Ainda há espaço para o novo?

O futebol moderno continua sendo influenciado por mudanças de regra, como a do impedimento no início do século XX e a do tiro de meta de 2019. Mas a pergunta que permanece é: ainda há espaço para inovações reais? E, quando elas surgem, o mundo está disposto a aceitá-las?

A trajetória de Boris Arkadyev é um lembrete de que muitas das ideias que hoje consideramos revolucionárias já foram pensadas antes, mas ignoradas. O desafio, no futebol e fora dele, parece ser o mesmo: abrir espaço para o novo, mesmo quando ele vem de onde menos se espera.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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