Por que o Celtic vive uma das piores temporadas da história do clube?
Resultados ruins, crise institucional e aposta em técnico desconhecido ajudam a explicar momento delicado do gigante escocês
O Celtic vive um dos momentos mais delicados de sua história recente, e os sinais de desgaste vão muito além das quatro linhas. A combinação de resultados ruins, decisões contestadas da diretoria e a chegada de um treinador cujo perfil destoa da tradição do clube, criou um ambiente de instabilidade que hoje atinge desempenho, identidade e relação com a torcida.
No Campeonato Escocês, o cenário já é incômodo por si só. O Celtic ocupa a segunda colocação, seis pontos atrás do Hearts — uma distância significativa para quem historicamente domina a competição ou, ao menos, rivaliza ponto a ponto com o Rangers (atual terceiro colocado).
Mais do que a posição na tabela, pesa a sensação de perda de autoridade: a equipe oscila, desperdiça pontos e não consegue impor o ritmo que sempre marcou sua atuação no futebol doméstico.
A temporada começou a escapar de forma simbólica na final da Copa da Liga. A derrota para o St Mirren não representou apenas a perda de um troféu, mas um golpe na imagem de um clube que construiu sua hegemonia a partir de hierarquia, intensidade e pressão constante.
Desta vez, The Bhoys se mostraram incapazes de se sobreporem a um adversário de investimento muito inferior, reforçando a leitura de um time frágil justamente nos momentos em que costuma ser mais forte. O revés por 3 a 1, no último domingo (14), foi justo.
Na Liga Europa, o retrato é igualmente preocupante. O Celtic aparece na parte inferior da tabela e, no recorte atual, seria o último classificado ao playoff — 24º colocado. A equipe escocesa soma duas vitórias, um empate e três derrotas, com sete gols marcados e 11 sofridos.
A temporada do Celtic até o momento:
- Vice-líder do Escocês — seis pontos atrás do Hearts;
- Vice-campeão da Copa da Liga Escocesa;
- 24º colocado da Liga Europa
Crise do Celtic começa fora de campo

Antes mesmo dos resultados em campo se deteriorarem de vez, o ambiente institucional já dava sinais de ruptura. No fim de novembro, a assembleia-geral anual do Celtic precisou ser encerrada após somente 25 minutos, em meio à vaias, cartões vermelhos exibidos por acionistas e gritos de protesto contra a diretoria.
A cena, amplamente repercutida pela imprensa britânica, expôs de forma pública uma relação desgastada entre instituição e torcedores.
O episódio evidenciou um dos principais focos de insatisfação apontados localmente: a percepção de falta de comunicação e de responsabilidade por parte da diretoria.
A reação do clube, classificando os protestos como conduta “disruptiva” de um pequeno grupo, pouco contribuiu para apaziguar os ânimos. Pelo contrário. Reforçou a sensação de distanciamento entre quem comanda o Celtic e quem o sustenta nas arquibancadas.
A escalada de tensão ganhou contornos ainda mais graves nos últimos dias. O presidente do Celtic, Peter Lawwell, anunciou sua renúncia alegando ter sido submetido a um tratamento “intolerável” por parte de uma parcela da torcida. A decisão veio após a derrota para o St Mirren na final da Copa da Liga — resultado que, além do impacto esportivo, aprofundou a crise institucional do clube.
O diretor executivo Michael Nicholson revelou que, após a decisão, ao menos três funcionários do Celtic foram vítimas de agressões, episódio que levou a cúpula do clube a se posicionar publicamente sobre o ambiente hostil vivido nos bastidores. A situação expôs um nível de ruptura raro na história recente dos The Bhoys e reforçou a leitura de que o desgaste já havia ultrapassado o campo das críticas esportivas.
A saída conturbada de Brendan Rodgers, no fim de outubro, acabou se tornando mais um capítulo de um ambiente já deteriorado. Ídolo recente e um dos treinadores mais bem-sucedidos da história do Celtic, Rodgers deixou o cargo em meio a críticas públicas, tensões internas e questionamentos sobre o planejamento esportivo.
Para parte da imprensa escocesa, o episódio simbolizou de maneira definitiva a quebra de confiança na condução do futebol do time.
O ex-Liverpool encerrou sua trajetória com 83 vitórias, 20 empates e 20 derrotas. Ao todo, contando sua primeira passagem pelo Celtic (2016–2019 + 2023–2025), ele conquistou 11 títulos, sendo quatro campeonatos nacionais.
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A aposta em Wilfried Nancy e o choque de expectativas

Foi nesse contexto que o Celtic decidiu apostar em Wilfried Nancy, treinador com carreira valorizada na MLS, onde construiu reputação positiva e trabalhos bem avaliados à frente de CF Montréal e Columbus Crew.
A escolha foi tratada como ousada desde o início, sobretudo por representar uma ruptura com o perfil mais habitual de técnicos que passaram pelo gigante escocês nos últimos anos.
Em suas primeiras declarações após ser anunciado, o francês falou em implementar um futebol “ofensivo”, “empolgante” e baseado em princípios claros com a bola, destacando a importância de organização e coragem para jogar. Nancy chegou com o discurso de desenvolver um time que se sentisse confortável em propor o jogo, mesmo sob pressão.
O desafio, no entanto, sempre esteve menos nas ideias em si e mais no contexto em que elas seriam aplicadas.
O Celtic carrega uma tradição de intensidade imediata e pressão constante, especialmente no cenário doméstico, onde quase sempre atua como favorito. A adaptação de um treinador vindo da MLS, em sua primeira experiência no futebol europeu e em meio a um ambiente já tensionado, tornou-se um processo naturalmente delicado.
E os primeiros jogos sob o comando do novato já evidenciaram essa dificuldade de transição. Em quatro partidas, o Celtic sofreu quatro derrotas, sem conseguir apresentar uma resposta imediata ou uma identidade clara que sustentasse o discurso inicial.
A troca no comando técnico, que poderia funcionar como ponto de inflexão, acabou ampliando a sensação de instabilidade.
A escolha por Nancy e os resultados deixaram os torcedores ainda mais incomodados com o clube, já que Martin O’Neill assumiu interinamente após a saída de Rodgers. E nem ter vencido sete dos oito jogadores que comandou fez com que a direção do Celtic mantivesse um dos ídolos do clube.
Após a última derrota do clube, contra o Dundee United, nesta semana, os torcedores que fizeram a viagem cantaram o nome de O’Neill, que revelou em entrevistas que gostaria de ter assumido o cargo.
Resultados ruins, mas problemas mais profundos

O início negativo de Nancy alimenta a pressão imediata, mas a leitura local vai além da figura do treinador. Para muitos analistas e torcedores, o elo entre o fracasso final de Brendan Rodgers e as dificuldades atuais passa diretamente pela sala de reuniões. A crise seria menos fruto de decisões isoladas e mais consequência de um acúmulo de erros, disputas internas e falta de direção clara.
Nesse cenário, o Celtic parece viver uma crise de identidade. O time não se impõe como antes, não encontra conforto no novo modelo e tampouco transmite segurança de que há um plano consistente sendo seguido.
A sensação é de um clube que abandonou suas referências sem conseguir construir novas.
Ainda há temporada pela frente e margem matemática para reação, mas os sinais de alerta são difíceis de ignorar. A distância no campeonato, o título perdido, a campanha europeia decepcionante, o início desastroso do novo treinador e a rebelião aberta da torcida, formam um conjunto que aponta para algo maior do que uma simples fase ruim.
O Celtic segue em campo, mas o debate já extrapolou o futebol jogado. O que está em jogo agora é a definição de um rumo: que identidade o clube quer sustentar e quem, de fato, será responsabilizado se a temporada confirmar o caminho de frustração que hoje se desenha.



