Como o Bayern revolucionou o futebol com Kompany ‘dinizista’, Kane ‘volante’ e risco altíssimo
Ex-zagueiro de Guardiola tem transformado o gigante alemão em um dos times mais ousados das últimas décadas no futebol europeu
O futuro é sempre nebuloso. Algo novo pode ganhar força sem dar as caras e surpresas podem acontecer. O Bayern de Munique de Vincent Kompany, no entanto, está abrindo a trilha para o futuro do futebol.
Os gigantes alemães têm o melhor ataque do futebol europeu. São 64 gols na atual temporada e 41 em apenas 11 jogos de Bundesliga. Nas cinco grandes ligas, apenas o Barcelona chega perto, com 36 gols em 13 jogos. Abrindo o leque para as sete principais, o PSV tem uma média próxima, mas inferior (3,3 gols por jogo).
Mais do que os números, a forma como o Bayern chega ao gol adversário é pouco usual no futebol de alto nível. Kompany tem se mostrado um técnico com ideias extremamente agressivas e arriscadas — com, geralmente, apenas dois jogadores fazendo cobertura do ataque, muito altos no campo e seis atacando a linha defensiva.
Ainda assim, curiosamente, nenhum time conseguiu quebrar o 2-2-6 ousado do Bayern de Munique. Nem mesmo o PSG, que foi dominado na Champions League. Mas, afinal, o que explica o sucesso dos bávaros?
Bayern tira o relacionismo dos românticos e coloca no pedestal
O debate sobre relacionismo e Jogo de Posição têm sido frequente na última década. Em uma era dominada pelo segundo e com expoentes solitários e com sucessos esporádicos do primeiro, Kompany pode ser o primeiro a transitar entre os dois e ter grande sucesso com a ousadia.
No papel, o Bayern de Munique segue saindo em um 4-2-3-1 que foi o carro-chefe da equipe por décadas. Da que venceu a Champions League pré-Guardiola, em 2013, à máquina de Hansi Flick em 2021. Mas o que acontece depois do apito é completamente diferente.
A ideia, agora, é encontrar espaços, independente de onde estejam. As trocas de posição são frequentes, os zagueiros fazem corridas em profundidade e Harry Kane chegou a viralizar com um mapa de calor e uma quantidade de lançamentos da defesa dignos de volante.

Essa movimentação é treinada, obviamente, mas acontece de forma natural uma vez que os jogadores entendem onde há o espaço e para onde devem ir — e, consequentemente, quem cobrir. A primeira fase de construção é inicialmente simples, geralmente com quatro jogadores na linha de defesa e dois apoios centrais. Kimmich, por exemplo, é muito importante nesse modelo.
Como um dos volantes do 4-2-3-1, ele recua perto dos zagueiros e, geralmente, ocupa a posição do lateral-direito — que, por sua vez, avança. Isso gera dúvidas na defesa:
- O sistema de pressão adversária persegue Kimmich e o pressiona?
- Se sim, cria-se espaço para o lateral que avançou pelo meio, ou o ponta que ocupou esse espaço (enquanto o lateral avançou pelo lado);
- Se não, Kimmich, um jogador extremamente criativo e habilidoso, tem tempo e espaço para avançar
E em um futebol em que a pressão individual tem tomado conta do alto nível, o Bayern usa isso para fixar marcadores adversários e abrir espaço na construção. Quando laterais e volantes, por exemplo, avançam, eles puxam seus opositores e liberam espaço no meio para os zagueiros avançarem com a bola.
The way Bayern attack is really good. They often tilt to one side of the pitch with players in close proximity in small areas which they generate intuitive passing combos/third man runs whilst opening up the other side with a free man.Great blend of positional play & relationism. pic.twitter.com/FPWJFVvkPF
— Sultan B. A. (@stzysultan) October 1, 2025
Caso os adversários pressionem alto em uma mistura de pressão individual e por zona, os bávaros também os convidam a avançar para lançar bolas longas e aproveitar o domínio físico de jogadores como Kane e Goretzka, ou a velocidade dos pontas para serem acionados em profundidade.
É por isso que não demora para o time de Kompany chegar às áreas mais avançadas do campo, onde as coisas ficam ainda mais interessantes do ponto de vista tático.
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O 2-2-6 maluco de Kompany e por que dá certo
As formações ofensivas durante a última década passaram a colocar cada vez mais jogadores atacando a última linha de defesa. Como os times geralmente defendiam com quatro defensores, esquemas com cinco na frente se tornaram populares.
Do City de Guardiola à seleção brasileira de Tite, a grande maioria atacava em organização ofensiva com algo parecido com um 2-3-5 ou 3-2-5. Com o passar do tempo, os adversários começaram a defender com linhas de 5, e já não havia mais a superioridade numérica. Agora, Kompany tem popularizado o 2-2-6.
No entanto, a estrutura dos seis à frente é tão fluida ao ponto de que, na verdade, os zagueiros adversários pouco têm o que fazer durante as primeiras fases de construção do Bayern. Kane e Gnabry descem para ajudar no meio-campo e deixam esse espaço vazio — porque a ideia da equipe é ter superioridade numérica em todos os momentos do jogo.

Isso dá algumas opções para a equipe interpretar a construção do ataque:
- Se os zagueiros acompanham seus opositores e sobem muito, cria-se um grande espaço para bolas longas encontrarem os pontas em profundidade;
- Se não acompanham, quem desce para ajudar no meio sempre gera superioridade numérica e o Bayern tem mais apoio para levar a bola adiante;
- Se um lateral sai de posição para acompanhar Kane, por exemplo, o ponta fica livre para receber.
Setorizar o campo como regra e a pitada de Guardiola
A ideia de Kompany é, a grosso modo, dividir a entrada ao último terço de duas formas: pelos corredores e pelo meio. E, na maior parte do tempo, o Bayern procura avançar pelos lados.
Aqui, existem regras a serem seguidas:
- É obrigatório que o lado do campo seja composto sempre por dois jogadores — um em amplitude e o outro no meio-espaço;
- Quem são esses jogadores é indiferente. Geralmente, é uma combinação de ponta e lateral ou meia. E quem está em qual posição varia de preferência individual;
- O principal: estes dois não podem estar na mesma linha de passe. Sempre deve haver um aberto, próximo a linha lateral e preferencialmente empurrando a defesa para trás, e outro mais próximo do meio.
Dividir o campo dessa forma é algo muito frisado por Pep Guardiola, que foi multicampeão com Kompany no Manchester City. A ideia de nunca ter jogadores na mesma linha nas laterais não foi inventada por ele, mas foi algo que o catalão sempre bateu na tecla, desde os tempos de Barcelona.

O Bayern tem a tendência de avançar pelos lados e, quando estão em vias de entrar no último terço, lotar a região central. A equipe coloca muitos jogadores próximos da bola na lateral e usa de corridas em profundidade de diferentes direções para chegar à área.
Quando Olise recebe aberto pelo lado direito, por exemplo, o lateral ataca a profundidade pelo meio-espaço, Gnabry aproxima vindo do meio e um dos volantes também avança para entrar na área. E ao mesmo tempo em que muitos jogadores se aproximam do lado da bola, há sempre dois responsáveis por alargar o campo, ficando próximos à outra linha lateral.
Isso permite que o adversário não feche totalmente os espaços no lado da bola — porque liberaria espaço no outro lado para um jogador livre. E faz com que esses jogadores do outro lado possam aproveitar espaços no meio que forem abertos por conta da superlotação no lado forte. São simplesmente muitas opções para entrar na área.
A defesa surpreendentemente dominante
O fato do Bayern ser agressivo como poucos times no mundo com suas trocas de posições e corridas em profundidade, na teoria, faria com que a equipe ficasse comprometida na defesa. Mas isso não poderia ser menos verdade.
É o time com menos gols esperados (xG) concedidos por contra-ataques na Bundesliga. Em todas as cinco grandes ligas, seus oito gols sofridos só não são menores do Arsenal, Como e Roma (seis cada).
E essa excelência defensiva se dá pela intensidade na transição.
Assim que perde a posse, o Bayern pressiona ferozmente o adversário com a bola. Esse movimento é ainda mais fácil justamente porque a equipe tem vários jogadores perto da bola por conta da natureza do seu ataque — e seus próprios defensores estão altos, facilitando a interceptação de bolas longas.
Para além da transição, a fase de organização defensiva também mantém os mesmos princípios. O Bayern pressiona alto com orientação individual e não se atém a uma formação específica: persegue seus adversários mesmo que isso desfaça o esqueleto do time.
E quando precisa defender ainda mais baixo, não é incomum ver a equipe com uma linha de seis defensores dentro da área, mas posicionados de forma muito curiosa: com pouca amplitude, fechando a área e convidando o adversário a jogar pela lateral.

Isso faz com que o Bayern sempre esteja protegido na zona mais perigosa (a área e a entrada dela), e mesmo que o oponente receba com espaço na lateral, o defensor mais próximo não estará tão longe para pressioná-lo por conta da linha de seis.
Se Kompany bebeu da fonte de Guardiola em determinadas ações no ataque, a forma de defender agressiva e que é pouco vazada também veio do catalão, que montou times muito sólidos defensivamente ao longo de toda a carreira — apesar de nem sempre ser lembrado por isso.



