‘Quando Xabi Alonso começava a falar, todos ouviam porque ele não era falso’
Depoimento de Xhaka em documentário detalha liderança do jovem treinador no Bayer Leverkusen e contrasta com o início turbulento no Real Madrid
A DAZN lançou “O Arquiteto: Do Mito ao Desafio”, documentário de 70 minutos que revisita a trajetória de Xabi Alonso e aprofunda o olhar sobre sua construção como treinador. A produção se distancia do enfoque puramente esportivo para explorar os bastidores de um técnico que, mesmo no início da carreira, conseguiu estabelecer autoridade e identidade próprias no Bayer Leverkusen.
Um dos depoimentos mais reveladores é o de Granit Xhaka. O meio-campista suíço, líder técnico e emocional da equipe, relembra o impacto imediato de Xabi no vestiário, especialmente em um contexto no qual o treinador ainda não tinha experiência em grandes palcos do futebol europeu na nova carreira.
— Ele não tinha experiência em grandes palcos. Isso é certo. O que ele tinha era personalidade. Quando entrava no vestiário e começava a falar, todos ficavam completamente concentrados. Porque o ouviam. Porque cada palavra que ele dizia era verdadeira. Ele não estava apenas repetindo o que os outros diziam. Ele não era falso. Era autêntico. E eu acho que quando um jogador sente que você é autêntico, não importa se você ganha ou perde. Você ainda conquista o respeito dele.
Xhaka aponta que essa autenticidade foi decisiva para a relação entre treinador e elenco. Em um ambiente naturalmente marcado por vaidades, Alonso se destacou por ignorar hierarquias artificiais e critérios externos, concentrando-se quase que exclusivamente no desempenho esportivo.
— Todos os times têm egos, sem dúvida, mas ele não se importava com os grandes nomes. E ele não se importa com o valor da transferência. Ele só se importa com o que vê em campo. Ele quer ver você lutar. E se você treinar bem, ele lhe dará uma chance. É isso que eu mais admiro no Xabi.
O relato ajuda a explicar por que Xabi Alonso conseguiu acelerar seu processo de afirmação como treinador. Sem recorrer ao peso do passado como jogador, ele construiu respeito a partir de convicções claras, exigência diária e coerência entre discurso e prática — elementos que o documentário aponta como fundamentais para a consolidação de seu projeto no Leverkusen.
À frente do clube alemão, o ex-volante fez história ao guiar a equipe ao título inédito da Bundesliga 2023/24, encerrando a longa hegemonia do poderoso Bayern de Munique. Além disso, levantou a Copa da Alemanha e a Supercopa da Alemanha, coroando uma temporada marcada pela invencibilidade nacional e por uma das campanhas mais dominantes da história recente do futebol europeu.
Xabi Alonso não vem repetindo o mesmo sucesso no Real Madrid

O cenário é distinto desde a chegada ao Real Madrid. Anunciado em maio deste ano para substituir Carlo Ancelotti — hoje à frente da seleção brasileira —, Xabi Alonso assumiu um clube em outro estágio de exigência, pressão e exposição. O jovem técnico encontrou um ambiente menos paciente, no qual o peso da camisa e a urgência por resultados encurtam prazos e reduzem margens para ajustes graduais.
Dentro de campo, o início tem sido marcado por instabilidade. O Real ocupa a vice-liderança de LaLiga e aparece na sétima colocação da fase de liga da Champions League, números que, embora competitivos, não refletem o domínio esperado pela torcida merengue. A equipe oscila mais do que o padrão histórico do clube permite, alternando boas atuações com jogos pouco convincentes — sinal de que o modelo ainda não se consolidou.
Fora das quatro linhas, a adaptação também apresenta ruídos. A gestão de elenco, um dos pontos fortes de Xabi no Leverkusen, ainda não encontrou o mesmo equilíbrio em Madri. A condução de algumas situações internas levanta questionamentos, e o caso de Vinicius Junior — que esbravejou ao ser substituído no clássico contra o Barcelona — surge como exemplo emblemático desse processo ainda em construção.
Em um plantel repleto de estrelas, a gestão de egos e expectativas tem se mostrado mais complexa do que no Leverkusen, onde Xabi tinha maior controle do ambiente e do processo.



