Como as torcidas na Alemanha se uniram para preservar a cultura local de estádios
De silêncio ensurdecedor a carta gigante, protestos de torcedores mostram força da mobilização
Não é todo dia que se vê uma carta gigante em arquibancada de estádio de futebol, então já era de se esperar que a iniciativa de torcedores do Borussia Dortmund no Signal Iduna Park antes do jogo da Copa da Alemanha contra o Bayer Leverkusen atraísse o olhar de diversas partes do mundo.
“Os estádios são seguros”, dizia a chamada do enorme cartaz, endereçado à IMK, Conferência do Ministério do Interior alemão. O órgão teria planejado realizar mudanças na entrada de torcedores às arenas de futebol no país.
A carta gigante foi apenas um dos vários movimentos contrários ao que os ministros ambicionariam implementar. Fãs de futebol protestavam em território alemão desde a Data Fifa de novembro e posteriormente conquistaram o objetivo, o que reforçou como a união entre torcidas, mesmo rivais, tende a ser fundamental em pautas coletivas.
Algumas medidas em discussão seriam colocar:
- reconhecimento facial
- inteligência artificial
- ingressos personalizados
- verificação de identidade “mais rigorosa”.
Guilherme Ferreira, jornalista no “OneFootball” e especializado na cobertura do futebol alemão também pelo podcast “Chucrute FC”, enfatiza que a resistência às eventuais mudanças tem relação com proteção de dados e privacidade.
— Algo cultural dos ultras, dos torcedores organizados na Alemanha, é o fato de eles não serem identificados individualmente. Eles gostam de manter esse anonimato e serem algo mais coletivo dentro das arquibancadas. Vendo ferramentas de reconhecimento facial e ingressos personalizados, eles enxergam esse anonimato nas arquibancadas de certa forma ameaçado — diz ele à Trivela.
Com ‘atmosfera insuportável’, protestos ganham força no futebol da Alemanha
As torcidas responderam à ativação do “Fanszenen Deutschland”, grupo que reúne torcedores organizados do futebol no país.
O coletivo e seus membros consideraram que as ideias do ministério não têm motivação justificada e os estádios já são seguros o suficiente. Além disso, destacaram receio de isso atrapalhar o ambiente nas arquibancadas.
— As declarações da IMK destroem a cultura do torcedor livre. A experiência de ir aos estádios pode ser prejudicada — afirmou o grupo em comunicado.
A mobilização chegou até os jogos. Em Hertha Berlin x Eintracht Braunschweig no dia 21 de novembro, pela Bundesliga 2, os primeiros 12 minutos de bola rolando foram de silêncio nas arquibancadas do Olympiastadion Berlin.
— A atmosfera estava insuportável — comentou o técnico Stefan Leitl, do Hertha, à imprensa.
Só quando o cronômetro chegou a 12:01 os cantos começaram.
Além do silêncio “ensurdecedor”, parte da torcida exibia faixas que condenavam as mudanças propostas. Uma delas com a pergunta: “Será que este é o futuro do futebol?“.
— O futebol pertence aos torcedores. Isso deve ser levado a sério. Ninguém precisa de um jogo tão silencioso — declarou Heiner Backhaus, técnico do Braunschweig.

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Entidades alemãs saem em defesa das torcidas
Torcedores continuaram o protesto silencioso na Alemanha ao longo das duas últimas semanas de novembro, com foco em evitar que as ditas propostas evoluíssem para decretos na reunião do Ministério do Interior, marcada para ocorrer entre 3 e 5 de dezembro em Bremen.
De acordo com a publicação “Kicker”, políticos e policiais comumente criticavam a “falta de rigor” na entrada nos estádios, e torcedores temeriam a personalização de ingressos e a proibições de acesso apoiadas em suspeitas geradas por inteligência artificial.
O ministro do Interior da Baviera, Joachim Herrmann, negou que bilhetes personalizados e reconhecimento facial estivessem em pauta. “Acho irresponsabilidade espalhar pânico entre torcedores com alegações falsas e envenenar o debate sobre segurança com acusações infundadas”, disse ele à “Kicker”.
De qualquer forma, o presidente da Federação Alemã (DFB), Bernd Neuendorf, e o diretor-geral da Liga Alemã (DFL), Marc Lenz, fizeram uma reunião com a comissão de torcedores do país.
As entidades afirmaram em comunicado que as supostas intenções da IMK “não são eficazes para melhorar a segurança nos estádios e não são aceitáveis para os milhões de torcedores que seriam afetados por elas”.

As críticas seriam principalmente no que diz respeito à personalização de ingressos, que acabaria inevitavelmente com as áreas destinadas a torcedores que assistem aos jogos em pé, e à potencial demora que seria verificar a entrada de um por um.
A nota dizia ainda que DFB e DFL estão focadas em encontrar soluções “adequadas e eficazes que atendam aos interesses do futebol, otimizem a segurança das partidas e reduzam as horas de atuação da polícia”.
O que ficou determinado na IMK?
A Conferência do Ministério do Interior da Alemanha terminou com apenas uma decisão concreta neste caso, segundo o “Bild”: haverá uma comissão responsável por checar a parte de proibições de acessos aos estádios.
A principal responsabilidade dessa frente é fazer supervisão jurídica e técnica com o objetivo de evitar infratores e pessoas com histórico de violência. Em tese, não houve mudança drástica.
A instituições regionais “descentralizadas” mantêm a responsabilidade de gerenciar e eventualmente brecar entradas ou impor sanções. A diferença é que agora há uma comissão acima delas.
A adoção de ingressos personalizados e reconhecimento facial foram descartados, segundo a mídia alemã. É mais uma vitória para a aliança de torcidas do país.
— O fato de o Ministério do Interior ter recuado nestas propostas que estavam em discussão inicialmente também indica a força que elas têm dentro do cenário do futebol e da cultura alemã como um todo. Não é a primeira vez que algo semelhante acontece. Não é a primeira vez que torcidas de diferentes clubes alemães se unem em prol de uma causa e alcançam seu objetivo — afirma Ferreira.
O jornalista relembra alguns dos casos mais recentes. Protestos foram feitos contra a realização de jogos da Bundesliga às segundas-feiras em 2018, e a liga precisou voltar atrás ao término do período do contrato de direitos televisivos. Desde 2021/22 as partidas do Campeonato Alemão seguiram a programação de jogos às sextas, sábados e domingos graças às mobilizações populares.

Também houve manifestação contra a venda de 8% da Bundesliga para investidores externos em 2024. “Seria uma parcela até pequena a ser vendida, e mesmo assim as torcidas se colocaram contra. Todas se unindo em prol de uma única causa. Em todos esses casos a gente vê como as torcidas alemãs conseguem ter uma voz forte quando se unem e conseguem alcançar os objetivos por meio dos protestos“, salienta ele.
— Esses movimentos podem servir de inspiração para torcidas e outros lugares, inclusive no Brasil, porque vemos várias questões que são de interesse comum a todas as torcidas. Segurança dentro de estádios, a forma como são tratados pela polícia, venda de ingressos, a porcentagem de ingressos destinada à torcida visitante, enfim, são muitas questões que impactam diretamente e de forma igual ou semelhante a todas as torcidas do Brasil. Acho que, se todas se unissem em prol de uma causa, defendendo pautas comuns, a chance de elas serem ouvidas seria muito maior. Acho que algumas pautas importantes teriam a atenção que merecem — conclui o jornalista.



