Por que o futebol tem esvaziado o meio depois de priorizá-lo por tanto tempo
Por anos, ideia do futebol era preencher o meio para ter controle. Agora, nova tendência é o oposto completo
Desde a inversão da pirâmide, na quebra do 2-3-5 arcaico do início do esporte, a ideia do futebol é “equilibrar” o campo. Há exemplos na história daqueles que preferiram aumentar a última linha, como no catenaccio italiano dos anos 1960, e dos que encheram o campo de meias para ter o controle. A tendência nas últimas décadas foi ser igual o segundo exemplo.
A ascensão de Pep Guardiola no Barcelona no fim dos anos 2000 moldou o futebol dos últimos 15 anos. A ideia, na maior parte dos times de alto nível, era preencher o meio com controladores e armadores, manter a posse e, a partir de regiões centrais, encontrar espaço para entrar no último terço.
Desde a temporada passada, no entanto, há quem vá contra essa tendência — e acaba criando uma nova onda. Curiosamente, treinadores “guardiolistas”, como Luis Enrique no PSG, Enzo Maresca no Chelsea e até mesmo Pep no Manchester City, têm, cada vez mais, deixado um buraco proposital no meio-campo. Por quê?
Esvaziar o meio para atacá-lo: a nova tendência mundial
O PSG foi um dos grandes percursores da tendência, principalmente pelo sucesso com o qual a executou em jogos de grande exigência. Na Champions League, por exemplo, condicionou toda a partida de ida da semifinal contra o Arsenal por um gol que saiu dessa forma.
Aproveitando a pressão alta e com encaixes individuais dos Gunners, o PSG atraiu um grande número de adversários para a defesa, mudou a orientação da pressão para o lado esquerdo propositalmente para criar espaço no meio — de frente para o gol e, sem marcação, uma região muito mais perigosa de se progredir.
No lance, Vitinha e Fabián Ruiz, os volantes, oferecem apoio central para depois atraírem seus marcadores para fora do meio. Isso abre espaço para Ousmane Dembelé aparecer livre no círculo central.

Sem um opositor próximo o suficiente, Dembelé tem tempo e espaço para conduzir, e o time francês também está em vantagem numérica: são cinco jogadores atacando a última linha do Arsenal, que tem quatro defensores.
Na sequência do lance, Khvicha Kvaratskhelia recebe em profundidade e faz um cruzamento para trás, rasteiro, para o próprio Dembelé, que ficou na intermediária enquanto os demais companheiros atacavam a profundidade, empurrando a linha de defesa para perto do gol e abrindo espaço na entrada da área.
Esse padrão da equipe de Luis Enrique se repetiu inúmeras vezes. Nas oitavas de final, no jogo dramático da volta contra o Liverpool, foi a mesma coisa: os Reds pressionaram forte e individualmente, os meias parisienses desceram em apoio e Nuno Mendes deu um passe idêntico para Dembelé, novamente, receber no círculo central sem marcação e gerar o gol que levaria o jogo aos pênaltis.
No Mundial de Clubes a tendência seguiu em alta. Pep Guardiola inovou com sua forma de usar laterais e pontas, mudando suas funções em comparação com trabalhos anteriores, e tem feito o time usar mais o espaço gerado ao tirar a concentração do meio.

O padrão é parecido: jogadores da última linha atacam a profundidade para empurrar a defesa, meias e pontas vão para as laterais para abrir espaço no meio e, após um passe de ruptura, Ilkay Gündogan aproveita para atacar o ponto cego da defesa no meio esvaziado e fazer o quarto gol do City.

Por que essa nova onda surgiu?
No contexto do futebol, novidades táticas aparecem para contrariar um padrão que tem feito sucesso. Nesse caso, foi um efeito dominó gerado pelo próprio preenchimento do meio, a onda anterior:
- Com mais jogadores povoando o meio para manter a bola, os times passaram a construir com passes curtos de cada vez mais atrás — até mesmo do goleiro, que passou a ter essa habilidade;
- Para dificultar isso, as defesas começaram a ser mais agressivas: a marcação pressão se tornou cada vez mais comum no alto nível, e as linhas defensivas tomaram posições mais altas no campo;
- Para não ter a pressão manipulada facilmente em caso de marcação puramente individual, os times passaram a pressionar de forma híbrida: marcam em bloco alto, por zona, fechando linhas de passe, e quando há um gatilho — seja bola para trás ou para a linha lateral –, avançam para pressionar de forma individual;
- Com o objetivo de contornar isso, criou-se a ideia de criar armadilhas para a pressão. Nessa nova onda, o adversário é “convidado” a pressionar com passes para trás ou para os lados na defesa, para que haja espaços abertos atrás da pressão, principalmente no meio — que, com o movimento lateral do time com a bola, passou a ser esvaziado.
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Futuro ainda mais perigoso para o “camisa 10 clássico”
The number 10 position is not dead at all.
🇦🇷 Franco Mastantuono (17).
🇵🇹 Rodrigo Mora (17).
🇬🇷 Konstantinos Karetsas (17).
🇪🇨 Kendry Páez (17).
🇷🇸 Andrija Maksimovic (17).These 5 Numbers 10s (all from different countries) are the future of football. pic.twitter.com/OFDsu9AWUm
— Rising Stars XI (@RisingStarXI) April 19, 2025
Se antes o estereótipo do meia armador clássico, o enganche imóvel que faz a bola correr, já era considerado em extinção, a nova tendência de esvaziar o meio pode ter cavado a sua cova.
Ainda existem diversos “camisas 10” no futebol moderno, que são grandes armadores, habilidosos e “à moda antiga”, diferente do que muitos pensam. A diferença é que hoje, esse jogador, além de fazer tudo o que os seus antepassados faziam, também é muito mais móvel, tem noção de cobertura de espaços e assume papéis cruciais também sem a bola.
O camisa 10 moderno sabe impactar o jogo com e sem a bola, enquanto o mágico dos anos 1990 e 2000 era um a menos sem ela — e, como na seleção natural, não conseguiu se adaptar à evolução.
Em um jogo em que os meias precisam abrir para os lados (e serem efetivos caso recebam a bola nessa região), ocupar espaços entrelinhas, buscar jogo como volantes em apoio e atacar as costas da defesa, esse tipo de jogador precisa ser o mais completo possível.
Talvez a nova onda possa eliminar alguns estereótipos de jogadores e fazer com que funções de muita especificidade percam força. Mas também é mais um passo no darwinismo do futebol, que pede cada vez mais “todocampistas” em todo o campo.



