De regista a enganche: As posições cruciais do futebol que você não presta atenção
Ao longo das décadas, novas funções surgiram e perderam espaço, mas mudaram a forma como o futebol era e é jogado
Mudanças nas regras do jogo, ideias revolucionárias e jogadores diferenciados foram alguns dos motivadores da evolução do futebol. Isso criou espaço para que algumas posições — e, mais ainda, funções — específicas se sobressaíssem em determinadas eras do esporte.
Expressões como regista e enganche talvez, para o jogador de Football Manager, possam não ser estranhas. Mas antes mesmo do jogo existir, essas funções já eram cruciais para o esporte, mas o que isso significa? O que esses jogadores fazem em campo?
O meio, onde tudo acontece e há um mar funções
Regista

O nome “regista” vem da Itália, onde esse tipo de função se tornou popular, e pode ser traduzido como “aquele que rege”. No entanto, esse jogador é o armador mais recuado do time.
Em um esquema 4-3-3, o regista seria o primeiro volante. A responsabilidade desse jogador evoluiu e se tornou cada vez mais importante na história recente, tanto que volantes têm quebrado recordes no mercado de transferências, como foram os casos de Moises Caicedo e Declan Rice.
Nos primeiros anos da profissionalização do futebol, quando o 2-3-5 era a formação padrão, o regista era o meio-campista central. Era o responsável por acionar os atacantes, principalmente com bolas longas, como era comum na época.
Conforme os times foram se adaptando defensivamente a esse tipo de jogadores, diferentes estilos de registas surgiram. Luis Suárez é um grande expoente da posição na Inter de Milão dos anos 1960, jogando à frente de três zagueiros e atrás de quatro atacantes no 3-3-4 da equipe campeã europeia.
Mas o regista não atua necessariamente sozinho. No título mundial de 1970, a seleção brasileira usou Gérson nessa função ao lado de Clodoaldo, um volante mais combativo, em seu clássico 4-2-4.
Nas últimas décadas, Andrea Pirlo e Xabi Alonso foram os maiores exemplos de registas — agora, ambos técnicos. Sergio Busquets e Rodri dominaram a função pela Espanha nas últimas décadas, enquanto Frenkie De Jong e Ryan Gravenberch são outros exemplos.
Trequartista

O trequartista é uma das versões do camisa 10 “clássico”, como caiu no jargão popular. Aquele que geralmente atua à frente dos dois meias centrais e atrás da linha de ataque.
A nomenclatura remete a “três quartos”, o que implica que o jogador não precisa seguir à risca uma posição de meia-atacante — a questão é sobre estar à frente do último quarto de ataque.
Esse jogador não segura sua posição e busca espaços para criar jogadas. Por isso, são os meias que têm grande capacidade de passe e drible. Na defesa, por outro lado, é uma função sem muitas responsabilidades, que acaba se juntando ao centroavante na hora de formar o sistema defensivo.
O Milan de Carlo Ancelotti nos anos 2000, usando seu 4-3-1-2, acabava liberando um trequartista entre as linhas para flutuar. Kaká foi, no seu tempo de Calcio, um grande expoente desse estilo.
Francesco Totti foi outro exemplo de trequartista, até quando atuava como centroavante na Roma — ele descia até o meio para orquestrar o ataque, com os demais meias avançando no seu espaço. Lorenzo Insigne e Alessandro Del Piero, por exemplo, eram trequartistas que atuaram pelo lado, enquanto Lionel Messi também teve essa função durante parte da sua carreira.
Enganche

Vindo da Argentina, o enganche teve como expoente maior Diego Maradona. Durante a época de ouro argentina, os anos 1970 e 80, essa função se tornou ainda mais importante.
Na década de 70, o 4-3-3 usual dos argentinos contava com um meio-campista combativo, um de transição e um 10 clássico, que seria o enganche. Por conta das adaptações adversárias e problemas defensivos gerados por ter um jogador como esse, os clubes, e principalmente a seleção, passaram a usar o 4-3-1-2, para que o jogador pudesse atuar entre essas linhas com liberdade.
Enganche, em espanhol, significa “gancho”, que simboliza esse tipo de atleta: é o foco do ataque, responsável por levar a bola de trás para frente. Uns podem ser mais móveis que outros, a exemplo do próprio Maradona.
O grande nome dessa função é, sem dúvidas, Juan Roman Riquelme. O exemplo do camisa 10, quase imóvel, que recebe e aciona seus companheiros, que correm em volta dele. Ariel Ortega também pode ser classificado nessa lista e Paulo Henrique Ganso, no Brasil, é outro exemplo icônico da posição, que também contou com nomes como Mesut Özil em anos recentes.
Mezzala
KING KEV IS HERE 👑
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— Official SSC Napoli (@sscnapoli) June 12, 2025
Outra função popularizada na Itália, o mezzala é conhecido por seu trabalho de “meio-ponta”. É aquele meia, geralmente em uma linha de três, que tem a habilidade técnica e velocidade para conduzir e construir o ataque pelos lados.
Os grandes nomes nessa função vêm de mentes italianas, mais uma vez: Carlo Ancelotti, em sua passagem pelo Real Madrid, usava Ángel Di María, ponta durante toda sua carreira, na linha de três meio-campistas em seu 4-3-3.
O argentino, habilidoso para costurar a defesa, seguia seus movimentos padrões de ponta: começava no meio, mas se movimentava para os lados no ataque. Foi assim principalmente na final da Champions League contra o Atlético de Madrid em 2013/14, quando fez um dos grandes jogos da sua carreira.
Outro exemplo fez sucesso em Turim: Blaise Matuidi atuava dessa maneira na Juventus e passou a ser aproveitado na seleção francesa para ocupar espaços pelos lados, e foi crucial na Copa do Mundo de 2018. Kevin De Bruyne, em seu auge no Manchester City, também teve sucesso na função.
Raumdeuter

A expressão inusitada foi levada a público por Thomas Müller em 2011. Foi o modo que o alemão usou para descrever o seu estilo de jogo, que não se encaixava nos padrões, e pode ser traduzida como “quem procura por espaços”.
Geralmente, o raumdeuter joga pelos lados do campo, mas pode atuar pelo meio. Afinal, Müller já foi de tudo: meia, segundo atacante, ponta, centroavante. Pouco importa a posição no campo, mas sim o lugar que o jogador ocupa partindo da sua área de atuação.
O raumdeuter não é um jogador que se destaca em uma característica específica. Müller, por exemplo nunca foi veloz, nem um ótimo armador em termos de passes plásticos, tampouco um exímio driblador, mas era excelente em encontrar espaços na defesa adversária.
Esses jogadores acabam não tendo a liberdade no ataque como um trequartista, mas se movem para onde a oportunidade puder ser melhor aproveitada. É a maneira de se posicionar e infiltrar no último terço do campo que os diferencia.
Além de Müller, outros exemplos de raumdeuters das últimas décadas foram Delle Ali e José Callejón. No caso do inglês, era difícil saber qual a posição exata dele em seu auge no Tottenham — não era um armador, nem um driblador criativo para ser ponta, não tinha o trejeito de um atacante, mas sabia ocupar espaços liberados pelos companheiros.
Geralmente, o raumdeuter não recebe o crédito como os seus companheiros que lhes dão o passe. Eram atletas como Arjen Robben, Christian Eriksen e Lorenzo Insigne, usando os exemplos, os considerados os gênios do time — mas sem seus companheiros, poderiam sequer ter a opção de passe para dar a assistência.



