O que a seleção brasileira precisa resolver a 50 dias da Copa do Mundo
Jogar em 4-3-3 ou 4-2-4? Qual a prioridade defensiva? Ancelotti ainda tem dúvidas para a Copa
Há 50 dias, as dúvidas da seleção brasileira para a Copa do Mundo existiam em praticamente todos os setores, mesmo que pequenas. O Brasil jogará sem um centroavante? Quem será o lateral-direito? Quem substitui Casemiro? Algumas delas parecem ter sido respondidas, mas, a 50 dias do Mundial, ainda existem outras.
Desde o marco de 100 dias para a Copa, a Data Fifa de março foi a única nova experiência que Carlo Ancelotti pôde ter antes da lista final. E ele não deixou de fazer testes mesmo contra os adversários mais difíceis do seu ciclo: França e Croácia.
Agora, no entanto, as novas questões são mais afuniladas e tocam em pormenores:
- A Seleção voltará ao 4-3-3 ou jogará no 4-2-4?
- O time deixará de pressionar alto como padrão em todos os jogos?
- Matheus Cunha é falso nove ou “camisa 8”?
- Com Estêvão, Raphinha é meia, ponta-esquerda ou falso nove? E onde Vinicius Júnior entra nesse bolo?
A principal questão ‘macro’ da seleção brasileira: 4-3-3 ou 4-2-4?
O 4-2-4 parecia consolidado na era Ancelotti. Teve boas atuações contra Chile, Coreia do Sul e Senegal dessa forma e havia estipulado seus padrões maiores: construir por baixo, buscando passes de ruptura entrelinhas com dinâmicas de terceiro homem e progredir majoritariamente pelo meio, com aproximações de pontas, meias e atacantes.
Essa ideia se perdeu em algumas partidas, apesar das ótimas atuações que mostrou. Talvez pelo fato de Ancelotti ter usado um time titular diferente em todos os seus 10 jogos na Seleção, em dados momentos, o time buscava lançamentos longos ou verticalizava muito rapidamente, sem a pausa que teve nos bons jogos.
Isso aconteceu principalmente contra a França, em que não conseguiu sair da pressão e procurou bolas longas sem rumo. E foi além com o fato de que o time não conseguia roubar a bola, dada a pressão alta que sempre se encontrava em desvantagem na construção de 3-2 com apoios dos atacantes francês — um tema que voltaremos a falar.
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O Brasil já havia jogado em 4-3-3 com Ancelotti, principalmente nos primeiros jogos. Mas, contra a Croácia, o retorno da formação veio com mudanças maiores e que pareceram promissoras.
Na construção em 4-1, ambos os laterais ficaram baixos para sustentar a saída de bola e os meias, nas diagonais de Casemiro, criavam diferentes linhas de passe. Na esquerda, Matheus Cunha como meia era versátil para também atacar a profundidade e puxar seu marcador, liberando espaço para Vinicius Júnior cair da ponta para o meio.
Esse movimento foi crucial para quando o Brasil não conseguia sair tão limpo pelo centro. Se a bola ia para o lado esquerdo, Cunha subia, Vini aparecia e, com sua capacidade de sustentar a pressão e conduzir, ajudava o time a subir. No outro lado, Ibañez, que foi o lateral-direito, invertia levemente para o meio, para abrir espaço para o passe do zagueiro para a ponta-direita.
Nesse jogo, a construção por baixo foi priorizada, mesmo sob pressão, e a movimentação de laterais, meias e pontas fez com que o Brasil tivesse boas sequências de posse de bola. Para entrar no último terço, aproveitou bons duelos ofensivos pelos lados de Vini e Luiz Henrique, pontas clássicos, com a chegada de Matheus Cunha e Danilo, os camisas 8.
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O 4-3-3 foi animador, mas não só pela formação: a ideia central de jogo que fez sucesso com o 4-2-4 foi minimamente mantida. Mesmo que os padrões de construção tenham variado, o foco de progredir por baixo e com aproximações e ataques aos espaços livres foi mantido.
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Uma decisão importante: qual a prioridade na defesa?
Em toda a era Ancelotti, pode-se dizer que o Brasil teve apenas um jogo sólido de pressão defensiva: contra Senegal. Na ocasião, Éder Militão era o lateral-direito que conseguia equilibrar subidas de pressão sem quebrar a linha defensiva, enquanto o Brasil fechava principalmente os apoios centrais e levava Senegal às laterais e os obrigava a lançamentos.
A ideia central nesse jogo era que o time pressionasse alto e forte, fechando opções de passe pelo meio, o que fazia os senegaleses buscarem inversões. Nessas diagonais longas, Militão foi crucial para antecipar e roubar a bola. Foram criadas chances de perigo com a Seleção defendendo desse jeito.
A questão é que esse padrão não se repetiu. Antes, contra o Chile, também teve bons momentos de pressão, mas contra um adversário muito mais fraco. Mas diante de times que construíam com três atrás, como Japão e França, sofreu bastante nesse sentido.
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Os japoneses manipularam os encaixes individuais da seleção brasileira por terem vantagem numérica na construção. Isso obrigava que algum brasileiro saísse de posição e abria espaço para lançamentos “curtos”, mas que passavam da linha de pressão.
Contra a França, a descida de um dos volantes desmontava a pressão brasileira e criava um 3×2. Mais do que isso, atacantes como Michael Olise e Ousmane Dembélé desciam para povoar o meio, que ficava ainda mais em vantagem para progredir.
Já contra a Croácia, que também saía com três defensores, Ancelotti mudou a estratégia. Ainda defendendo em 4-4-2, como aconteceu durante a imensa maioria do tempo desde que chegou, o foco não era mais saltar nos zagueiros, mas puramente fechar os volantes.
Os atacantes brasileiros deixavam os zagueiros croatas tocarem a bola, mas impediam que ela chegasse a Luka Modric e Petar Sucic. Isso obrigou a Croácia a muita movimentação, passes mais arriscados e uma posse de bola sem grande ímpeto.
Sem pressão, o melhor momento defensivo do Brasil é quando fecha os apoios centrais e obriga os adversários a repensarem sua rota. Isso, mesmo que possa fazer o time parecer mais passivo defensivamente, pode ser uma opção mais sólida de organização do que tentar pressionar sem o melhor padrão ter sido encontrado.
Como fica o ataque para a Copa do Mundo?
Talvez a maior questão para Carlo Ancelotti ainda seja o time ideal. Em uma Copa do Mundo, nem sempre os 11 que começam o primeiro jogo se mantém, e a final pode ser disputada com outro esquema e com um reserva que se tornou crucial. Mas a dúvida brasileira neste momento ainda é qual o ataque principal.
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Isso depende do esquema. No 4-2-4, com Rodrygo principalmente, Vini e Cunha eram a dupla de atacantes: um de profundidade, o outro falso nove. Vini já foi ponta no 4-2-4 contra a França, por exemplo, quando Joao Pedro e Cunha formaram a dupla à frente após a saída de Martinelli — mas não foi bem.
Mas Vini na esquerda do 4-3-3 contra a Croácia, por exemplo, foi muito bem. Muito diferente do teste como falso nove contra o Japão, quando não conseguiu exercer o que se esperava da função. Luiz Henrique, como ponta-direito, foi bem nas duas formações, apesar de, no 4-2-4, entrar majoritariamente como o reserva que “bagunça” no fim do jogo.
Matheus Cunha, por sua vez, também foi falso nove e meia de fato, e teve boas atuações nas duas funções. Raphinha foi ponta pela direita e tem bons momentos na esquerda pelo Barcelona, caindo pelo meio e sendo um criador dinâmico — o que poderia fazê-lo um substituto ideal para a função de Rodrygo no 4-2-4.
Estêvão foi o melhor jogador da era Ancelotti, mas conviveu com algumas lesões no Chelsea e não esteve na última Data Fifa. Se seguir como o ponta titular pela direita, onde Raphinha entrará, por exemplo? E se o 4-3-3 se sustentar, Cunha virando meia de origem, quem será o centroavante titular? João Pedro foi o escolhido contra a Croácia, mas Igor Thiago pode ser considerado, além de Endrick.
Fato é que Ancelotti tem menos dúvidas hoje do que tinha faltando 100 dias. Entende-se, pelos testes, que há uma clara intenção de Éder Militão ser o lateral-direito e o time precisará de um zagueiro canhoto a todo momento. O lateral-esquerdo não deve subir tanto e alguns jogadores, se saudáveis, são intocáveis. Mas, faltando 50 dias para a Copa do Mundo, ainda há questionamentos não respondidos para a seleção brasileira.