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Brasil vê França elevar estratégia de Ancelotti em derrota com escolha curiosa de prioridades

Derrota por 2 a 1 mostrou uma seleção brasileira que mais lembrava a estreia de Ancelotti

A seleção brasileira perdeu para a França nesta quinta-feira (26) por 2 a 1, em amistoso que deixou gosto amargo. Para além da derrota, o maior teste do time de Carlo Ancelotti antes da Copa do Mundo acabou mostrando uma equipe que não manteve seu padrão que fez mais sucesso e “regrediu” à estreia do italiano.

O Brasil foi a campo com seu tradicional misto de 4-2-3-1 com 4-2-4. Entre as dúvidas, algumas foram respondidas: Gabriel Martinelli foi titular no lugar do lesionado Rodrygo na ponta-esquerda e Raphinha assumiu a direita, onde Estêvão vinha atuando. A dupla de ataque se manteve, enquanto a de zaga foi completamente nova.

Curiosamente, a França também teve seu próprio 4-2-4, com diversos dos padrões criados pelo Brasil de Ancelotti, mas elevados a outro nível: muitas trocas de posição, pontas que recuavam na primeira fase de construção e que mudaram o jogo.

Contra França, Brasil lembra estreia de Ancelotti

Se a equipe de Ancelotti vinha consolidando um estilo de jogo de posse com construção priorizando o meio com tabelas, aproximação dos pontas e verticalidade com a bola, isso não pareceu ser prioridade contra a França.

Em um primeiro tempo com apenas 35% de posse de bola para a Seleção, diversos fatores contribuíram para esse cenário. Talvez o principal tenha sido a postura brasileira: buscava passes longos e em profundidade quase que de forma constante.

Léo Pereira não fez grande jogo contra a França
Léo Pereira não fez grande jogo contra a França (Foto: Imago/Sports Press Photo)

Se pressionados, Léo Pereira e Bremer tentavam constantes bolas longas, mas sem um grande alvo. O jogador do Flamengo principalmente não teve tanto sucesso em construção, tanto em decisões quanto em execução.

A derrota para os franceses lembrou a estreia de Ancelotti, contra o Equador. Na ocasião, o Brasil empatou sem gols, mas foi praticamente ineficiente com a bola justamente porque buscou acelerar muito sua construção. A ideia era verticalizar a todo momento e buscar profundidade sem grande critério.

Para além da postura e possivelmente o plano de jogo de não priorizar a progressão curta pelo meio — apenas “possível”, até que haja confirmação de Ancelotti –, a França soube pressionar de forma que forçasse o Brasil a sair longo.

A Seleção construiu em 4-2 e foi pressionada de forma espelhada na saída de bola. Dois atacantes pressionavam os zagueiros, enquanto pontas e volantes fechavam as linhas de passe. Mbappé direcionava a pressão para a esquerda, fechando o passe de Ederson, e forçando a bola a sair por Léo Pereira. Então, toda a França fechava as opções mais próximas e obrigava um lançamento.

França condicionou construção do Brasil a lançamentos ruins
França condicionou construção do Brasil a lançamentos ruins (Foto: Reprodução/GETV)

Os problemas na construção da Seleção

Além disso, havia grande distância entre o quarteto ofensivo e a primeira fase de construção. Se zagueiros e volantes estavam pressionados, os pontas seguiam abertos e profundos, sem a movimentação padrão da era Ancelotti, em que caíam pelo meio e recuavam. Matheus Cunha, quem mais se aproximava, pouco conseguia fazer.

Isso também se deu pelo 4-1-4-1 francês em organização defensiva. Os quatro da linha do meio espelhavam os volantes pelo meio e impediam progressão pelos lados, enquanto Tchouaméni, o volante mais recuado, fazia a guarda do entrelinhas que Cunha tentava ocupar. Com o meio marcado e sem aproximações vindo de outras posições, o Brasil foi ineficiente ofensivamente.

Em raros momentos, Casemiro descia entre os zagueiros para gerar uma saída em três, com Cunha descendo mais para formar um 3-2. Mas, ainda assim, a prioridade parecia ser a bola longa ineficiente.

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Como a França usou estratégia consolidada do Brasil para dominar

Até a expulsão de Upamecano, aos 10 minutos do segundo tempo, a França dominou o jogo. O principal motivo foi a forma como construiu, o que casa com outro dos fatores pelos quais o Brasil teve apenas 35% de posse na primeira etapa.

O time de Didier Deschamps partia de uma linha de quatro defensores, mas que contava com duas movimentações cruciais para desmontar a marcação brasileira:

  • Um dos volantes, Tchouaméni ou Rabiot, descia entre os zagueiros para formar uma saída em três;
  • Olise e Dembélé desciam pela direita para ajudar na construção, praticamente como volantes.

Com uma saída em três, naturalmente criava-se uma vantagem contra o 4-4-2 defensivo brasileiro. Com Vini e Cunha como os atacantes que espelhavam os zagueiros, um volante a mais criava vantagem numérica para progredir.

Para além disso, um dos atacantes descendo gerava mais uma opção de passe que, na maior parte do tempo, estava desmarcada. Isso porque Douglas Santos ou Léo Pereira não saíam de posição para acompanhá-los — porque, se o fizessem, liberariam grande espaço na defesa.

Olise e Dembélé descendo para ajudar a construção criou ainda mais vantagens contra a marcação
Olise e Dembélé descendo para ajudar a construção criou ainda mais vantagens contra a marcação (Foto: Reprodução/GETV)

No segundo tempo, Bremer fez isso: acompanhou Ekitiké para pressioná-lo durante todo o campo e foi parar quase na intermediária adversária. O resultado foi a origem do segundo gol francês: saíram da pressão e o camisa 22 rompeu no espaço gerado pelo zagueiro, que desconfigurou a linha de quatro.

Em determinado momento no primeiro tempo, o Brasil muda a estratégia de pressão: Raphinha, na esquerda naquele momento, sai da linha de quatro para subir a pressão e igualar os três franceses na primeira linha.

No entanto, a descida de Olise ainda era impactante. O meia do Bayern de Munique aparecia para ser apoio no meio-espaço e, quando a bola saía pelo lado, atacava o espaço no mesmo corredor. No lance que originou o primeiro gol da França, ele receberia a bola livre dessa forma, se não fosse um passe errado. Mas Léo Pereira, que estava livre, deu um passe ruim para Andrey que, mesmo consertando, acionou um Casemiro sob pressão que perdeu a bola e gerou o gol de Mbappé.

Olise desce para ajudar na construção e usa espaço criado entrelinhas
Olise desce para ajudar na construção e usa espaço criado entrelinhas (Foto: Reprodução/GETV)

As lições táticas de Brasil x França

Em um duelo de 4-2-4, prevaleceu não necessariamente quem tinha jogadores melhores ou mais talento reunido, mas quem priorizou usá-lo. O mais curioso, no entanto, é que o Brasil vinha se consolidando com esse estilo.

A França abusou de trocas de posições, construções pelo corredor central e meio-espaços, além de troca de passes curtos tabelas e ultrapassagens. Tudo o que o Brasil fez, por exemplo, em suas grandes atuações contra Coreia do Sul e Chile, mas passou longe de repetir nos EUA.

No segundo tempo, já desmanchando a formação central, Luiz Henrique se mostrou uma ótima arma para passar por defesas com enfrentamentos individuais. Mesmo que a França não estivesse necessariamente com grande trabalho defensivo e baixando linhas compactas, o ponta do Zenit desequilibrou e criou as melhores chances do time.

Vinicius Júnior, no entanto, fez um jogo apagado. Errou passes, perdeu a bola 18 vezes e em muitos momentos, principalmente na segunda etapa, quando se tornou um ponta mais tradicional, se limitou a esperar a bola no pé para construir sozinho.

A lição que fica do maior teste da Seleção até o momento é amargo. Uma derrota construída a partir de um domínio sem esforço dos franceses, mesmo que não tenha sido um amasso no jeito clássico de se ver.

A França não precisou se esforçar: construiu sem constrangimentos, passou pela pressão de forma fácil e condicionou a construção brasileira a falhar. Depois, com um a menos por praticamente 45 minutos, se defendeu bem e não cedeu grandes chances.

O Brasil de Ancelotti agora vai enfrentar uma Croácia que também gosta da bola e tem dinâmicas positivas para dominar o jogo com a posse. Resta saber quão diferente o time irá ao jogo.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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