Brasil a 100 dias da Copa do Mundo: As dúvidas e certezas de Ancelotti na Seleção
Parte considerável do time de Carlo Ancelotti está encaminhada, mas ainda há vagas e dúvidas em algumas posições
A seleção brasileira estreia na Copa do Mundo de 2026 no dia 13 de junho, daqui a exatamente 100 dias. Com uma convocação em março em que Carlo Ancelotti promete definir os últimos testes, este mês será crucial para atacar as incógnitas do time.
Mesmo com uma base sólida, é inegável que o período de Ancelotti é de testes desde o início. Nas quatro primeiras Datas Fifa, o italiano convocou 48 jogadores ao todo e usou 42 deles ao menos uma vez. Mais do que isso: nunca repetiu uma escalação.
Nesse ponto do trabalho, são poucas as dúvidas no elenco, mas ainda cruciais: quem serão os laterais titulares, e quais exatamente suas funções? E quem substituiria Casemiro caso necessário?
A principal pendência de Ancelotti: os laterais do Brasil
Desde que chegou, em julho do ano passado, o ex-comandante do Real Madrid testou 11 jogadores como laterais, nove de origem e dois zagueiros “improvisados”. Também convocou Luciano Juba, que não chegou a estrear.
Na direita, foram testados Vitinho, Paulo Henrique, Vanderson, Wesley, Danilo e Éder Militão. Na esquerda, foram Alex Sandro, Caio Henrique, Carlos Augusto, Douglas Santos e Lucas Beraldo.

De todos, Wesley esteve presente em todas as convocações, mesmo que tenha sido cortado de uma depois. Caio Henrique foi quem mais jogou, com quatro jogos (metade de todas as partidas na era Ancelotti).
Os números são claros indícios de testes.
Na direita, quem mais animou foi Militão. Fez grande jogo contra a até então invicta seleção de Senegal: foi crucial para permitir que o Brasil pressionasse alto de forma coordenada e, mesmo que o Brasil tenha mudado levemente a forma de construir, não foi impactado pelo fato dos dois laterais na ocasião (Militão e Alex Sandro) não subirem tanto.
No entanto, o jogador do Real Madrid se lesionou — sua condição física atrapalhada por contusões é uma questão a ser avaliada — e deve perder a Data Fifa de março. Saudável, deve estar na Copa, mas sua função ideal ainda é uma dúvida que Ancelotti deve tirar somente nos últimos amistosos, no fim de maio e começo de junho.
Além de Militão, Wesley e Vanderson são os outros dois que concorrem pela titularidade. Ambos oferecem algo diferente de Militão: amplitude e profundidade para empurrar a defesa, chegar à linha de fundo e, principalmente, permitir que o ponta-direito caia pelo meio-espaço.
Wesley teve altos e baixos, com momentos defensivos ruins que roubaram a cena do que levou de positivo no ataque. Vanderson foi mais seguro, mas não teve grandes momentos em nenhum dos dois lados.
Na esquerda, quem mais chamou a atenção foi Douglas Santos. Contra o Chile, seu único jogo, foi o lateral que ficou com os zagueiros na construção em 3-1, mas soube ler espaços e subir quando necessário — inclusive, foi com seu ataque à profundidade no meio-espaço que saiu o primeiro gol do jogo.
Caio Henrique, quem mais jogou, fez de tudo um pouco. Foi o lateral mais aberto que avançava, inverteu para se aproximar de Casemiro em construção em 3-2 e atacou o meio-espaço. Alex Sandro também teve uma média consistente, mas sem grande entusiasmo.
A impressão para as laterais da seleção brasileira é de que, na direita, Militão é a opção mais segura, mas que pode impactar o ponta; na esquerda, nenhuma opção brilhou os olhos, apesar de não comprometer — e não parece ter espaço para grandes disputas.
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O calcanhar de Aquiles da seleção brasileira: quem substitui Casemiro?
Já foi Fernandinho, Fabinho e, mais recentemente, André, João Gomes e Andrey Santos. Testes foram feitos, mas o Brasil ainda não encontrou um substituto ideal para Casemiro.
Com Ancelotti, a resposta parece ser Andrey. O jogador do Chelsea foi convocado três das quatro vezes possíveis e esteve em três jogos. Ainda não teve grande amostragem na própria Seleção, mas tem crescido nos Blues na atual temporada.
O teste com Fabinho, na última Data Fifa, pode representar resquícios de dúvida para Ancelotti. O perfil necessário é mais físico, defensivo e conservador? O volante do Al-Ittihad voltou depois de muito tempo ausente na Seleção e jogou 30 minutos contra a Tunísia.

André recebeu espaço com Fernando Diniz e, por um momento, pareceu casar perfeitamente com a ideia do treinador na seleção, até as críticas surgirem. Chegou a ser convocado por Ancelotti uma única vez e jogou poucos minutos. Seu companheiro João Gomes, presença quase garantida antes do italiano, foi chamado uma vez, mas não entrou em campo.
Lucas Paquetá já foi sondado como possível para substituir Casemiro, a depender da situação. Nomes como Gerson, Jean Lucas, Éderson e Andreas Pereira também foram chamados no meio, mas não solidificaram seu espaço.
A dupla de volantes titular de Ancelotti é óbvia: Casemiro e Bruno Guimarães.
Quem os rodeia é outra questão (que ainda abordaremos) e pode moldar a configuração do time. Sem Casemiro, Bruno pode ser volante ao lado de Paquetá, por exemplo? O 4-2-4 só funciona por conta da segurança do camisa 5?
Ainda há perguntas a serem respondidas para a Copa sobre a posição de volante, mas não parecem tão graves. A dúvida maior é para o próximo ciclo — esse, possivelmente, já sem Casemiro.
Com ou sem centroavante: como o Brasil vai jogar na Copa do Mundo?
A dúvida sobre os volantes também está ligada com toda a configuração do meio para frente. A seleção brasileira com Ancelotti jogou principalmente em variáveis entre 4-3-3, 4-2-3-1 e 4-2-4.
Muitos testes foram feitos. Os melhores jogos do Brasil nessa era foram com Vinícius Júnior como um centroavante de mobilidade, que ataca a profundidade e tem liberdade para cair pelos lados, ao lado de um falso nove, geralmente Matheus Cunha ou João Pedro.

Houve situações em que Vini foi o falso nove, como no jogo contra o Japão, e não teve tanto sucesso. Contra os japoneses, o padrão dos pontas também mudou: Martinelli e Luiz Henrique, titulares, eram mais jogadores de um contra um pelos lados e profundidade. Diferente de Estêvão e Rodrygo, por exemplo, que caíam mais pelo meio como armadores.
Contra o Chile, primeira grande exibição do time, João Pedro foi o falso nove com Raphinha como camisa 10, criando dinâmicas para que os dois alternassem sua posição e caíssem pelos lados, para liberar espaço para os pontas. Também foi positivo.
A dúvida no ataque é positiva, sobre como reunir tanto talento. Os melhores jogos vieram com uma base de Rodrygo e Estêvão como pontas e Vini e Matheus Cunha como centroavantes. Onde entraria Raphinha, por exemplo?
O astro do Barcelona jogou como ponta-direita contra o Paraguai, em um 4-2-4 com Vini e Cunha como centroavantes e Martinelli na esquerda. Se joga como ponta, tiraria Estêvão, possivelmente o principal jogador da era Ancelotti. Como camisa 10, impacta na saída de um falso nove ou até de Vinicius Júnior, que parece impensável. Na esquerda, Rodrygo também foi grande destaque.
Fato é que o Brasil não jogou com um centroavante de referência em nenhum momento com Ancelotti. A ideia de aglomerar talentos próximos entre si e priorizar construção pelo meio, com tabelas e manipulação de espaços entrelinhas para atacar a profundidade, parece ter sido o grande sucesso da passagem do italiano até o momento.
A Data Fifa de março deve ser a consolidação do que Ancelotti tem feito para chegar muito perto do que deve ser a lista oficial. Em maio e junho, os últimos testes já com o 26 da Copa do Mundo. E, há 100 dias, Neymar parece ter uma corrida gigantesca contra o tempo — mas não impossível de ser vencida.



