Brasil

Como Ancelotti soube driblar perguntas espinhosas e evitou (maiores) polêmicas na Seleção

Com tom apaziguador, treinador italiano foi colocado 'na fogueira' em vários momentos, mas soube contornar situação

Carlo Ancelotti completa nesta segunda-feira (18) seu primeiro objetivo à frente da seleção brasileira, cerca de um ano após assumir a posição de treinador, ao anunciar a convocação final para a Copa do Mundo de 2026. Entre dezenas de atletas testados, observações in loco, derrotas, vitórias e empates, nos amistosos e Eliminatórias, o italiano mostrou experiência — e esperteza — para driblar polêmicas e perguntas espinhosas na Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

Esta não é a primeira vez que Ancelotti disputará uma Copa do Mundo. Em 1994, também nos Estados Unidos, fez parte da comissão técnica da vice-campeã Itália. À frente da seleção brasileira, o treinador precisou driblar diversas perguntas, feitas por jornalistas — que vieram aos montes, antes mesmo de ser anunciado pela CBF.

Em 2023, Ancelotti foi dado como certo, pelo então presidente Ednaldo Rodrigues, como sucessor de Tite. As crises na CBF, e a renovação com o Real Madrid, adiaram este objetivo até 2025. O italiano tinha o desejo de assumir a seleção, mas enquanto tinha contrato na Espanha, nunca confirmou publicamente este interesse.

Carlo Ancelotti, técnico da seleção brasileira (Foto: IMAGO / Fotoarena)
Carlo Ancelotti completa um ano à frente da seleção brasileira neste mês (Foto: IMAGO / Fotoarena)

Entre reafirmar seu vínculo com o Real Madrid, e negar quaisquer acertos com a CBF, Ancelotti tentou blindar sua própria imagem na Espanha. Em 2023, a CBF entendia que tinha um acordo verbal com o treinador; o italiano, entretanto, nunca confirmou essa ida ao Brasil — e estendeu seu contrato ao final daquele ano até a temporada 2025/26.

Já em 2025, próximo de assinar o contrato com a CBF, manteve a mesma postura: negou as negociações com o Brasil e manteve o foco no Real Madrid. “Essa é uma pergunta (ida à seleção brasileira) que não sou eu que respondo. O contrato é muito claro: resta mais um ano. Do futuro, falaremos ao final da temporada”, afirmou, em abril — um mês antes de ser anunciado por Ednaldo Rodrigues.

Confira aqui a lista de todas as seleções já convocadas para a Copa do Mundo.

Trocas de gestão não atrapalharam chegada de Ancelotti à seleção brasileira

Ancelotti era o grande desejo de Ednaldo. O presidente da CBF chegou a conversar com Jorge Jesus após a primeira recusa do italiano, e apostou em Ramon Menezes, Fernando Diniz e Dorival Júnior até fechar com o nome “ideal”. Poucos dias depois de ter o treinador anunciado, Ednaldo foi deposto do cargo pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ), substituído por Samir Xaud.

Desde que chegou à seleção brasileira, Ancelotti nunca abordou essa ruptura institucional na CBF. A pessoas próximas, e à própria CBF, relatou que seu contrato foi assinado com entidade, não com Ednaldo. Logo em seu anúncio, na sede da entidade, o treinador elogiou Xaud e a nova gestão. Ao mesmo tempo, não teceu comentários a respeito do cenário político na CBF.

Carlo Ancelotti e Samir Xaud, durante sorteio da Copa do Mundo
Carlo Ancelotti e Samir Xaud, durante sorteio da Copa do Mundo (Foto: IconSport)

— Rodrigo (Caetano) já fazia grande trabalho aqui (na seleção). Quando cheguei, encontrei tudo muito bem organizado, profissionais sérios, competentes. CBF é muito bem organizada. Presidente jovem, como Samir (Xaud), nos ajuda a ter um ambiente saudável — exaltou o treinador em seu anúncio.

Com bom humor, o treinador não apresentou dificuldades com o português durante este ano no Brasil. Também participou de ações comerciais de marca de cerveja e até passou o Carnaval na Sapucaí.

Não é à toa que sua renovação contratual foi oficializada, na última quinta-feira, até a Copa do Mundo de 2030.

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Neymar vai para a Copa do Mundo, e Ancelotti manteve postura firme sobre camisa 10

Outro dilema que marcou as entrevistas de Ancelotti foi Neymar. Não pela presença do atacante, mas sim pela sua possível ausência até a última lista. Nas cinco convocações à frente da seleção brasileira, o treinador não incluiu o camisa 10 em nenhuma. Ele reconheceu a importância e qualidade do jogador, maior artilheiro da história da Seleção, mas não chegou a convocá-lo antes desta segunda-feira.

Sempre que questionado, Ancelotti exaltou a qualidade do atacante. Entretanto, evitava maiores polêmicas, ressaltou que Neymar só voltaria a ser convocado caso estivesse recuperado fisicamente — algo que não ocorreu durante o ciclo pré-Copa do Mundo. A última vez em que ele defendeu a Amarelinha havia sido em 2023, em duelo como Uruguai, quando também rompeu o ligamento cruzado do joelho.

— É uma decisão técnica que se baseia em muitas coisas: o que o jogador está fazendo, o que já fez e o problema que tem tido. Quando falo do critério físico, é um critério que toda comissão considera muito importante. Disse em outra coletiva que ninguém pode discutir Neymar a nível técnico — afirmou em setembro, quando também incluiu o atacante na pré-lista das Eliminatórias.

Neymar retornou ao Santos em busca de vaga à Copa do Mundo com Ancelotti (Foto: IMAGO / SOPA Images)

Naquele mesmo mês, Ancelotti conversou com Neymar, por telefone. Em nenhum momento, mesmo que o atacante não estivesse entre os favoritos da comissão técnica, descartou sua ida à Copa do Mundo. Tanto que o planejamento do Santos, para a recuperação do astro, foi voltado para sua ida ao Mundial.

A comissão técnica de Ancelotti também buscou entender qual era a situação do atacante. Em março, antes da convocação para amistosos contra França e Croácia, viajou a Mirassol para acompanhar o duelo entre o time da casa e o Santos. Entretanto, Neymar foi poupado na ocasião por controle de carga.

Não foram poucas as perguntas sobre o craque do Santos nas entrevistas coletivas. Os jornalistas tentaram de diferentes formas saber detalhes de como Ancelotti pensava a questão e o que o atacante precisaria fazer para ser lembrado.

Ao evitar embates e não fechar portas, mostrou seu já conhecido lado político, driblando situações desconfortáveis que poderia alimentar um ambiente ruim na Seleção. Até o momento em que confirmou a ida do atacante para o Mundial, já na reta final e após enviar a pré-lista à Fifa.

— Escolhemos Neymar não porque pensamos que vai ser um bom reservas, e sim porque pode trazer suas qualidades para a equipe, mesmo que jogue um minuto. Escolhemos esses jogadores porque estão certos que vão ajudar — reforçou o treinador, após anunciar a lista com os 26 convocados.

Ancelotti deu pistas dos jogadores confirmados ao longo do ciclo para a Copa do Mundo

Se Neymar nunca foi confirmado, Ancelotti deu pistas ao longo dos ciclos dos jogadores que já tinha como certezas para a Copa do Mundo. Em setembro, afirmou que 70 atletas estavam sendo analisados e monitorados pela comissão técnica; em novembro, antes da última Data Fifa, disse que 18 nomes já estavam certos para ir a Nova Jersey em junho.

Destes nomes, o treinador foi dando pistas ao longo dos meses. Em conversa com Galvão Bueno, citou o atacante do Chelsea, Estêvão. Lesionado, ele está fora do Mundial, mas esteve presente nas quatro primeiras listas do italiano. Já em entrevista coletiva, confirmou a ida de Danilo, lateral-direito do Flamengo, por “gostar muito” de seu futebol.

Também defendeu Vinicius Júnior e Raphinha, criticados na última Data Fifa, por seu desempenho na seleção brasileira. Em vez de criticar a atuação da dupla do ataque, ressaltou a importância tática que tiveram, mesmo na derrota por 2 a 1 diante da França, em março. A postura do treinador também serviu para blindar o elenco durante a preparação.

João Pedro deixou o gramado lesionado após final da FA Cup
João Pedro ficou fora da lista final de Ancelotti para a Copa do Mundo (Foto: APL/Imago)

No anúncio desta segunda-feira, Ancelotti ainda fez um “pedido de desculpas” às ausências. Andrey Santos, João Pedro, Hugo Souza e Bento, que fizeram parte da maioria das listas durante este ciclo, ficaram fora da Copa do Mundo.

— Sinto muito que outros não estão aqui, como esteve Bento por exemplo. Hugo Souza, eu sinto muito, me dá um pouco de tristeza, como outros jovens que não estão na lista, como Andrey Santos, João Pedro. Eles terão a chance de estar no projeto da próxima Copa do Mundo — afirmou o treinador.

Com os 26 nomes definidos, a seleção ainda terá pela frente dois amistosos antes da Copa do Mundo. Enfrenta o Panamá, em 31 de maio, no Maracanã, e o Egito, em 6 de junho, em Cleveland, já nos Estados Unidos. A estreia no Mundial será diante do Marrocos, em 13 de junho, no MetLife Stadium, em Nova Jersey.

Foto de Murillo César Alves

Murillo César AlvesRedator

Jornalista pela Universidade de São Paulo (USP), com passagens por Estadão, UOL, 90min e QuintoQuarto.

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