Problemas do Brasil já existiam e vão muito além de erros de Fabrício Bruno em derrota
Seleção brasileira de Ancelotti levou uma virada após largar com 2 a 0, mas já mostrava dificuldades mesmo vencendo
O Brasil perdeu de virada para o Japão na manhã desta terça-feira (14), no Ajinomoto Stadium, por 3 a 2. A vitória veio em um time repleto de mudanças e três dos quatro jogadores que atuam no Brasileirão como titulares, incluindo Paulo Henrique, autor do primeiro gol, e Fabrício Bruno, que cometeu erros em dois gols japoneses.
Da equipe que goleou a Coreia do Sul, apenas Bruno Guimarães, Casemiro e Vinícius Júnior seguiram como titulares. As entradas de Martinelli e Luiz Henrique mudaram a forma que a Seleção ocupava os espaços no ataque, o que “travou” a criação no início — e também impactou a transição defensiva.
Mudanças de Ancelotti mantiveram o padrão ‘macro’, apesar da dificuldade
Foram oito mudanças em relação ao jogo contra a Coreia e um time majoritariamente “reserva”. Apesar de construir um 2 a 0 que até poderia parecer tranquilo, a seleção brasileira teve dificuldades para entrar no último terço.
O padrão seguiu o mesmo dos melhores momentos da equipe de Ancelotti — que começaram a se encorpar na vitória contra o Chile. A ideia era que zagueiros se mantivessem buscando passes em ruptura, meias se movimentando entrelinhas para ser opção de passe, tabelas buscando o corredor central e dinâmicas de terceiro homem.

Nos primeiros 30 minutos, o Japão inibiu a progressão brasileira por dentro. Defendendo em 5-4-1, deixou os zagueiros brasileiros com a bola e fechou as opções pelo meio.
O resultado foi uma equipe brasileira que até encontrava jogadores pelo meio, mas sempre de costas para o gol e pressionados, obrigados a recuar e ter uma primeira fase de construção em “U” — aquela sequência de passes laterais entre defensores.
O que Ancelotti mudou no Brasil contra o Japão
A Seleção foi a campo em um clássico 4-3-3, diferente das mesclas de 4-2-3-1 e 4-2-4 que vimos nas últimas partidas. Sem pressão na primeira fase de construção, saía em 4-1, com os laterais na linha dos zagueiros, também diferente do padrão anterior, quando se postava em 3-1 ou 3-2.
Vinicius Jr foi o centroavante da equipe, algo que já aconteceu antes no ciclo com Ancelotti, mas também houve diferenças. Antes, contra o Paraguai, Vini foi um centroavante de mobilidade e que atacava a profundidade. Contra o Japão, foi testado como falso nove, que se tornou o padrão brasileiro para os centroavantes.

Nesse esquema, Vini até descia ocasionalmente para virar opção entrelinhas e circular a bola como pivô. Os pontas, que nos jogos anteriores alternavam entre amplitude e meio-espaço e tinham liberdade para trocar de posição com os meias, ficaram “presos” às laterais ou nas costas do ala, para atacar a profundidade — o que casa com as características de Luiz Henrique e Martinelli.
No entanto, as dinâmicas com os pontas não foram tão usadas porque os laterais brasileiros também se posicionavam na lateral. Isso facilitava a defesa japonesa, que, em um 5-4-1, sempre tinha um ala e um ponta defendendo o lado, facilitando o encaixe individual nos seus correspondentes brasileiros.
Foi só quando Paulo Henrique passou a ocupar mais o meio-espaço pelo lado direito que a dinâmica fluiu melhor. E isso, inclusive, gerou o gol que abriu o placar e facilitou as coisas para o Brasil na primeira etapa.
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Gol de Paulo Henrique representa fidelidade das ideias na Seleção
O Brasil mostrou diferentes padrões de entrada no último terço contra o Japão. Sem a movimentação frequente e troca de posição dos outros jogos, houve outras possibilidades:
- Beraldo teve bons lances de diagonais longas para Luiz Henrique entrar em duelos individuais na lateral, apesar do pouco sucesso;
- Martinelli e Luiz Henrique em constante alerta para corridas em profundidade nas costas da defesa, em diagonal, a partir de posições mais abertas;
- Os meias, Paquetá e Bruno Guimarães, também tiveram momentos de infiltrar na área quando a bola estava perto do círculo central, ou para receber, ou para puxar marcadores — o que também não teve tanta eficácia.
O que se manteve como padrão maior foi a tentativa de manipular encaixes individuais na marcação. Paquetá teve mais liberdade para se movimentar entrelinhas e o gol ilustra como a dinâmica de terceiro homem e a interpretação aguçada para ocupação de espaços livres ainda é o maior trunfo do jogo brasileiro.

O gol sai com Paulo Henrique no meio-espaço, deslocando um marcador para o corredor central, e Paquetá descendo para o entrelinhas, puxando seu zagueiro para marcá-lo fora da área — e, consequentemente, gerando o espaço.
Quando o lateral do Vasco toca para Bruno Guimarães, se movimenta em direção à área para ocupar o espaço que Paquetá irá liberar, e seu marcador é pego na indefinição da parede de Paquetá: quando toca de volta para Bruno, Paulo Henrique dispara para infiltrar e o camisa 8 tem tempo e espaço para o passe em profundidade.
O lance do gol ilustrou uma das únicas vezes que o Japão teve sua defesa manipulada dessa forma. O Brasil tentou antes, mas não teve o contramovimento necessário — feito por Paulo Henrique na ocasião — que fizesse os lances progredirem. Quando alguém descia, não havia ninguém atacando esse espaço, ou a defesa japonesa estava compacta, então apenas resultava em um passe para trás.
Os problemas defensivos que levaram à vitória do Japão
Em fase defensiva, o Brasil se postava em 4-5-1 com bons movimentos de compensação. Quando os laterais saltavam para pressionar os alas ou meias japoneses, geralmente os meias recuavam para manter a linha de quatro estruturada.
Em outros momentos, os pontas acompanhavam os alas e recuavam bastante para manter o combate no seu opositor, criando uma linha de cinco defensores. Mas o Japão também soube aproveitar dessa manipulação de marcadores.
Principalmente porque a pressão pós-perda brasileira foi muito lenta, pouco agressiva e, em certos momentos, descoordenada. Vini não é um grande defensor e o Japão sempre tinha vantagem numérica em primeira fase de construção com sua saída de três combinada com um volante mais recuado e outros três apoios centrais.

Além disso, a equipe asiática também buscava passes em ruptura e seus dois “camisas 10” do 3-4-2-1 eram cruciais para ser opção de passe entrelinhas e constantemente aproveitavam o espaço nas costas dos volantes, que saltavam para pressionar de forma descompensada. Os meias japoneses também tinham apoio dos alas, que atraíam a atenção dos laterais e os davam ainda mais espaço.
Além do primeiro gol japonês, que veio de um erro de passe de Fabrício Bruno sem uma pressão tão forte, apesar de existente, o segundo veio justamente em um lance em que os mandantes tiveram extrema facilidade de sair da pressão brasileira.
Se contra a Coreia o time pressionou forte e sufocou os adversários para recuperar a bola o quanto antes, a transição defensiva desequilibrada do Brasil foi o que colocou o Japão em condições de encontrar o gol quando teve a bola.
Psicológico se mostrou crucial mais uma vez para a seleção brasileira
Se na era Tite o psicológico era tema de debate, principalmente quando a equipe saía atrás ou tinha dificuldade de abrir o placar, a preocupação pode ter batido na porta novamente.
O Brasil foi paciente no início do jogo, quando teve dificuldades para entrar na área japonesa, e isso é de grande valia. E ficou evidente como, depois do gol, o clima melhorou: jogadores faziam mais “firulas”, se movimentavam mais, arriscavam com mais frequência e pareciam jogar mais leves. Isso foi tão positivo que levou ao segundo gol.

Depois de Paulo Henrique abrir o placar, o Brasil buscou mais o entrelinhas, os meias e Vini saíam mais da posição para encontrar espaços livres e sair da marcação. Os padrões “marco” do jogo brasileiro com Ancelotti fluíram mais.
No gol de Martinelli, Vini cai pelo meio-espaço esquerdo, abre um espaço na entrada da área que Paquetá rapidamente identifica e ataca. Quando Vini faz o passe, Martinelli ataca a profundidade para aproveitar a divisão de referências da linha japonesa e recebe um belo passe por cobertura do camisa 11 para marcar. Um gol com carimbo de padrão brasileiro.
Mas o contrário também é verdade: quando sofreu o primeiro gol, em um erro evidente de Fabrício Bruno, todo o time pareceu “murchar”. Os duelos ficaram menos intensos, a pressão ainda menos forte e a expressão dos jogadores diminuiu ainda mais com o segundo gol japonês, que o zagueiro do Cruzeiro marcou contra.
O jogo foi marcado por testes, pontos positivos em meio a adversidades e frustrações ofensivas e defensivas. O Japão conseguiu aproveitar erros que o Brasil cometia há alguns jogos — e alertamos em análises anteriores — de forma que outros adversários não puderam.
🔎 O Japão está invicto há 5 jogos contra seleções campeãs do mundo! 🤯🤯
🇧🇷 3-2 vs Brasil
🇩🇪 4-1 vs Alemanha
🇺🇾 1-1 vs Uruguai
🇪🇸 2-1 vs Espanha
🇩🇪 2-1 vs Alemanha pic.twitter.com/UCM8fjTZbm— Sofascore Brasil (@SofascoreBR) October 14, 2025
Mesmo que os gols tenham vindo majoritariamente de falhas individuais e também por isso não seja necessário um clima alarmante de crise, há clara necessidade de preocupação em padrões defensivos que seguem precisando de atenção.
A seleção brasileira volta a campo na Data Fifa de novembro, entre os dias 10 e 18. Apesar das datas ainda não estarem confirmadas, o Brasil já tem os adversários: enfrentará, na Inglaterra, Senegal e Tunísia.



