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Brasil de Ancelotti tem ‘quê’ de Mourinho, Klopp e Diniz em goleada que anima e consolida estilo

Rodrygo e Estêvão marcaram duas vezes cada e Vini fechou a conta para consolidar sucesso de quarteto ofensivo

O Brasil venceu a Coreia do Sul nesta sexta-feira (10) por 5 a 0, no Estádio da Copa do Mundo de Seul, no primeiro amistoso após o fim das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2026.

Carlo Ancelotti promoveu mudanças no time titular: um 4-2-4 com Rodrygo, Estêvão, Vinícius Júnior e Matheus Cunha no ataque — uma combinação que ainda não havia sido feita sob o comando do italiano.

E mais do que a mudança no papel, a Seleção ilustrou contra os coreanos uma das grandes virtudes de Ancelotti: seu estilo versátil e camaleônico. Foram diferentes abordagens para ataque, defesa e construção como pouco tínhamos visto até então.

Ancelotti camaleônico gera Brasil criativo de diversas formas

O 4-2-4 já foi usado por Ancelotti antes, em seu segundo jogo, diante do Paraguai. Na ocasião, os atacantes foram Vini, Cunha, Raphinha e Martinelli — mas era um quarteto menos móvel, com Vinícius mais centroavante do que o usual.

A ousadia, no entanto, já estava ali. E contra a Coreia, ela foi elevada a um nível maior. Apesar de não ser um time rebelde, adotou princípios de jogo diversos: foi paciente para circular a posse com troca de posições na mesma medida em que priorizou a verticalidade e a aceleração, mesmo em inferioridade numérica.

Para quem gosta de demarcar estilos por treinadores e termos, o Brasil de Ancelotti teve de tudo. Um toque de José Mourinho com contra-ataques bem organizados, a influência de Jürgen Klopp com pressão pós-perda bem encaixada e até resquícios do “dinizismo” nos toques curtos com troca de posições e jogo apoiado com proximidade entre os jogadores.

Carlo Ancelotti, treino do Brasil 0709
Ancelotti pela seleção brasileira (Foto: Flickr/CBF)

Pressão pós-perda no melhor nível com Ancelotti (até aqui)

E cada um dos estilos se fez presente no sucesso brasileiro. O mais notável foi a pressão alta, algo que já vinha se mostrando presente e em evolução no trabalho do treinador, mas que ainda não era tão agressiva nem coordenada, como na partida contra o Chile.

Desde o primeiro jogo do italiano à frente da Seleção, contra o Equador, um adversário não conseguia construir com qualidade mesmo sob pressão e se colocar no ataque em segunda fase de construção, como fez a Coreia. Era uma equipe que priorizava o jogo pelo chão e construía com velocidade e critério.

E isso permitiu ilustrar como a pressão pós-perda do Brasil evoluiu. Tanto o terceiro quanto o quarto gol saíram dessa forma:

  • Primeiro com um erro mais individual de passe de Kim Min-jae, mas que estava sendo fortemente pressionado por Estêvão e tinha suas opções de passe mais próximas bloqueadas por brasileiros. O jogador do Chelsea então recuperou na grande área par marcar;
  • Depois, em uma boa sequência de construção coreana, mas que viu o meio-campo brasileiro saltar a pressão no apoio central com muita velocidade e força para interceptar o passe e progredir a jogada, que acabou com Rodrygo livre na esquerda.

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Seleção segue padrão de ‘brasilidade’ que parece se consolidar

A pressão pós-perda é um conceito quase padrão em times de alto nível e pode ser gerada de diferentes formas. O PSG tem momentos de chutão para frente para avançar todo o seu time e pressionar. A ideia de “viajar juntos” de equipes enraizadas no Jogo de Posição, como as de Pep Guardiola, também tem esse fundamento: todos avançam e, quando perdem a bola, estão sempre próximos dela para pressionar com vantagem.

O Brasil partiu de um pressuposto diferente: através da priorização do meio. Ainda contra o Chile essa ideia foi vista com mais força — mais uma vez escalou diversos talentos próximos entre si e fez com que eles buscassem progredir com tabelas e dribles entre as linhas de defesa.

Quando não era pressionada, a Seleção construía em 3-1, com Casemiro à frente dos zagueiros e Bruno Guimarães levemente à frente, perto da linha dos meias. Mais alto, ou seja, mais perto da bola, o camisa 8, muito combativo, também ajudava a pressionar quando o time perdia a posse e foi crucial para recuperá-la.

No entanto, a Coreia do Sul também pressionou a equipe brasileira em diversos momentos, alto e com encaixes individuais. Quando pressionado, o Brasil saía em 4-2, com os pontas baixando nos meio-espaços e gerando linhas de passe para os zagueiros.

Mais uma vez, Ancelotti manteve o padrão e a ideia do time parece cada vez mais clara: busca de construção vertical, com passes que quebram as linhas de pressão para progredir com dinâmicas de terceiro homem. E parece que o time já sabe manipular com consciência os encaixes da defesa com contramovimentos e mudanças de posição.

Em várias ocasiões Rodrygo, Vini, Cunha e Estêvão recebiam um passe de ruptura, longo, forte e pelo chão dos defensores para sair da pressão coreana. Dessa forma, progrediam girando e atacando a profundidade ou fazendo a parede para os companheiros que chegavam de trás. Apesar de poucos jogos, já parece um movimento consolidado e entendido no elenco.

E mesmo que não tenha sido um padrão muito usado, o Brasil ainda atacou pelos lados. O segundo gol, inclusive, saiu assim: com um duelo individual de Vini na esquerda arrastando a linha defensiva coreana para trás, gerando espaço na entrada da área e com a genialidade de Rodrygo para passar da bola e gerar vantagem cinética quando recebesse o passe de volta para marcar.

Estêvão e Vinicius Junior mostram como aceleração e ruptura seguem em alta

Além dos gols que vieram de momentos de pressão, outros também ilustraram a versatilidade da seleção brasileira. O primeiro, de Estêvão, mostra como o time consegue ser paciente com a bola e reciclá-la para criar a melhor chance, algo que não acontecia, principalmente na estreia.

E sem um centroavante fixo e “clássico”, os movimentos para atacar as costas da última linha eram cruciais. Foi assim que Bruno Guimarães encontrou um ótimo passe para Estêvão marcar — um gol que veio de um padrão tático e até psicológico da Seleção de tentar o passe “difícil”, mas recompensador e enraizado no jogo brasileiro.

Já o gol de Vini Jr. é o quê de Mourinho no jogo do Brasil: não foi a primeira vez no jogo que a equipe tentou sair em contra-ataque rápido de forma quase instintiva. Sem querer acalmar o jogo e manter a bola, Cunha deu um lançamento para o camisa 7 ainda antes da linha do meio para conduzir em velocidade e sair cara a cara com o goleiro.

Exemplo de contramovimento do Brasil para manipular a marcação coreana
Exemplo de contramovimento do Brasil para manipular a marcação coreana (Foto: Reprodução/GETV)

E apesar de não ser impaciente como antes, não existe a ideia de “viajar juntos” na Seleção: há a busca pela velocidade mesmo em desvantagem numérica, quase que como uma aposta no talento.

A defesa do Brasil ainda preocupa?

Nos primeiros jogos, havia certa preocupação com a fase defensiva brasileira. Apesar de não sofrer gols, exceto em uma situação excepcional contra a Bolívia, algum ponto de atenção foi levantado a cada jogo.

Dessa vez, o preço a se pagar por escalar três camisas 10 junto de Vinícius Júnior se mostrou de forma leve e quase camuflada. Quando não recuperava a bola em pressão pós-perda, a transição do Brasil correndo para trás gerava muitos espaços e uma linha de defesa desprotegida em diversos momentos.

Quando em bloco mais baixo, a Seleção defendia em 4-4-2, com Rodrygo e Estêvão na linha de meio, mas com pouca coordenação defensiva e combatividade. Com os alas mais abertos da Coreia do Sul, gerava-se dúvida para os pontas: se abrissem mais para marcá-los, abria uma janela no meio-espaço; se fechassem mais, permitiam a progressão pelo lado.

E apesar do esforço defensivo de Matheus Cunha, Vinícius não tem se mostrado um jogador que terá responsabilidades em organização defensiva. Os sul-coreanos não conseguiram gerar perigo a Bento, mas houve espaço de diferentes formas — mesmo que nada “gritante”, vale a atenção para equipes com mais qualidade para entrar no último terço.

A próxima partida da seleção brasileira será contra o Japão, na próxima terça-feira (14), às 7h30 no horário de Brasília. O amistoso será no Estádio Ajinomoto e o último da Data Fifa de outubro.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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