Eliminatórias da Copa

Análise: Ancelotti é ousado e Brasil melhora com padrões engessados que levantam leve alerta

Seleção brasileira se garante na Copa do Mundo com mudanças ousadas e muito trabalho a ser aperfeiçoado

A seleção brasileira garantiu a classificação para a Copa do Mundo nesta quarta-feira (10), na vitória diante do Paraguai, com mudanças promissoras e até mesmo ousadas feitas por Carlo Ancelotti. E foi um primeiro passo esperançoso, mas que não foi tão fluido quanto se esperava — o que é válido a essa altura.

O 1 a 0 diante dos paraguaios, na Neo Química Arena, viu o Brasil com uma nova formação, três titulares novos e padrões diferentes em relação à estreia do italiano.

As novidades de Ancelotti em relação à estreia

A mudança mais clara foi a de formação: o Brasil saiu de um 4-3-3 tradicional para uma mescla de 4-2-3-1 com 4-4-2. Matheus Cunha transitou entre falso nove e meia, enquanto Vinícius Júnior foi um centroavante de muita mobilidade, mas que não recuava tanto.

Outra novidade foi o quarteto de ataque: Cunha, Vini, Raphinha e Martinelli. Quem menos saiu da posição foi o último, mantido majoritariamente na amplitude pela esquerda. Os outros, no entanto, tinham grande liberdade para ocupar espaços.

Vinicius Júnior marcou o gol da vitória do Brasil sobre o Paraguai
Vinicius Júnior marcou o gol da vitória do Brasil sobre o Paraguai (Foto: IconSport)

Uma das mudanças mais impactantes foi na primeira fase de construção. Na estreia, a Seleção variava entre 4-1 e 3-2, mas teve muitas dificuldades de progredir contra o Equador. Agora, manteve a saída de três em grande parte do jogo, com novas variações:

  • O terceiro jogador na primeira linha mudava entre Alex Sandro e Casemiro
    • Quando era o lateral-esquerdo, inicialmente criava-se um 3-1, com Casemiro como principal pivô. Bruno Guimarães e Matheus Cunha davam apoio mais à frente;
    • Quando era o volante, criava-se o 3-2. Alex Sandro invertia e se tornava um dos dois volantes junto a Bruno Guimarães.
  • A segunda opção era a mais frequente, e contava com Raphinha em amplitude pela direita, Martinelli pela esquerda, Vini no meio-espaço esquerdo, com liberdade para encontrar espaços, e Matheus Cunha recuando para buscar a bola e criar esses espaços para Vini;
  • Houve, com mais presença no segundo tempo, situações de 3-2 com Matheus Cunha e Casemiro como volantes. Isso aconteceu principalmente durante o momento do jogo em que o Brasil estava recebendo marcação mais alta.
    • Nesse cenário, a linha de três contava com Alex Sandro com os zagueiros, enquanto Bruno Guimarães partia da posição de volante e avançava, puxando seu marcador. O contramovimento era feito por Cunha, que descia, livre, para ser opção de passe e progredir. Se o marcador de Bruno acompanhasse Cunha, deixaria o camisa 8 livre.
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Padrão mais frequente na construção da Seleção Brasileira contra o Paraguai (Foto: Tactical Board)

A criação se concentrou no lado esquerdo do campo durante a maior parte do jogo. A combinação de Alex Sandro, Martinelli, Cunha e Vinícius Júnior foi a prioridade do ataque brasileiro. No entanto, curiosamente, o atacante do Real Madrid foi o jogador do quarteto ofensivo que menos tocou na bola (38 vezes).

Os frutos positivos das mudanças

O papel de Vanderson também foi impactado pelas mudanças. Se tornou um lateral mais ativo e ofensivo do que na estreia: atacava a profundidade tanto pelo lado quanto pelo meio-espaço, a depender de onde Raphinha tinha a bola.

Cunha foi o jogador que mais chamou a atenção. Teve o mapa de calor mais diverso entre todos os jogadores do time e sempre buscava aproveitar os espaços vazios, independente de onde apareciam. Foi, também, muito ativo na defesa, e roubou a bola que gerou o único gol do jogo.

Em um jogo que muitas vezes se tornou brigado e com bolas espirradas, Bruno Guimarães dominou os duelos defensivos. Também foi importante nas transições ofensivas e deu bons passes para tirar o time da pressão ou acionar companheiros em profundidade.

E mesmo que não tenha sido tão exigido defensivamente, principalmente na primeira fase de construção do Paraguai, o Brasil ainda teve bons momentos de pressão. Defendeu em 4-4-2 mais agressivo, marcando alto e com pressão individual em todo o campo. Existia um claro gatilho de pressão no passe para trás adversário, e todos os jogadores mantinham certa distância do seu marcador e o acompanhavam. Isso deu resultado, principalmente no início.

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O que ainda é preocupante no Brasil

Já no segundo jogo, pode-se supor que Ancelotti não faz questão de que o Brasil seja um time paciente. A equipe teve muito mais a bola em relação ao jogo contra o Equador, uma vez que o Paraguai também não buscava construir com passes curtos. Mas, apesar disso, tiveram padrões pouco efetivos.

A seleção brasileira terá, na maior parte do tempo, que enfrentar blocos mais baixos. Era uma preocupação que Tite fazia questão de enfatizar durante seu primeiro ciclo e foi superada naquele momento.

No entanto, o atual time do Brasil parece priorizar o jogo acelerado e segue sem paciência para dominar o adversário com a posse em regiões mais altas do campo. Quer acelerar o ataque assim que recupera a bola e contou até com lançamentos longos pelo alto para Vini e Raphinha, para tentar pegar a defesa paraguaia desprevenida. Não funcionou.

Carlo Ancelotti, técnico da Seleção
Carlo Ancelotti, técnico da Seleção (Foto: IconSport)

Essa impaciência também se fez presente mesmo quando o time estava mais pausado, durante a segunda fase de construção. A Seleção criava principalmente pela esquerda, buscando a superioridade numérica com ultrapassagens ocasionais de Alex Sandro, ou cenários de um contra um com Vini ou Martinelli — mas o resultado foi sempre o mesmo.

O padrão brasileiro para a entrada no último terço era claro: quem está na amplitude (ora Alex Sandro, ora Vinícius, ora Martinelli) dribla para a linha de fundo e busca cruzamentos com a perna esquerda. A imensa maioria não gerou perigo e, no máximo, resultou em escanteios antes da bola chegar à área.

E por mais que tenha sido mais dominante com a bola, o time ainda teve alguma dificuldade durante a primeira fase de construção quando recebia pressão. Alex Sandro parecia dependente da sua perna esquerda e tendia a recuar ou tocar de lado em vez de encontrar opções pelo meio. Casemiro, de costas para a pressão, teve dificuldade de girar e se desvencilhar para progredir.

A entrada de Beraldo na lateral-esquerda oxigenou essa debilidade. O defensor do PSG mostrou ótima visão e encontrou passes entre as linhas, enquanto mostrou o quão habilidoso é para esconder seu passe até o momento em que executa o movimento.

O gol de Vinícius Júnior (e Matheus Cunha) é animador

A única bola na rede do jogo ilustra os dois lados da equipe de Ancelotti até o momento: a falta de paciência, mas a nova atitude positiva e movimentos ofensivos animadores para o futuro.

O gol surge com Casemiro encontrando um bom lançamento em diagonal para Raphinha — que não tinha nenhuma ajuda naquela região do campo. O volante, novamente, buscou acelerar o jogo e confiar que o ponta poderia criar sozinho, mesmo que estivesse sendo marcado por três paraguaios.

A situação desfavorável teve resultado esperado: Raphinha perdeu a bola. Mas Cunha, que chegava para ajudar atrás, foi rápido para dividir e roubar a posse que estava em disputa. Com a bola recuperada já na grande área, encontrou um cruzamento rasteiro para Vini Jr., que infiltrava, marcar.

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A situação que antecedeu o gol de Vinícius Júnior (Foto: Tactical Board)

Antes, a principal chance da Seleção no jogo havia sido em um momento parecido: Cunha infiltrou pelo meio-espaço direito e cruzou uma bola rasteira para Vinícius. O atacante do Real Madrid, inclusive, mostrou ótima leitura de espaços na área para ser esse centroavante de mobilidade da equipe:

  • Nesse primeiro lance, Vini ameaçou infiltrar para a primeira trave e correu para a segunda, se desvencilhando da marcação com a jogada de corpo, o famoso “gato”. A bola chegou ligeiramente mais à frente do que seu pé, e a finalização não foi certeira;
  • No momento do gol, foi o contrário: Vinícius vinha da segunda trave e atacou o espaço à frente da defesa em direção à primeira trave para conseguir finalizar.

Ancelotti foi ousado a quebrar o paradigma de que a seleção “precisa” de um camisa 9 goleador. Jogou com quatro atacantes móveis, habilidosos e deu sinais de que isso pode ser desenvolvido a padrões promissores.

A defesa novamente não foi vazada, por mais que o Paraguai mal tenha conseguido construir uma chance de ataque mais clara. A defesa da área com Marquinhos e Alexsandro foi novamente positiva, mas o time todo defendendo em bloco alto seguiu deixando ocasionais espaços — que o adversário não teve capacidade de aproveitar.

O saldo da primeira Data Fifa do italiano foi positivo, para além da classificação para a Copa. Como todo início de trabalho, ainda existem muitas dúvidas, mas não se pode esquecer que há preocupações em diferentes fases do jogo.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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