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Análise: Ancelotti estreia na Seleção com novidades interessantes, mas padrões preocupantes

Treinador italiano prometeu priorizar a defesa, mas, apesar de não sofrer gols, estreia mostrou diversos alertas

Carlo Ancelotti fez seu primeiro jogo como treinador da seleção brasileira na última quinta-feira (5), no empate diante do Equador por 0 a 0. Independente de resultado ou do quão apática tenha sido a partida, é sempre possível analisar quais as novidades de um novo treinador — dessa vez, são mais preocupantes do que animadoras.

Vale o aviso, claro, de que em apenas um jogo não se pode tirar conclusão de todo o trabalho de um técnico, nem do que ele fará nas próximas rodadas. Mas, pelo que aconteceu diante do Equador, Ancelotti, mesmo que em seus dois únicos treinos, deixou uma pulga atrás da orelha do torcedor.

O que Ancelotti trouxe de novo ao Brasil contra o Equador?

O italiano levou ao campo em sua primeira partida algumas novidades. Primeiro, na escalação: Alex Sandro e Alexsandro não haviam jogado nas Eliminatórias — o último, inclusive, nunca jogou pela Seleção antes. Além disso, Estêvão recebeu sua primeira titularidade com a camisa amarela.

Como em toda estreia, o início foi animador. Era possível identificar o que há de novo e os primeiros minutos, principalmente com a bola, davam indícios de para onde o Brasil pode ir com Ancelotti. Mas durou pouco.

Foi na primeira fase de construção na qual era possível ver algo diferente logo de cara. O Brasil começou construindo em 4-1, e tendia às laterais para progredir em detrimento do meio-campo.

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Uma das formas de construção em 4-1 do Brasil contra o Equador (Foto: Tactical Board)

O padrão se mostrou, inicialmente, levar a bola aos lados e os laterais faziam um passe direto pelo corredor aos pontas, gerando triangulação com os meias de seus respectivos lados para progredir rapidamente.

Isso aconteceu mais pela direita, com Vanderson ligando Estêvão, que buscava tabelas com Bruno Guimarães para sair da pressão equatoriana. Vinícius Júnior, no entanto, foi pouco acionado dessa forma.

E o Brasil mostrou variação na construção: também saía para o jogo em 3-2 de diferentes formas:

  • ora com os dois zagueiros e Alex Sandro na linha de três, com Bruno Guimarães e Casemiro como volantes;
  • ora com os dois zagueiros e Casemiro na linha de três, com Bruno Guimarães e Gerson à frente.
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Um dos padrões de construção em 3-2 da seleção brasileira (Foto: Tactical Board)

Havia também outras variações no 3-2-4-1 que se formava com essa saída de bola no que diz respeito ao posicionamento dos pontas. Vini e Estêvão deixavam a lateral e ocupavam os meio-espaços, como meias entrelinhas.

E, curiosamente, as laterais eram ocupadas de diferentes formas, a depender de quem ocupava a linha de três. Houve momentos em que Gerson e Bruno Guimarães ocupavam os lados, enquanto Vanderson assumia a função de lateral invertido e fechava como volante.

Essa variação, no entanto, não seguia um padrão tão rígido e parecia mais “fluida”. O meia que assumia a lateral só o fazia quando a bola estava ao seu lado, dependendo do posicionamento de Casemiro e Vanderson, então o padrão não era tão claro.

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A impaciência da seleção brasileira com a bola

O posicionamento de Vanderson já foi uma das questões ao analisar o jogo contra o Equador. Ora o lateral assumia o lado na construção em 4-1, ora subia para o meio, mas em uma área nebulosa do campo: não formava a dupla de volantes com Casemiro e não tinha um movimento tão coordenado com Estêvão, para que o jogador do Palmeiras descesse para buscar a bola no corredor.

Do outro lado, Vinícius parecia sozinho — a lateral era toda sua durante as fases mais avançadas da construção brasileira. Alex Sandro, geralmente perto dos zagueiros, não ultrapassava em suas costas para a linha de fundo. Gerson, no meio, não atacava a profundidade a partir do meio-espaço. E o próprio Vini não conseguiu se conectar com Richarlison como pivô.

Isso é ilustrado, inclusive, pelo posicionamento médio da Seleção na partida. O atacante do Real Madrid ficou, na maioria das vezes, muito isolado do resto do time.

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Posicionamento médio da seleção brasileira contra o Equador (Foto: Sofascore)

E apesar das variações na construção brasileira, elas não foram usadas de forma tão proveitosa. O time não parecia paciente o suficiente para progredir pelo meio e sempre buscava acelerar pelos lados, onde era pressionado e tinha menos espaço.

Curiosamente, as melhores sequências de passes vieram com a construção por dentro, com Casemiro encontrando passes que quebravam a linha de marcação equatoriana e combinando com Bruno Guimarães, Estêvão e Richarlison. Mas esses momentos foram raros.

O fato de não ser paciente e preferir não construir pelo meio não é necessariamente positivo ou negativo, é apenas uma preferência. Mas ilustra um time que ainda não tem confiança no seu próprio jogo e busca respostas rápidas e imediatas.

Quando recuperava a bola isso era ainda mais evidente: constantemente o time buscava Estêvão para que o jovem arrancasse, sozinho, contra dois ou três equatorianos, geralmente sem ajuda de companheiros próximos. Dependia de um entendimento com Richarlison para passes em profundidade que, evidentemente, não existe nesse momento.

Estevão tenta o drible contra o Equador
Estêvão tenta o drible contra o Equador (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

E mesmo com ideias interessantes nas diferentes formas de construir, a “impaciência” se mostrou evidente de forma rápida. Alisson não fazia questão de sair por baixo desde o início das jogadas e muitas vezes preferiu bater tiros de meta longos buscando Richarlison.

Tudo isso resultou em uma partida em que o Brasil perdeu a bola muitas vezes, não criou chances perigosas e finalizou apenas três vezes — duas delas com o volante Casemiro.

Defesa, a prioridade, foi o mais preocupante

O Equador, por outro lado, dominou o Brasil em diferentes momentos. Foram apenas sete finalizações, o que dá a entender que, para um time que supostamente foi dominado, a Seleção ao menos se defendeu bem.

Mas os números frios não contam toda a história. O time de Ancelotti defendeu baixo durante a maior parte do jogo e viu a equipe de Beccacece criar mais volume e perigo durante quase todo o jogo, como ilustra o gráfico do Sofascore.

Mais do que isso: 79% do tempo em que a bola estava em jogo, foi do meio de campo para o lado defensivo brasileiro. Os equatorianos completaram 96 passes no último terço ofensivo, enquanto o Brasil tentou apenas 69 (e acertou 38). Isso ilustra superioridade ofensiva.

Ancelotti chegou com a ideia de priorizar o sistema defensivo. Mas, apesar de não sofrer gols, a forma como a Seleção defendia em bloco alto, subia pressão e defendia espaços entrelinhas e no lado fraco da defesa preocuparam.

O Brasil tinha dificuldade principalmente em saber quem saltava para pressionar. Na saída de três equatoriana, sempre havia superioridade numérica contra o 4-4-2 defensivo brasileiro. E não havia um padrão para quem do meio subiria para pressionar os volantes: ora era Bruno Guimarães, ora Gerson, às vezes até Casemiro, e isso criava grandes buracos.

Em certos momentos, ao subir pressão no gatilho de passe para trás do Equador, Bruno perseguia Caicedo e Casemiro acompanhava Vite mais de longe. Isso deixava espaço entre linhas nos dois setores: entre as linhas de ataque e meio, e as linhas de meio e defesa. E os adversários usaram e abusaram disso.

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A superioridade numérica na construção equatoriana que criava um efeito dominó de superioridades (Foto: Tactical Board)

A pressão individual não funcionou bem durante o jogo inteiro. O Brasil não soube definir os encaixes individuais nos jogadores das laterais e fez com que a progressão do Equador fosse rápida. Mesmo que não fossem passes verticais que aceleravam o jogo, encontrar companheiros livres pelos lados fazia com que os equatorianos pudessem empurrar os brasileiros para trás constantemente.

Isso também era ilustrado nas diversas viradas de jogo adversárias, principalmente de Caicedo. O Brasil tinha dificuldade de defender o lado oposto, principalmente o seu lado esquerdo, com Vinícius Júnior sempre distante da marcação.

O espaço entrelinhas também existiu durante os 90 minutos, principalmente entre as duas primeiras linhas de marcação. Um dos meias subia para pressionar, enquanto o outro ficava próximo de Casemiro para proteger a área, mas não davam conta de percorrer todo o espaço, principalmente lateralmente, e o Brasil sofreu nesse quesito.

A defesa do funil, a região mais próxima à área, foi um ponto que não teve aspectos necessariamente negativos, apesar de alguns cruzamentos terem sido afastados para o meio da área — a questão é que não havia equatorianos por ali.

A combinação dos zagueiros com Casemiro para defender o corredor central foi satisfatória, e o Equador teve alguma dificuldade em entrar na área de forma concisa. Tanto que das sete finalizações, seis foram de fora da área.

O veredito da primeira partida de Ancelotti com o Brasil é de sentimentos mistos, mas que tendem ao negativo. Tiveram ideias positivas, mas que não foram aproveitadas, e também muita dificuldade ofensiva, impaciência e buracos constantes na defesa em diferentes regiões do campo. Foram só dois treinos e um jogo, mas a cobrança para o futuro só deve aumentar.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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