Análise: Ancelotti dá ‘brasilidade’ e ideias animadoras em seu melhor jogo na Seleção
Vitória por 3 a 0 sobre o Chile foi a melhor exibição da equipe sob o comando do italiano
O Brasil enfrentou o Chile na última quinta-feira (4) e saiu vitorioso por 3 a 0. A partida marcou a estreia de João Pedro como centroavante titular com Carlo Ancelotti e o retorno de Douglas Santos à Seleção após nove anos.
Mais do que isso, o duelo também apresentou ao público do Maracanã o melhor jogo da seleção brasileira sob o comando do novo treinador até o momento — e uma evolução clara nos padrões do modelo de jogo.
Mais mudanças no Brasil rendem melhora ofensiva
Em nossa análise da estreia de Ancelotti no Brasil, houve preocupação com as fases de criação: era um time com basicamente um único padrão sendo seguido para progredir pelos lados e sem muita paciência.
O 4-3-3 da estreia virou um 4-4-2 mais móvel no segundo jogo, com Matheus Cunha, um falso 9 clássico, e Vinicius Junior como centroavantes. A preocupação, apesar da vitória, ainda era sobre relativa pobreza de ideias para entrar no último terço, principalmente ao enfrentar uma equipe que defendia em bloco baixo.

Contra o Chile, no entanto, a seleção brasileira reverteu algumas dessas preocupações: foi um time muito mais paciente, que soube dominar a partir da posse e teve variações na construção que não foram vistas na primeira Data Fifa.
Desta vez em 4-2-3-1, a terceira formação inicial de Ancelotti em três jogos, houve mais variação durante a primeira fase de construção que foi importante para o principal padrão novo do Brasil: prioridade em progredir pelo meio.
Isso era algo presente na Seleção de Fernando Diniz e que foi resgatado com sucesso pelo italiano — o Brasil construía majoritariamente em 3-1, com Douglas Santos na linha de zagueiros e Casemiro como volante à frente. Bruno Guimarães subia como meia, puxava a marcação e criava espaço para Estêvão e Wesley ajudarem na progressão.
O Chile não pressionava os zagueiros e a marcação começava a ficar mais cerrada na linha de apoio — que, a princípio, só tinha Casemiro. Agora mais paciente, o Brasil soube criar dinâmicas para sair da inferioridade numérica diante do 5-4-1 defensivo chileno:
- Raphinha tinha liberdade para descer no meio-espaço pela esquerda para ser opção de passe próximo a Casemiro e atrás da marcação;
- Martinelli alternava com o camisa 10 e também aparecia como opção mais pelo meio;
- Estêvão aproveitava a subida de Guimarães e a amplitude de Wesley para ser opção de passe entrelinhas pela direita.

Apesar da superioridade numérica no setor, o Chile não foi combativo o suficiente para fazer valer o número maior de pessoas. Dessa forma, Casemiro e Bruno Guimarães tinham tempo e espaço suficiente para encontrar opções atrás da linha de marcação.
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Seleção deu indícios de um jogo ‘puramente brasileiro’
Apesar de mais paciente para construir — agora não mais buscando acelerar a todo custo –, a seleção brasileira ainda manteve a verticalidade como ideia central do seu jogo. Com um conglomerado de talentos próximos pelo meio, o padrão era claro: buscar passes entrelinhas e criar dinâmicas de terceiro homem para progredir pelo meio.
Isso se fez presente com zagueiros buscando passes que quebravam as linhas, caso Casemiro estivesse mais marcado. Os alvos geralmente eram Raphinha, Estêvão e Bruno Guimarães, que se colocavam como meias. Quando o volante tinha espaço, encontrava com facilidade companheiros entrelinhas, que rapidamente verticalizavam o jogo com condução tabelas.
⚽️ QUE JOGADAÇA!
Luiz Henrique aperta a marcação, invade a área, tabela, dribla, solta a bomba e na sobra, Bruno Guimarães completa no fundo do gol.
🇧🇷 3-0 🇨🇱
🎥 Tv Globo pic.twitter.com/D47nVgH2bo
— brasil (@CBF_Futebol) September 5, 2025
Foi assim que surgiu o primeiro gol, em uma dinâmica de terceiro homem que liberou Douglas Santos, o lateral menos agudo que ficava entre os zagueiros:
- Douglas acionou Martinelli, que estava em amplitude;
- Martinelli tocou para João Pedro, que desceu como falso 9 para ocupar o meio;
- Assim que tocou para o ponta, Douglas atacou a profundidade para ocupar o espaço deixado pelo centroavante entre as linhas, e João, de primeira, o encontrou neste espaço;
- O lateral então conduziu livre e acionou Raphinha, que infiltrava em um movimento diagonal, do meio para a esquerda. Sua finalização sobra para Estêvão marcar.


Padrões se mantém independente dos jogadores
No segundo tempo, Ancelotti mexeu as peças no meio e no ataque, mas o padrão não foi alterado: o Brasil construía da mesma forma, buscando passes que quebravam as linhas e o apoio do centroavante, agora Kaio Jorge, seguiu crucial como um jogador que desce para ser o elo da progressão.
O início do lance que gerou o gol de Lucas Paquetá, inclusive, veio dessa forma: Gabriel Magalhães conduziu, os meias aproximaram como opção e Kaio Jorge desceu, então o zagueiro deu um passe que quebrou a linha de marcação para o centroavante e, no mesmo instante, os dois meias atacaram a profundidade para se tornarem opção de passe rápido para concluir a dinâmica de terceiro homem.
Com todas as mudanças feitas, o Brasil passou a jogar em um 4-3-3 mais clássico, com o meio de Andrey Santos, Bruno Guimarães e Lucas Paquetá, enquanto Richarlison e Luiz Henrique eram os pontas.

Jogo sem preocupações defensivas ainda mostra como Brasil pode sofrer
O Chile foi praticamente inofensivo à defesa brasileira durante todo o jogo, principalmente com a bola rolando, e seus dois lances de maior perigo vieram em posição de impedimento, mas que não geraram gol.
Defensivamente, o Brasil também soube se adaptar à partida: começou espelhando os três zagueiros do Chile marcando em bloco alto com os três atacantes fazendo sombra, e encaixes individuais dos meias nos dois volantes chilenos que davam apoio pelo meio.
Isso, no entanto, deixava brechas nos lados. Para marcar os alas adversários, os laterais brasileiros deveriam subir bastante e, com isso, deixavam espaço na última linha — que não foi aproveitado pelo Chile.
O padrão mais curioso veio de Marquinhos, que perseguiu incansavelmente Aravena, geralmente o homem mais adiantado do Chile. O zagueiro o marcava individualmente e descia até o meio-campo para pressioná-lo de forma agressiva — o que também deixava espaços na última linha.

Além disso, o padrão de construção brasileiro, apesar de vistoso e que gera conexão com o público, pode se tornar perigoso contra equipes mais capacitadas em transição. Por buscar constantemente o passe que quebra linhas, o risco também é maior — e em alguns momentos houve erros que poderiam ter gerado ataques chilenos.
A pressão pós-perda da Seleção teve sucesso, apesar de não ser a mais agressiva no futebol de alto nível. Mas, ainda assim, o Chile pouco pôde fazer para, por exemplo, manipular os encaixes individuais brasileiros.
Depois das mudanças no segundo tempo, o Brasil passou a defender em 4-1-4-1, com bloco médio. Com o resultado já garantido, teve facilidade em manter o jogo sob controle também com menos posse.
Carlo Ancelotti cumpre sua palavra de melhorar a defesa brasileira — apesar das dificuldades contra o Equador e padrões que podem ser explorados por adversários mais fortes, não sofreu gols nos três jogos até aqui. Há melhora ofensiva, mais conexão com a “brasilidade” no jogo da Seleção e, a princípio, ânimo para a sequência do trabalho.
Já classificado para a Copa do Mundo, o Brasil ainda enfrentará a Bolívia nesta Data Fifa, na próxima terça-feira (9), no Estádio Municipal El Alto, às 20h30 no horário de Brasília, pela última rodada das Eliminatórias.



