Análise: Quando teve oxigênio, Brasil mostrou boas ideias defensivas e lealdade aos padrões com bola
Ancelotti fez testes e viu um time fiel às suas ideias, apesar das condições externas mais adversas possíveis
Carlo Ancelotti viu sua primeira derrota no comando da seleção brasileira na última terça-feira (9), em possivelmente um dos jogos mais atípicos da sua longeva carreira. Na altitude de mais de 4 mil metros, a Bolívia venceu o Brasil por 1 a 0 e vai à repescagem por uma vaga na Copa.
Em um jogo que, a princípio, o treinador tentou fazer testes e encontrar novas formas de construir a Seleção, a altitude foi o personagem principal: os jogadores claramente não conseguiam correr, mesmo que curtas distâncias — mesmo que a bola, sim, corresse mais — e nem se movimentar normalmente.
Se serviu de algo, a partida contra a Bolívia mostrou como o Brasil tem dinâmicas defensivas sólidas (mesmo que as pernas não tenham conseguido fazê-las perfeitamente) e que é uma equipe fiel à sua proposta quando tem a bola — e oxigênio.
Brasil dominado pela altitude exalta defesa como nunca
O primeiro jogo de Ancelotti, contra o Equador, foi marcado por dificuldades ofensivas e, em diversos momentos, domínio equatoriano com a bola. Era um time que tentava marcar alto e abria espaços entre as linhas, mas que, apesar disso, não foi vazado.
Contra o Paraguai, no segundo jogo do italiano, isso foi melhor: defendeu em um 4-4-2 em bloco alto, a pressão estava mais coordenada e era orientada de forma individual, com gatilhos claros. Evidentemente, os paraguaios eram menos capazes em construção do que o Equador.
E se o Chile não mostrou ser um perigo suficiente, foi a altitude da Bolívia que, ao diminuir o ímpeto da Seleção, fez com que a atenção fosse voltada amplamente ao sistema defensivo. E há padrões de um time seguro defensivamente.

Em um ambiente em que não conseguia correr, o Brasil decidiu defender em bloco médio em 4-5-1 — apenas Richarlison fazia sombra à construção boliviana, enquanto as linhas de defesa e meio se compactavam para impedir a progressão por dentro.
Dessa forma, a princípio, a seleção brasileira permitia que os defensores adversários tivessem a bola para vantagem numérica nas áreas mais delicadas. E havia superioridade em todos os setores também pelas dinâmicas de defesa do Brasil nas laterais.
Quando a bola chegava ao ponta boliviano, o lateral brasileiro daquele lado saía da linha de quatro defensores e saltava para pressioná-lo. Isso deixava a última linha brasileira exposta, por isso, havia compensações de diferentes formas:

- Quando o lateral saía da linha, o meio-campista daquele lado recuava e ocupava o espaço do lateral, para manter a linha sustentada e impedir a progressão em profundidade;
- Outras vezes, o zagueiro daquele lado descia para cobrir a posição do lateral e o volante, Andrey, entrava no seu lugar, também para manter a estrutura da linha;
- Independente de quem formava a linha defensiva com o salto do lateral, o ponta brasileiro daquele lado também recuava para criar superioridade contra o ponta boliviano, ou para acompanhar a infiltração do lateral adversário, e também para impedir um passe pelo meio, fechando o ângulo.
Isso aconteceu dos dois lados e, idealmente, sempre que essa situação acontecia na partida: se a Bolívia levava a bola à amplitude, havia a compensação da defesa brasileira.


Os problemas da altitude
Se o time de Ancelotti teve de se defender mais do que o normal porque “faltou perna” para correr dada à altitude, isso também quis dizer que os jogadores eram mais lentos para cobrir todos os espaços necessários.
Apesar do 4-5-1 bem postado e compacto defensivamente, a Bolívia encontrou com alguma facilidade passes perigosos entrelinhas, principalmente nos intervalos dos meio-espaços — entre o ponta e o meia, ou entre o meia e o volante.
Isso gerou algumas finalizações bolivianas da intermediária e facilitou a entrada da equipe mandante no último terço. Mas era notório o problema: não foi mal posicionamento ou “falta de vontade”: os jogadores faziam o movimento correto, mas simplesmente não chegavam a tempo para interceptar o passe ou dar o bote.
Raphinha critica altitude e arbitragem após Bolívia 1×0 Brasil:
“Quando uma equipe te coloca a 4 mil metros de altitude para ganhar um jogo, isso te desfavorece muito. Depois, um jogo equilibrado em que o árbitro achou um pênalti.”
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— Planeta do Futebol 🌎 (@futebol_info) September 10, 2025
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Seleção tem ataque tímido e com testes, mas fiel às ideias
Ancelotti levou o Brasil a campo mais uma vez em um clássico 4-3-3, com Andrey como primeiro volante atrás de Bruno Guimarães, dessa vez meia pela esquerda, e Paquetá, meia pela direita. Inicialmente, o padrão de construção foi diferente e mais contido — imagina-se que, também, pelas questões físicas atípicas da partida.
A seleção brasileira começou construindo em 4-1, de forma que, se pressionada, tinha vantagem numérica na primeira linha para levar a bola a Andrey Santos. Uma vez que a bola chegava ao volante, também tinha superioridade no meio, com os apoios de Bruno e Paquetá.

E os padrões de uma equipe paciente e que gosta de dominar com a bola a partir do Jogo de Posição se mantiveram mesmo em situações adversas. Principalmente no que diz respeito à ideia de arrastar marcadores saindo da posição para abrir espaço a ser atacado.

De forma praticamente igual à jogada do primeiro gol brasileiro contra o Chile, a Seleção mostrou sua lealdade ao modelo de jogo logo no primeiro minuto:
- A bola chega em Caio Henrique, aberto, que busca tabela com Samuel Lino, que desceu para ser apoio;
- Quando desce, Lino puxa seu marcador, o lateral boliviano, e abre espaço em suas costas;
- Antes do passe sair para Caio, Bruno Guimarães também baixa para ser opção de passe e é outro a arrastar seu marcador para fora de posição, abrindo espaço no meio-campo;
- O espaço gerado por Bruno é preenchido por Richarlison, que desce para ser opção de passe, mas também puxa consigo um zagueiro, quebrando a linha boliviana;
- Uma vez que sai a tabela, Caio tem todo o espaço gerado por Bruno Guimarães para conduzir sem ser constrangido, enquanto Lino ataca pelo lado. O avanço brasileiro gera dúvidas na defesa boliviana, que ficou em desvantagem numérica.

No segundo tempo, Ancelotti voltou a fazer testes. Mesmo que o ambiente estivesse completamente hostil para quem não estivesse acostumado com a altitude e qualquer análise fosse deturpada pelo extremismo do ambiente.
Marquinhos entrou no lugar de Vitinho, como lateral, e o Brasil voltou a ter uma saída de três defensores com um lateral que ficava entre os zagueiros. Isso gerou o clássico 3-2-5, com Caio Henrique e Estêvão, que entrou no lugar de Luiz Henrique, como os responsáveis pela amplitude do time.
Bruno Guimarães e Paquetá foram os pivôs na nova configuração de construção do Brasil com a entrada de Jean Lucas e Raphinha, que viraram os meias. O jogador do West Ham, inclusive, chegou a ser citado por Ancelotti como possível substituo de Casemiro como primeiro volante.
Como veredito, o duelo contra a Bolívia não rendeu o melhor jogo para que Ancelotti pudesse observar o time que levou a campo e os testes que tentou fazer. Mas mostrou que o padrão do trabalho defensivo está sendo feito e que já há assimilação quase natural das fases ofensivas.
Para além disso, foi uma partida ruim, mas não necessariamente por demérito brasileiro — jogadores que não conseguiram correr, passes “normais” que saíam errados e um espetáculo aquém de um jogo classificatório para a Copa do Mundo.



