Como dúvida de Ancelotti muda a forma do Brasil jogar e até revive drama da Era Tite
Empate contra a Tunísia reforçou que uma das únicas incertezas na seleção brasileira ainda pode ser muito impactante
O Brasil empatou com a Tunísia nesta terça-feira (18), por 1 a 1, em um jogo com uma escalação bem parecida em relação à vitória diante de Senegal, no sábado (14). No entanto, as poucas mudanças foram impactantes e um “drama” da Era Tite foi revivido.
Desta vez, Bento entrou no lugar de Ederson, Wesley e Caio Henrique foram os laterais e Militão seguiu no time, mas como zagueiro pela esquerda no lugar do lesionado Gabriel Magalhães. Curiosamente, esse foi o primeiro jogo da era Carlo Ancelotti em que a Seleção não teve um zagueiro canhoto em campo.
Esse fato curioso impactou a construção brasileira, bem como as mudanças nas laterais. E os novos testes do italiano ao longo do jogo talvez tenham deixado mais dúvidas do que certezas.
Mudanças leves de Ancelotti já geram variação no Brasil
Se houve até críticas modestas sobre os poucos testes que Ancelotti promoveu contra a Tunísia, no que ele mesmo colocou como uma Data Fifa que seria o ultimato para testes, as poucas mudanças foram significativas.
Os laterais ditam a forma como o time constrói. O Brasil enfrentou os tunisianos com dois novos jogadores em relação ao jogo contra Senegal — e isso mudou a forma como o time construiu.
Se contra Senegal a ideia era preservar o posicionamento dos laterais e sair jogando em 4-1, agora novas dinâmicas se fizeram presentes. Wesley avançava mais pelo lado, enquanto Caio Henrique subia pelo meio-espaço.

Com Wesley avançando, Bruno Guimarães descia para ocupar sua posição. Contra um 5-3-2 da Tunísia, isso gerava vantagem tanto no meio quanto abria espaço na lateral. Quando há esse movimento, Estêvão cai para o meio-espaço — algo parecido com o que aconteceu nos primeiros jogos de Ancelotti.
No lado esquerdo, Caio Henrique avançava pelo meio-espaço para liberar a lateral a Rodrygo, que descia para receber desmarcado. Matheus Cunha, o falso nove, ocasionalmente recuava até a linha de Casemiro e, por vezes, criava um 4-2 na saída.
As dinâmicas mantiveram um propósito que tem se feito presente em toda a era Ancelotti: movimentações para arrastar adversários e criar linhas de passe para que o time progrida sem pressão. Mas foram novas ideias.
Fica a impressão que as mudanças não foram tão efetivas pelo fato do Brasil não ter priorizado tanto a progressão pelo meio quanto em jogos anteriores. Os movimentos de Bruno lateralizando e um zagueiro pela esquerda destro faziam o jogo ser mais aberto do que o padrão.
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Novidades no segundo tempo revivem drama da era Tite na seleção brasileira
Existe um antes e depois do Brasil de Tite. E o marco crucial foi a tentativa do treinador de furar defesas com linhas de cinco. Há críticas injustas sobre o time ter se tornado burocrático e previsível depois, mas a mudança existiu.
Carlo Ancelotti jogou contra linhas de cinco defensores contra Chile e Coreia do Sul, por exemplo. E venceu os dois — em duas das principais atuações da equipe em termos criativos. Não pareceu ser uma questão.
Isso porque o padrão do time foi seguido à risca: progressão com passes de ruptura pelo meio e combinações curtas com meias talentosos e dribladores. Não foi o caso contra a Tunísia.
As coisas ficaram mais complicadas com as mudanças. No segundo tempo, Danilo entrou no lugar de Wesley, que não foi bem, e o padrão de construção mudou: agora, o time saía em 3-2, com Caio Henrique invertendo para o meio. Estêvão passou a abrir mais em amplitude.

Isso fez o time ter mais controle da bola de forma paciente e sufocar os tunisianos na sua própria área, mas ainda preferiu levar a bola ao lado do que para o meio. E a outra substituição no intervalo pode ser a resposta: Vitor Roque no lugar de Matheus Cunha.
O palmeirense, mais um centroavante de ruptura, fazia a mesma função de Vinícius Júnior. Em determinados momentos era nítido como os dois formavam uma dupla clássica de atacantes que empurram a linha defensiva e esperam pela bola nas costas. Isso despovoa o meio e também impede que haja progressão por uma zona perigosa — e que o Brasil historicamente tem sido dominante.

O drama com a linha de cinco mudou Tite, mas não foi isso que fez o time de Ancelotti jogar diferente contra a Tunísia. A sete meses da Copa do Mundo, a dúvida do italiano, e de quem acompanha a Seleção, ainda parece ser sobre as laterais. No entanto, a incerteza sobre talvez a posição mais impactante do futebol atual pode ter consequências na forma como o time constrói, chega à área adversária e defende.



