Como a nostalgia virou principal arma de marcas esportivas para atrair torcedores
Após décadas apostando em inovação, fornecedoras de material esportivo voltam olhar para o passado como forma de criar pertencimento e identificação
Em 2000, a marca esportiva Kappa revolucionou o mercado do futebol com o lançamento da icônica linha de camisas “Kombat“. Em uma era de uniformes (muito) largos, aquelas camisas elásticas e justas ao corpo foram um marco.
Dois anos mais tarde, a Puma ousou com um uniforme sem mangas para a seleção de Camarões, campeã da Copa Africana das Nações, que acabou vetado pela Fifa. Naquele mesmo 2002, a Nike lançou uma camisa “dupla” para a Copa do Mundo, com um forro para reter o suor na parte de dentro do tecido.
Desde então, as camisas de time ficaram progressivamente mais tecnológicas. Ao longo das duas primeiras décadas dos anos 2000, as grandes marcas investiram pesado para potencializar a performance dos atletas com materiais cada vez mais leves, aerodinâmicos e respiráveis.
A tecnologia era a palavra-chave nesta guinada futurista que, aos poucos, foi tomando o caminho inverso.
Na última década — especialmente de um par de anos para cá — , as fornecedoras de material esportivo passaram a olhar para o passado e a beber das fontes de uniformes históricos para desenhar as camisas de time. Uma onda nostálgica de reedições e inspirações nos anos 80 e 90 que hoje domina o mercado.

Por que a nostalgia domina o mercado de camisas de time?
A nova ordem de “prioridades” no design e na criação de camisas de time passa também por uma mudança de valor atribuído aos uniformes. Eles deixaram de ser pensados como mera “ferramenta” de jogo.
Hoje, as marcas tratam as camisas sob a ótica do torcedor. As peças são pensadas para transmitir toda a herança cultural que carregam e gerar identificação e pertencimento. Não são apenas uniformes, mas sim a materialização do sentimento de quem veste a camisa do time do coração.
— Existe, sim, uma nostalgia do torcedor em revisitar épocas de glória e de grandes jogadores, mas também há um aspecto estético muito importante: várias camisas marcaram época pelo design, não apenas por títulos. A combinação entre emoção, memória afetiva e identidade visual forte explica por que o torcedor busca tanto modelos vintage — afirma Fernando Kleimann, sócio-diretor da Volt.
Esta mudança de percepção da camisa de time como um produto cultural e de identidade levou os uniformes do campo às ruas e até mesmo às cenas de moda, música e arte.
O efeito colateral disso é o crescimento do mercado de vendas de camisas originais de época. As peças deixaram de ser apenas itens de colecionadores para se inserir no mundo fashion.
— Eu acho que é uma tendência do mercado. O que tem dado retorno são as camisas nostálgicas e com referências alusivas a modelos antigos. Eu não diria que o mercado de originais da época incomoda as grandes marcas, até porque elas se aproveitam e surfam na onda do momento. Resta saber qual será a próxima onda — analisa Vinnie Martins, colecionador e gerente da Atrox Casual Club, uma das maiores lojas de camisas de time de São Paulo.

Os exemplos desta tendência se multiplicam por marcas, clubes e países diferentes. Não é exagero dizer que 2025 foi “o” ano das reedições e inspirações em templates históricos.
Recentemente, a Kappa celebrou os 25 anos da linha Kombat com uma reeleitura para 18 times, entre eles o Vasco, que atuou como o uniforme especial na derrota para o Mirassol. A Adidas, por sua vez, adaptou o template da Teamgeist, que fez história em 2006, nas camisas de seus clubes.
A Nike foi ainda mais direta. Apenas reeditou a icônica Total 90 em duas frentes. Os principais clubes da marca — o Corinthians entre eles — receberam terceiros uniformes neste template. Em paralelo, a marca relançou diversas camisas em réplicas das originais da época.
As duas grandes empresas de materiais esportivos também rivalizam no relançamento de chuteiras. A Nike, com a Total 90 de volta, e a Adidas com diversas cores da icônica Predator.
E já é possível afirmar que a nostalgia seguirá como tendência em 2026. A Adidas recriou duas camisas icônicas no lançamento dos uniformes da Copa do Mundo de 2026: a da Alemanha de 1990 e a do México de 1998.

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A marca que canalizou esta tendência no Brasil
No Brasil, a Volt foi a marca que soube captar e materializar esta tendência em uma coleção inspirada nos anos 90 para os clubes para os quais fornece materiais esportivos.
América-MG, Botafogo-SP, Criciúma, Figueirense, Fortaleza, Joinville, Remo, Vila Nova e Vitória ganharam camisas especiais que sintetizam a estética do futebol dos anos 90 com a contemporaneidade do streetwear.
— A década de 90 foi um período muito particular para os fornecedores de material esportivo: havia mais liberdade criativa, o mercado já estava mais profissionalizado, e era possível inovar com design, padrões gráficos e combinações que fugiam totalmente do óbvio. A ideia da coleção foi resgatar essa identidade. É uma forma de relembrar modelos históricos dos clubes, mesmo quando não estão diretamente ligados a conquistas, e entregar ao torcedor uma experiência emocional muito forte — analisa Fernando Kleimann, sócio-diretor da Volt.

Mercado não corre riscos sem novos designs marcantes?
A onda de inspirações em templates históricos e reedições também traz consigo uma reflexão em forma de duas perguntas sobre o futuro do mercado de camisas de time.
Se hoje, os designers bebem do passado, não há um risco de “estagnação” na criação de layouts? E que legado as camisas atuais deixam para o futuro, se elas já são inspiradas em camisas de décadas anteriores?
— Não vemos risco de estagnação. Historicamente, a maioria das camisas lançadas no Brasil e no mundo já traz algum tipo de referência a momentos marcantes dos clubes, seja aos anos 80 e 90, seja a jogadores, títulos ou até símbolos da cultura local. A homenagem faz parte do DNA da camisa de futebol. O que deve ocorrer é uma evolução nesse processo: novas tecnologias e novos marcos esportivos também vão gerar coleções futuramente. O movimento é cíclico, e isso mantém o mercado vivo — sintetiza Fernando Kleimann, da Volt.
A onda nostálgica de camisas de time é apenas parte de uma tendência mais ampla de consumo e comportamento que dita os rumos de outros mercados. Não apenas da moda, mas também da música e do entretenimento.

A moda, por exemplo, sempre se alimenta de elementos estéticos de décadas passadas. Um dos movimentos recentes foi o retorno do estilo “preppy”, com uma mistura de peças clássicas com peças esportivas mais elegantes.
Na música, a turnê do reunião do Oasis levou os fãs de volta para o final da década de 90 e início dos anos 2000. O efeito colateral da tour é a retomada do estilo do “britpop” eternizado pelos irmãos Gallagher, com o visual das arquibancadas do futebol inglês.
— Eu não acho que vai estagnar. Eu acho que estão surfando na onda do momento, e o velho nunca sai de moda. A nostalgia, a música dos anos 80, a vestimenta dos anos 90. São tendências de consumo. Algumas coisas sempre voltam. E a gente nunca sabe qual é a próxima década a ser feita uma releitura. Quando eu acho que está acabando, (o mercado) volta com mais força ainda. Mais clientes eu atendo, fashionistas, colecionadores surgindo com novos focos. O mercado do futebol nunca está estagnado. Mas acho que devem, sim, pensar em coisas novas sempre — analisa Vinnie Martins, da Atrox.
O mercado das camisas de futebol — e não apenas ele — seguirá bebendo das fontes do passado. Resta saber qual será a próxima tendência



