Neurociência no futebol: Até onde é possível explicar talento e genialidade?
O que a ciência diz sobre aquele jogador que "vê alguns segundos à frente" e que encontra saídas inesperadas - e muito mais
Aquele meia que faz um passe que rompe a defesa por um ângulo que a maioria dos jogadores não encontraria. Ou o ponta que encontra uma brecha de espaço na marcação quase sem pensar. No jargão popular do futebol brasileiro, esses jogadores “enxergam alguns segundos à frente”. E na ciência?
A neurociência é parte cada vez mais presente no esporte. Estudos na área são usados para melhorar descanso, capacidade física, aprendizado e a cognição do atleta. Mas e o dom? Aquilo com o qual “o jogador nasce” — é possível explicar ou até mesmo treinar isso?
O talento é um conceito abstrato em diferentes ramos da vida, e no futebol não é diferente. Por isso, a Trivela foi a fundo para buscar explicações: a ciência consegue nos dizer o que faz de um jogador um “gênio”? Para isso, é preciso entender muito sobre o cérebro humano.
O que acontece com o cérebro quando se joga futebol
Ao praticar futebol, o atleta — ou qualquer pessoa não profissional que esteja jogando — ativa diversas áreas diferentes do cérebro. Desde as motores, como o córtex motor e o cerebelo, que fazem o corpo se movimentar sem que a pessoa precise necessariamente pensar naquilo, até as de tomada de decisão e previsão de movimentos.
Segundo Ricardo Eid, médico do esporte especialista em concussão cerebral, seguir ordens, entender táticas e toda a complexidade “teórica” do jogo também está atrelada a áreas importantes do cérebro que já são acionadas naturalmente quando há a prática do futebol.
— E tem outras áreas do cérebro que são ativadas, como o córtex pré-frontal, que são regiões usadas para o raciocínio. E aí entra a questão de tática, de memória, leitura de jogo e esses tipos de habilidade — explica em contato com a Trivela.

Para o especialista, o padrão de ativação cerebral dos jogadores, no entanto, não sofreu grande mudança ao longo da História. Ou seja: os atletas atuais não necessariamente têm mais áreas do cérebro trabalhando do que aqueles de décadas atrás, mesmo que o jogo tenha evoluído e se tornado mais complexo.
“Não dá para falar que muda o padrão de ativação do cérebro. Mas hoje, com certeza, a quantidade de informação que eles recebem realmente é muito maior. Isso não quer dizer que todos assimilam”.
Em termos psicológicos, por outro lado, a grande quantidade de informação definitivamente afeta os jogadores. Em contato com a reportagem, Luana Gastão, psicóloga das categorias de base do Corinthians, explica que os jovens principalmente têm sido muito afetados pelo imediatismo.
— A gente antecipa tudo e quer informação imediata. E isso atrapalha até o nível de concentração. Eu acredito que afeta no ‘viver o presente’, de querer já saber do próximo passo” — diz a especialista.
Guti, with his almost supernatural vision, could assist you from anywhere. 👀✨ pic.twitter.com/y9yEV7lZ9w
— The Extreme Football Enthusiast (@ExtremeFootbal4) September 22, 2025
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O papel da ciência sobre genialidade e talento
O talento ainda é um tema nebuloso na ciência. À Trivela, Ricardo admitiu: ainda não é algo possível de ser previsto por padrões de ativação cerebral e nem há uma ligação genética direta que diz respeito à genialidade de um jogador.
— Performance a gente (da ciência) não consegue prever. Porque tem fatores de padrões de ativação neural, tem questão de coordenação motora e questões genéticas para desenvolvimento de força muscular, de capacidade aeróbica… A performance esportiva é uma combinação de todos esses aspectos, e entrando ainda os aspectos psicológicos, que influenciam muito — pontua o médico do esporte.
A genética vai até certo ponto: ela diz porque um jogador aguenta correr mais do que outro, ou porque ele consegue desenvolver mais músculos e torcer menos o tornozelo. Mas não há estudos que ligam padrões genéticos com, por exemplo, a velocidade das sinapses ou gatilhos cerebrais.
Segundo o especialista, em termos neurológicos, o que diferencia os jogadores e que pode chegar mais perto de conversar com o talento é a parte cognitiva do atleta.

Isso porque a parte física dos atletas de elite é muito nivelada, assim como outros aspectos, como alimentação, sono e até mesmo o psicológico. A parte cognitiva, que envolve tomada de decisão, reflexo e leitura de jogo, no entanto, não são niveladas. E, como ele explica, também podem ser desenvolvidas.
Por que alguns jogadores ‘enxergam alguns segundos antes’ dos outros?
Os estereótipos dos meias cerebrais, que enxergam espaços antes deles se formarem e têm a visão de colocar a bola em um lugar que não será alcançado, ainda não são ligados a fatores genéticos. Para o médico, a criação desses jogadores está atrelada a experiências passadas que eles tiveram com resoluções de problemas parecidos.
— Talvez ele tenha sido exposto a situações ao longo da vida em que precisou solucionar mais rápido aqueles problemas. A gente precisa ser exposto aos problemas para conseguir se desenvolver em cima deles. Não quer dizer que se eu for exposto aos mesmos problemas que você, eu vou me desenvolver da mesma maneira. Aí tem questão de talento — explica Ricardo.
Lembra dos jogadores que a gente não só admira, mas fica hipnotizado ao assistir? Andrea Pirlo era isso.
Cada toque era calmaria e furacão ao mesmo tempo. Verdadeiro craque.
pic.twitter.com/pV1TPQH5F0— Curiosidades Europa (@CuriosidadesEU) August 18, 2025
A diferenciação no desenvolvimento é a chave para a diferenciação do atleta e, possivelmente, onde o talento entra. O especialista ilustra com exemplo claro de ativação cerebral:
- Quando alguém que nunca jogou futebol na vida pratica o esporte pela primeira vez, essa pessoa ativa as mesmas áreas do cérebro do que Lionel Messi, por exemplo. Isso não quer dizer que só por isso ele consiga fazer o que Messi faz;
- Se alguém está se imaginando jogando futebol, também ativa as mesmas áreas do cérebro que ativaria se estivesse de fato jogando;
- Se comparar Messi ou outro jogador mais plástico, técnico e driblador, com outro atleta que não tem essas características, não existem evidências de que isso ocorre porque áreas diferentes do cérebro foram desenvolvidas ao longo da vida — e, por isso, nasce a atribuição ao talento e “dom natural”.
Genética também pode afetar o jogador psicologicamente
Se ela não dita o futuro em termos de habilidade, a genética pode indicar um possível caminho para um jovem jogador em termos psicológicos, segundo a especialista.
“Existem casos em que, se eu tiver uma vulnerabilidade genética, ou seja, no meu histórico familiar tem uma pessoa com ansiedade ou depressão, eu posso, como consequência do ambiente em que eu me desenvolvi, apresentar alguma coisa a partir disso, por exemplo. Mas eu preciso de uma vulnerabilidade genética para isso“, explica Luana.
“Por isso que eu falo que cada atleta é um atleta“, brinca a psicóloga. A vulnerabilidade genética é, na prática, a propensão de alguém a desenvolver uma doença ou condição devido a fatores herdados geneticamente de familiares — mesmo que não seja certeza de que isso vá se manifestar.
A situação indica uma maior probabilidade de ocorrer, especialmente se combinada com fatores ambientais, como contexto social, educação e amizades, por exemplo. A fase de desenvolvimento enquanto criança, no fim, é crucial para entender o futuro daquele jogador, mesmo que não seja possível prevê-lo como ciência exata. E isso, de certa forma, também diz respeito ao talento e à genialidade.



