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Como lesão de Rodrygo impacta as ideias de Ancelotti para o Brasil na Copa do Mundo

Atacante do Real Madrid era peça crucial e sua saída pode fazer seleção brasileira mudar estilo de jogo

O departamento médico do Real Madrid confirmou nesta terça-feira (3) que Rodrygo rompeu o ligamento cruzado anterior (LCA) do joelho direito. Uma recuperação esperada de seis a sete meses acaba não só com a temporada do atacante, como o impede de disputar a Copa do Mundo pela seleção brasileira, que começa daqui exatos 100 dias.

Rodrygo foi um dos principais jogadores da era Carlo Ancelotti na Seleção e, por mais que ainda haja dúvidas sobre quem será o quarteto ofensivo do time, é inegável que o camisa 11 merengue estava entre os possíveis titulares. Sua ausência agora fará o italiano repensar sobre seu substituto, mas também possivelmente nas ideias que levará a campo sem ele.

Vini, Martinelli… Quem substitui Rodrygo no Brasil?

O Brasil de Ancelotti teve uma amostragem de apenas oito jogos. Jogou em variáveis de 4-3-3, 4-2-3-1 e 4-2-4. Os melhores momentos do time, no entanto, vieram com um quarteto de ataque móvel, que reunia talento, condução em curto espaço e ataque a profundidade.

A ideia central do italiano passa por buscar o entrelinhas e progredir pelo meio com passes de ruptura desde a defesa, controle de jogo com volantes e meias e aproximação dos pontas e atacantes. Rodrygo teve boas atuações como o ponta-esquerda do 4-2-4 que caía por dentro, se aproximava do centro do jogo e criava com dribles e tabelas.

Foi assim contra Tunísia, Senegal e Coreia do Sul. Nesses jogos, Rodrygo deu quatro passes-chave, uma assistência e marcou dois gols. Contra Coreia e Senegal, por exemplo, foram dois dos principais jogos do ciclo com Ancelotti.

Rodrygo comemora gol do Brasil sobre a Coreia do Sul
Rodrygo comemora gol do Brasil sobre a Coreia do Sul (Foto: @rafaelribeirorio/CBF)

A substituição pura de Rodrygo por Vinícius Júnior, por exemplo, parece óbvia. Ao olhar desatento, inclusive, Vini é o ponta-esquerdo titular, porque é assim no Real Madrid. Mas não é assim que o Brasil joga.

Vini tem rendido melhor na Seleção de Ancelotti como um centroavante de mobilidade, que ataca a profundidade e que cai pela esquerda aproveitando espaços. Mas não é um ponta, nem um falso nove — posição em que foi testado contra o Japão e não foi bem. O único jogo em que Vini foi puramente ponta foi na estreia do italiano, contra o Equador, em um dos piores jogos da Seleção nessa era.

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Tirar Rodrygo significa mudar a ideia

Quem mais jogou na esquerda além do ex-Santos foi Gabriel Martinelli. Foi titular contra Japão, Chile e Paraguai, mas tem características diferentes e sua titularidade implicaria em mudanças no estilo.

Martinelli é um ponta mais clássico: fica mais próximo da linha, com enfrentamento individuais próximos à lateral para ir ao fundo e entrar na área pelo lado. Claro que também consegue se aproximar do meio para fazer tabelas, mas não é tão natural nessa função quanto Rodrygo.

Contra o Japão, Martinelli e Luiz Henrique foram dois pontas clássicos com Vini como falso nove em um 4-3-3 que não deu certo. O Brasil não priorizou construir pelo meio e teve dificuldade de passar da linha de cinco japonesa.

Contra o Chile, a dupla de falsos noves de Raphinha e João Pedro permitiu que a criação partisse deles, e Estêvão e Martinelli, os pontas, fossem mais agudos — e foi promissor, o primeiro grande jogo da era Ancelotti.

contra o Paraguai, Vini e Matheus Cunha foram a dupla de ataque, com o primeiro se isolando como um atacante que ataca as costas da defesa, enquanto Cunha descia como meia, ajudado por Raphinha, o ponta-direita. Vini não foi bem, apesar do gol, porque parecia bater cabeça com Martinelli na esquerda, uma vez que os dois ocupavam o mesmo espaço.

O que deve acontecer com a seleção brasileira na Copa

Realisticamente, no momento atual, existem três linhas de pensamento para a ponta-esquerda sem Rodrygo:

  1. Substituí-lo por Martinelli, que tem sido a outra opção testada, e ter uma leve mudança de ideias;
  2. Colocar Vinicius Junior na esquerda e liberar um lugar entre os centroavantes;
  3. Jogar Raphinha para a esquerda, como acontece no Barcelona, e manter o padrão da posição.

A primeira opção pode ser mais simples, mas impacta na forma como o Brasil constrói e chega ao último terço. Martinelli já joga com alguma frequência na Seleção, mas é um jogador diferente de Rodrygo.

A segunda tem implicações mais profundas. Vinicius também é um jogador diferente do companheiro de Real Madrid: Rodrygo é mais um meia, com um âmbito mais criativo e em curto espaço; Vini também tem essas valências, mas se destaca ainda mais quando tem campo para atacar, está mais perto da área e pode dar mais toques na bola.

Raphinha pela seleção brasileira (Foto: Imago)
Raphinha pela seleção brasileira (Foto: Imago)

Já a terceira pode ser a saída mais direta para Ancelotti sem mudar os padrões do Brasil, mas Raphinha não jogou pela esquerda com o novo treinador. Seus jogos foram pela ponta-direita ou como um dos falsos noves.

É justo dizer que a posição seria assimilada sem grande dificuldade. Raphinha já joga na esquerda no Barcelona e faz algo parecido: cai pelo meio, se aproxima do centro de jogo e é impactante entrelinhas, enquanto deixa o lado para um jogador com mais características de corredor.

Ainda assim, Raphinha na esquerda traz outras dúvidas: Vinícius pode ocupar o lado esquerdo deixado por ele, mas quem ataca a profundidade como 9 sem o jogador do Real Madrid? E no Barcelona, Raphinha entra para deixar o lado para Balde, um ala bem ofensivo — o Brasil não tem jogado com o lateral-esquerdo subindo tanto.

E se Neymar ainda é um jogador considerado por Ancelotti, é inegável que é uma possibilidade. Rodrygo é, em termos comparativos, uma versão mais jovem e em mais alto nível do que Neymar apresenta atualmente. Ainda assim, em seus melhores momentos nos últimos anos, o camisa 10 do Santos fez muito bem justamente o que a função de Rodrygo na Seleção pede.

A convocação em março para a próxima Data Fifa deve ser crucial para que Ancelotti ataque essa questão. Afinal, a saída de um de seus principais e mais únicos jogadores deve impactar o planejamento de todo um sistema.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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