Brasil

Por que jogar com quatro atacantes não tem relação com fragilidade defensiva do Brasil

Derrota para a França reacendeu a ideia de que escalar quarteto ofensivo é ideia 'maluca' e desnecessariamente ofensiva, mas uma coisa não tem ligação com a outra

Principalmente depois da derrota para a França, na última quinta-feira (26), o debate na seleção brasileira virou o número de atacantes escalados por Carlo Ancelotti. O quarteto ofensivo passou a ser visto como frágil defensivamente diante de grandes adversários.

O argumento, então, era de que o Brasil deveria “povoar mais o meio”, deixando de jogar no seu misto de 4-2-3-1/4-2-4, para, talvez, um 4-3-3. Mas o que exatamente essa reflexão quer dizer? E ela faz sentido analisando o contexto como um todo?

O Brasil com quatro atacantes é frágil defensivamente?

Como o futebol é complexo em diferentes frentes e não é uma ciência exata, a resposta mais justa para essa pergunta é: depende. Escalar quatro atacantes não tem necessariamente ligação com a capacidade de um time de defender.

Esse argumento, em especial quando referido à Seleção, tem alguns problemas. O principal é que, na era Ancelotti, o 4-2-4 brasileiro na maior parte do tempo contava com, na prática, apenas um atacante: Vinicius Júnior.

Os melhores jogos do Brasil com o italiano vieram com um padrão evidente: no quarteto ofensivo, haveria um falso nove, um atacante de profundidade, com liberdade para cair pelo lado, e dois pontas que alternavam entre corredor lateral e meio-espaço, mas que principalmente se aproximavam do centro de jogo.

Vinicius Júnior pela seleção brasileira (Foto: IMAGO / Sports Press Photo)

A combinação de maior sucesso contou com Rodrygo e Estêvão como pontas e Vini e Matheus Cunha como dupla de ataque. A questão é que os dois pontas são, por natureza, meias, assim como Matheus Cunha. E, se considerar que o camisa 7 do Real Madrid é um ponta de origem, o 4-2-4 da Seleção, na verdade, não tinha nenhum centroavante.

Houve também o argumento de que Ancelotti estava reunindo muitos pontas no time, principalmente contra a França, quando escalou Gabriel Martinelli, Vinicius, Cunha e Raphinha. Depois, ainda colocou Luiz Henrique antes de levar a campo Igor Thiago e João Pedro. E que esse acúmulo de pontas prejudicaria a fase defensiva.

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Desmistificando a defesa da seleção brasileira

A grande questão é que, independente de quantos atacantes estejam na formação inicial, em todo o ciclo com o italiano, o Brasil defendeu em 4-4-2. Mesmo quando jogou em 4-3-3 clássico como em jogos contra Equador e Japão. Nas ocasiões, teve um volante fixo, Casemiro, com dois camisas oito à frente, como Bruno Guimarães, Lucas Paquetá e Gerson. Ambos os desempenhos foram ruins, inclusive.

Com Tite, por exemplo, 4-3-3 do Brasil virava um 4-1-4-1 sem a bola. Ancelotti nunca abriu mão do seu 4-4-2 em organização defensiva e o padrão sempre se seguiu: os pontas na linha dos volantes e Vini e Cunha à frente.

A seleção brasileira com seu time titular tem se postado majoritariamente em bloco médio e, em situações em que defende mais perto do seu gol, teve sucesso em se compactar e impedir a progressão entre as linhas. Ter quatro ou dez atacantes não muda esse padrão.

Nesse 4-4-2, a seleção tem uma dupla de volantes que combina cobertura defensiva, leitura de interceptação de passes e combate agressivo com Casemiro e Bruno Guimarães. Os dois fecham o corredor central e são cruciais para impedir que os adversários usem os intervalos entre os zagueiros.

Nos lados, há a dobradinha de ponta e lateral para impedir que a bola entre no corredor central, e o foco é obrigar o opositor à linha de fundo, quando será afunilado pelas linhas, ou para trás, onde inicialmente não apresenta perigo. Isso é padrão no sistema defensivo e não diz respeito ao número de atacantes escalados.

Claro que o material humano deve ser levado em consideração. Vini, por exemplo, fica mais à frente para o primeiro combate, principalmente para não ser tão desgastado defensivamente e ser uma arma em contra-ataques. O mesmo que gerou críticas a Tite e Gabriel Jesus na Copa de 2018, quando o camisa 9 “virou assistente de lateral” para liberar Neymar.

E essas características individuais podem, sim, apresentar fragilidades que custam jogos. Vinicius pode não ser um grande pressionador como Jesus era, e uma pressão mal feita pode criar um efeito dominó que gere um gol.

O real problema defensivo para Ancelotti e o que os atacantes têm a ver com isso

A grande questão da defesa brasileira não é o número de atacantes, mas o que eles fazem. Poderia ser um 4-5-1 sem atacantes, com nenhum ponta tradicional e apenas um falso nove, e o “problema” seria o mesmo. E é estrutural: Ancelotti ainda não encontrou uma boa combinação para o sistema de pressão e principalmente a transição defensiva.

O jogo em que a Seleção pressionou melhor foi contra Senegal, com Éder Militão como um lateral-direito que conseguia subir pressão de forma controlada, mas agressiva, e sem prejudicar seu posicionamento na linha de quatro. Ele agiu como um balizador para que os meias e atacantes ao seu redor conseguissem subir pressão de forma controlada.

Naquele jogo, o Brasil criou armadilhas para os senegaleses liberando espaço para passes longos aos laterais, só para que Militão ou outro jogador no setor subisse ferozmente para roubar a bola enquanto ela estava no ar.

No entanto, a grande questão brasileira é que essa qualidade na pressão não foi constante. Não conseguiu roubar a bola com facilidade do Equador, na estreia de Ancelotti, e houve dificuldades quando os adversários construíam com três jogadores atrás, como nas derrotas para Japão e França.

Ancelotti, técnico do Brasil (Foto: Daniel Derajinski/Icon Sport)

O 4-4-2 naturalmente tem desvantagem contra uma saída de três. Com essa estrutura, algum dos pontas deve sair da posição para equilibrar numericamente a pressão, mas abre espaço pelos lados. Se o goleiro for colocado na equação, então, a desvantagem é ainda maior.

Não é sobre ter atacantes em campo, mas ter um padrão defensivo que encontrou dificuldades e ainda não conseguiu se desvencilhar delas. A França, por exemplo, também usou quatro atacantes contra o Brasil, mas defendeu em 4-1-4-1, sem necessariamente pressionar os zagueiros igualmente, mas com Kylian Mbappé orientando a construção brasileira para um dos lados e, então, ativar o gatilho para pressionar mais forte.

Além disso, o 4-1-4-1 francês conseguia fazer com que os dois apoios centrais brasileiros estivessem sempre cobertos, além de ter um homem a mais para se preocupar com o entrelinhas. Ao abdicar de dois na frente na hora de defender, criaram superioridades em outras áreas.

E esse sucesso defensivo na pressão sendo adquirido com nomes como Mbappé, Hugo Ekitiké, Ousmane Dembélé e Michael Olise, jogadores altamente ofensivos e nem um pouco conhecidos por seu trabalho na defesa, só reforça que o número de atacantes não importa nesse cenário e nem faz o time mais frágil.

O que é frágil ou não é a estrutura. O sistema defensivo como um todo tem debilidades claras e Ancelotti deve encontrar respostas para essas situações, e nem por isso precisa abrir mão do seu 4-2-4.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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