Por que insistência com 4 atacantes cria mais problemas do que soluções para Brasil?
Ancelotti voltou a apostar em um sistema ofensivo, porém, amistoso contra França deixou claro as consequências
No primeiro teste de Carlo Ancelotti contra uma seleção europeia, o Brasil perdeu para a França. Mais do que o resultado, o que chamou a atenção foi a dificuldade da equipe em criar jogadas perigosas no ataque e em defender os avanços em velocidade do time de Didier Deschamps.
Mesmo sem Rodrygo, que sofreu grave lesão no joelho e é desfalque certo para a Copa do Mundo, o treinador italiano voltou a apostar no esquema 4-2-4, com Vinicius Jr., Gabriel Martinelli, Raphinha e Matheus Cunha no último terço. Entretanto, o quarteto ofensivo não causou impacto quando acionado.
Os franceses entraram em campo com a mesma formação tática, porém, com um padrão de jogo bem mais estabelecido. Michael Olise, Ousmane Dembélé, Kylian Mbappé e Hugo Ekitiké trocavam constantemente de posição entre si, além dos pontas apoiarem a primeira linha para facilitar a transição ao ataque.
Com tantos desfalques por lesão, sobretudo na defesa, a Seleção de Ancelotti foi dominada pela França. E diante de uma favorita ao título do Mundial, o Brasil mostrou que não tem medo de abdicar da posse de bola e apostar em contra-ataques rápidos.

Só que, para essa estratégia não ficar tão vulnerável contra uma seleção de primeira prateleira, é preciso fortalecer o meio-campo. E o futebol apresentado antes da expulsão de Dayot Upamecano, aos 10 minutos do 2º tempo, mostra que há mais problemas do que soluções num 4-2-4 no alto nível competitivo.
Só Casemiro e Andrey Santos não vão salvar a seleção brasileira
Na ausência de Bruno Guimarães, que é o homem de confiança do técnico italiano na seleção brasileira, Casemiro foi escalado ao lado de Andrey Santos. Entretanto, a dupla ficou sobrecarrecada com as tarefas defensivas e o papel de ligação com o ataque.
Sem a aproximação de Vini, Martinelli, Raphinha ou Cunha, os meio-campistas tentavam lançamentos longos para acelerar o processo de criação pautado na busca pelo espaço nas costas da seleção francesa. O sistema não funcionou, e a bola voltava a ficar com o adversário, que trabalhava mais o jogo com toques curtos.
Quando o Brasil tentava sair jogando desde o goleiro, a França espelhava a marcação nos zagueiros, laterais e volantes, enquanto o quarteto atacante continuava espetado lá na frente, com um grande buraco entre as linhas. Mais uma vez, a resposta era o chutão para frente.

A Seleção precisa se decidir: ou insiste no 4-2-4, mas com pelo menos os pontas aparecendo para ser opção de passe para destravar o primeiro avanço, ou abandona de vez essa ideia de encher o ataque e facilita a construção com outro volante/meia.
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Defesa exposta não é por acaso
Não custa lembrar que a Seleção tem um problema crônico nas laterais, sem unanimidades. Wesley, por exemplo, vem jogando como ala-esquerdo na Roma. No Brasil, o lateral joga em sua função de origem do lado direito, porém, tem características mais ofensivas do que defensivas.
No segundo gol dos franceses, o camisa 2 tentou roubar a bola à frente do círculo central, mas não conseguiu. Com isso, mesmo com um jogador a mais no gramado, o time do treinador italiano ficou em desvantagem numérica contra a equipe de Didier Deschamps e foi punida.
Casemiro e Andrey não têm condições de fechar o espaço pelo centro e ainda apoiar um lateral que gosta de avançar. Por outro lado, em uma linha de três meio-campistas, alguém poderia socorrer Wesley, ou quem quer que seja o ala, em situações semelhantes.

Como a situação física de Éder Militão é uma incógnita, Danilo, que tem jogado mais de zagueiro no Flamengo, é uma opção mais conservadora para a direita se Carlo Ancelotti manter seu quarteto ofensivo, já que não há necessidade de um lateral de linha de fundo com tantas opções de ataque como titulares.
Povoar o meio-campo traz mais equilíbrio
Vinicius Jr., Gabriel Martinelli, Raphinha e Matheus Cunha não fizeram um atuação espetacular que justificasse a sequência do 4-2-4. E diante de todos os pontos citados até aqui, talvez seja mais coerente povoar o meio-campo da seleção brasileira para ter equilíbrio defensivo e ofensivo.
Contra rivais mais fracos, o quarteto de ataque pode se sobressair. Entretanto, em um cenário eliminatório de Copa, abdicando da posse da bola como foi contra a seleção francesa, faz mais sentido um trio de sustentação à frente da zaga e atrás da última linha.
Com todos saudáveis, Casemiro, Bruno Guimarães e Andrey podem coexistir na Seleção. Os três têm bom controle de bola e sabem sair da pressão adversária. Além disso, têm capacidade de executar desarmes e interceptações para pegar a defesa rival desarrumada quando verticalizar o jogo.

Três meias também permitem que um lateral seja o elemento surpresa, ou até mesmo que um deles apareça na grande área vindo de trás. E com um futebol cada mas físico e intenso, não dá para ignorar a importância dos “todo-campistas”, principalmente quando os pontas do Brasil ainda não abraçaram o protagonismo com Neymar de fora.



