Itália

Como Wesley pode ganhar força na Seleção sendo improvisado por técnico que ‘ama laterais’ na Roma

Lateral ex-Flamengo mudou de posição e recebe tutela que pode ser crucial para suas chances com Ancelotti

Wesley deixou o Flamengo na última janela de transferências depois de uma proposta de 25 milhões de euros (R$ 155 milhões, na cotação atual) da Roma. Sua chegada casou com a do técnico Gian Piero Gasperini — e trabalhar com ele pode ser um grande trunfo para seu sucesso na seleção brasileira.

Atualmente na liderança da Serie A, a equipe da capital contratou Wesley para ser o ala-direito do esquema de Gasperini, que atua majoritariamente com três zagueiros e dois alas bastante ofensivos. O brasileiro foi bem e impressionou desde a pré-temporada, mas houve mudanças

No início de outubro, o ala-esquerdo titular, Angeliño, se lesionou. Sem grandes atuações do reserva, Kostas Tsimikas, e a confiança em Zeki Celik, lateral-direito de origem que vinha fazendo jogos como zagueiro, Gasperini decidiu ousar: colocar Wesley como ala-esquerdo. E o experimento vem dando grandes frutos para o brasileiro e pode ser algo que faz Carlo Ancelotti repensar suas opções.

Como Wesley joga na Roma pela esquerda

Muito elogiado pelo trabalho sólido na Atalanta, Gasperini tem revitalizado a Roma com seu estilo dinâmico, vertical e agressivo na hora de defender. Curiosamente, todas essas características também descrevem Wesley.

O treinador italiano coloca muita ênfase nas laterais durante o jogo, principalmente durante as fases de construção. A partir do seu 3-4-2-1, a ideia é formar triângulos nos dois lados e “esvaziar o meio” — algo que, inclusive, tem sido tendência tática no futebol.

A disposição da Roma de Gasperini
A disposição da Roma de Gasperini (Foto: Reprodução/Homecrowd)

O foco da Roma é sair por baixo e pelos lados. O zagueiro do lado da bola abre bastante, enquanto o ala avança levemente e há apoio central do volante e do meia, mais à frente e entrelinhas. Quem não está no quadrante do lado da bola, não se aproxima e cria-se o espaço no meio.

Isso é proposital: caso o adversário pressione, a Roma usa de corridas dos alas para puxar a marcação, meias descendo para ser opção de passe e volantes e zagueiros ocupando posições abertas para manter a estrutura enquanto o time mobiliza os opositores e cria espaços.

A jogada do gol de Wesley, de cavadinha, na vitória por 3 a 1 contra o Cremonese, nasce justamente desse padrão. A construção nasce com os triângulos pela esquerda, marcadores sendo puxados para o lado e abrindo espaços nas costas.

O padrão de construção antes do gol de Wesley
O padrão de construção da Roma antes do gol de Wesley (Foto: Reprodução/ESPN)

O time de Gasperini também usa muito dinâmicas de terceiro homem para acionar os alas em profundidade. No gol, Wesley avança para o espaço nas costas da defesa criado por Pellegrini, meia que desceu para ser opção de passe. Ferguson, o centroavante, não se aproximou e ficou no centro, vazio, justamente para não levar a marcação para perto da lateral.

Com isso, Wesley teve muito espaço para atacar e recebeu em profundidade livre, já que venceu seu opositor na velocidade e os marcadores de Ferguson e Pellegrini, que poderiam atrapalhá-lo, haviam sido arrastados para fora de posição.

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Wesley ataca o espaço criado e sai na cara do gol para marcar (Foto: Reprodução/ESPN)

A Roma ainda tem saídas para além desse padrão. Sem espaço, a equipe busca virar o jogo para o outro lado, que terá a mesma estrutura — e, provavelmente, terá vantagem numérica na hora da transição, já que o adversário priorizou a pressão em um dos lados.

Além disso, o espaço criado no meio também é usado para bolas longas para o centroavante e acionar quem vem de trás. A ideia central, no entanto, é a mesma: ser dinâmico e rápido para progredir.

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Como isso pode impactar a situação de Wesley na seleção brasileira com Ancelotti

Wesley está no páreo para uma das vagas mais indefinidas da seleção brasileira. Ao longo da era Ancelotti, o Brasil tem jogado com um lateral-direito de velocidade e profundidade, enquanto o lateral-esquerdo tende a ficar mais recuado, auxiliando os zagueiros na construção.

Esse desenho favorece as características de Wesley. No entanto, Éder Militão impressionou como lateral-direito e criou dúvidas. Vanderson, Wesley e Vitinho foram os jogadores com mais espaço nessa posição ao longo do ciclo, além de Danilo e Paulo Henrique, que devem correr por fora.

O jogador da Roma, no entanto, se valoriza ao atuar na esquerda. Pode dar opções a mais para o técnico italiano ao oferecer um lateral-esquerdo diferente do que tem sido visto no ciclo.

Wesley e Gasperini na Roma
Wesley e Gasperini na Roma (Foto: Imago)

As dinâmicas de terceiro homem na Roma são muito presentes também na seleção e, inclusive, renderam uma jogada do lateral-esquerdo Douglas Santos na partida contra o Chile, que acabou em gol de Estêvão.

Defender em uma linha de quatro e de cinco tem suas diferenças. Wesley salta para pressionar alto e com frequência no clube e tem um sistema de compensação de posições que não deve ocorrer no Brasil, por exemplo.

Ainda assim, o ex-Flamengo foi figura constante nas convocações e só ficou de fora da Data Fifa de outubro por conta de uma lesão. A mesma polivalência que pode ver Militão roubar a vaga de Wesley na direita é o que ajuda o jogador da Roma a ganhar mais espaço na disputa mais acirrada das vagas da Seleção.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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